Obesidade com Ciência
  • Curadoria científica 9 – ICO 2026: da ciência à experiência de quem vive com obesidade

    Evento: International Congress on Obesity (ICO 2026), World Obesity Federation, Cidade do México, 15 a 17 de julho de 2026

    Leitura estimada: 12 min

     

    Um congresso que começou pelas pessoas

     

    Antes da abertura oficial, o ICO 2026 já tinha começado. No dia 14 de julho, véspera do congresso, aconteceu a Obesity Lived Experience Global Summit, a Cúpula Global de Experiência Vivida em Obesidade, organizada pela World Obesity Federation com organizações de pacientes de vários países. O encontro reuniu pessoas que vivem com obesidade e teve um objetivo claro: dar a elas um espaço para trocar experiências, contar suas trajetórias e se preparar para atuar como vozes ativas na defesa de um cuidado melhor. Os temas passaram pela ciência da obesidade, pelo estigma e pela discriminação, pelo cuidado centrado na pessoa e pelo valor de contar a própria história. Começar por aí não foi um detalhe de agenda. Se a obesidade é uma doença crônica e complexa, quem convive com ela precisa participar das decisões sobre como pesquisar, tratar e explicar essa condição. As pessoas que vivem com obesidade são as únicas que podem falar dela por dentro, e o congresso escolheu ouvi-las primeiro.

    O anfitrião do congresso foi o médico mexicano Simón Barquera, então presidente da World Obesity Federation, e foi durante o congresso que a presidência da entidade passou para o brasileiro Bruno Halpern, sobre quem falaremos no fim. O que definiu esta edição, porém, foi menos o lugar e mais uma mudança na forma de olhar a obesidade. Ela deixou de ser medida só pelo peso e passou a ser entendida pelas características de cada pessoa: onde a gordura se acumula, como o corpo responde, que outras doenças aparecem junto. A pergunta que atravessou o congresso não foi quanto emagrecer, e sim quem é esta pessoa e o que precisamos cuidar além da balança.

    Uma observação sobre como ler o que vem a seguir. Um congresso mundial mostra tanto o que já está pronto para uso quanto o que ainda é caminho de pesquisa, e as duas coisas têm valor. Para deixar isso claro, sempre que possível dizemos o que já dá para levar para a consulta e o que ainda é cedo para incorporar. Onde um achado se apoia em estudos já publicados e revisados, tratamos como conhecimento firme. Onde ainda é resultado inicial, dizemos com franqueza, sem tirar o mérito de quem apresentou.

     

    Onde a gordura se acumula diz mais do que o peso

     

    O congresso reforçou uma ideia que muda a forma de avaliar um paciente: nem toda gordura age igual no corpo. A gordura que fica em volta dos órgãos, dentro do abdome, é mais ativa do que a gordura logo abaixo da pele. Ela libera ácidos graxos direto para o fígado e favorece a resistência à insulina, a inflamação e a doença gordurosa do fígado. Por isso, medir a circunferência da cintura e avaliar a composição do corpo diz mais sobre o risco de cada pessoa do que o número do IMC sozinho.

    No mesmo caminho, foi bastante discutido um diagnóstico que costuma passar despercebido, o lipedema. É uma doença própria do tecido gorduroso, diferente da obesidade. Aparece quase só em mulheres, costuma começar na puberdade, na gravidez ou na menopausa, distribui gordura de forma desproporcional nas pernas e nos braços, causa dor ao toque e responde pouco à restrição de calorias. O recado para a consulta é de atenção ao diagnóstico. Nem todo excesso de gordura é obesidade, e insistir em emagrecer quando o caso é outro não ajuda a pessoa. Na prática, isso já dá para aplicar hoje. Avaliar a distribuição da gordura e reconhecer o lipedema dependem de atenção clínica, não de exames caros.

     

    Cada pessoa responde de um jeito: genética e comportamento

     

    Dois assuntos ajudaram a explicar por que pessoas parecidas respondem de formas tão diferentes ao tratamento.

    O primeiro é a genética. A obesidade tem um componente hereditário forte, mas na maioria das pessoas ele não vem de um único gene, e sim de centenas de pequenas variações que, somadas, influenciam o peso. O ambiente continua sendo determinante. Existe também uma forma rara, causada por um só gene, que começa cedo, é mais grave e tem tratamento próprio. Para a consulta, isso ajuda a ajustar as expectativas e a conversar com a pessoa sem culpa: a genética predispõe, mas não decide sozinha o resultado.

    O segundo é o comportamento alimentar. Uma forma de classificar a obesidade por padrões de comportamento, descrita em estudos já publicados, ajuda a entender essas diferenças. Há quem sinta uma fome que vem do cérebro, com dificuldade de se sentir satisfeito. Há quem coma por emoção, em resposta ao estresse ou à tristeza. Há quem tenha uma fome ligada ao intestino, com a saciedade após a refeição durando pouco. E há quem tenha o metabolismo mais lento, gastando menos energia em repouso. Nesses estudos, a maioria das pessoas, cerca de 85%, se encaixava em pelo menos um desses padrões, e cerca de um quarto em mais de um. A ideia é escolher o tratamento de acordo com o padrão que predomina.

    Vale uma observação tranquila sobre esses padrões. A ideia de combinar o tratamento com o padrão de comportamento é promissora e conversa direto com o trabalho de quem cuida da alimentação, mas a evidência mais forte ainda vem de um único centro de pesquisa. É um caminho que os próximos estudos vão confirmar melhor. Já dá para usar como forma de entender a pessoa à frente, sem transformar os padrões em regra fechada.

    Ainda no comportamento alimentar, um dos temas de maior interesse no congresso foi o food noise, ou barulho mental relacionado à comida. A sessão sobre o assunto ficou lotada, com fila do lado de fora. O termo descreve os pensamentos frequentes e persistentes sobre comida, que ocupam boa parte do dia e tornam o tratamento mais difícil, uma experiência que muitas pessoas que vivem com obesidade relatam. As pesquisas mais recentes investigam como os novos medicamentos para obesidade atuam sobre esse mecanismo, reduzindo o barulho em parte dos pacientes. A procura pela sessão mostra o quanto entender os mecanismos biológicos da obesidade continua sendo uma prioridade da ciência. E, na prática, tanto o trabalho sobre o comportamento alimentar quanto a medicação ajudam a reduzir esse barulho, o que aproxima o cuidado nutricional do tratamento com medicação.

     

    Medicamentos que cuidam de mais do que o peso

     

    Talvez a mensagem mais forte do congresso tenha sido esta: os medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, os mesmos usados para emagrecer, mostraram benefícios que vão bem além da balança.

    Em pessoas com obesidade e doenças cardiovasculares, a semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos como infarto e AVC, no estudo SELECT. Na insuficiência cardíaca, houve melhora dos sintomas e da capacidade de fazer esforço. Nos rins, a semaglutida reduziu em 24% a piora da função renal em quem tem diabetes tipo 2 e doença renal, no estudo FLOW. Na apneia do sono, a tirzepatida diminuiu pela metade a gravidade dos episódios em pessoas com apneia e obesidade. No fígado, a semaglutida melhorou a forma mais avançada da doença gordurosa, com resolução da inflamação do fígado, a esteato-hepatite, em cerca de dois terços dos pacientes no estudo ESSENCE. E, em pessoas com pré-diabetes, a tirzepatida reduziu em 93% a passagem para o diabetes tipo 2.

    Uma pergunta natural é se todo esse benefício vem só da perda de peso. Aparentemente, não só. No próprio SELECT, apenas cerca de um terço do benefício no coração foi explicado pela redução da cintura, e o restante parece ter outra origem. Uma das explicações estudadas é a inflamação. Uma análise que reuniu vários estudos mostrou que esses medicamentos reduzem quase à metade um marcador de inflamação no sangue, a proteína C reativa, e essa queda acontece mesmo quando se leva em conta o peso perdido. Ainda é uma linha em investigação. Há também efeitos bem mais iniciais sendo estudados, como possíveis ações no cérebro e no comportamento, que por enquanto são hipóteses, e foi com essa clareza que apareceram no congresso.

    Para a consulta, o que já dá para aplicar é bastante. Escolher o medicamento pensando também no coração, no rim, no fígado, na apneia e no risco de diabetes, e não apenas no quanto a pessoa vai emagrecer, já é conduta apoiada em estudos sólidos. O que ainda é cedo é atribuir a esses medicamentos usos que a pesquisa está apenas começando a testar.

     

    Novos medicamentos chegando, e mais opções para cada pessoa

     

    O congresso também mostrou uma geração de medicamentos em desenvolvimento, que combina diferentes formas de agir no corpo. Alguns são por via oral, como o orforglipron e a versão em comprimido da semaglutida, que em estudo alcançou cerca de 16% de perda de peso entre quem seguiu o tratamento, chegando perto do resultado da injeção. Outros combinam dois ou três alvos ao mesmo tempo, como a retatrutida e a survodutida. Há os que agem por outro caminho, o da amilina, e um que interessa de perto a quem cuida da alimentação: um medicamento voltado a preservar a massa muscular durante o emagrecimento. Para as formas raras de obesidade causadas por um único gene, existe um tratamento específico, a setmelanotida.

    Alguns desses resultados são recentes, como os do programa de estudos da survodutida, que mostrou perda de peso próxima de 16% em pouco mais de um ano.

    Duas observações ajudam a usar bem essa informação. A primeira é que boa parte desses dados vem de estudos ainda em fase de teste, muitos patrocinados pelas próprias fabricantes, o que não invalida os resultados, mas pede leitura atenta. A segunda é sobre o número da semaglutida em comprimido: os cerca de 16% valem para quem seguiu o tratamento como recomendado. Considerando todos os participantes, incluindo quem interrompeu, o valor médio fica um pouco menor, perto de 14%, e o grupo estudado ainda foi pouco diverso. Ter mais opções é bom porque permite escolher melhor para cada pessoa, e é aí que está o ganho real. Na prática, algumas dessas opções já estão chegando ao consultório, e outras ainda vão levar tempo até a aprovação e o uso de rotina.

     

    Recuperar peso não é fracassar

     

    A manutenção do peso perdido e o sucesso do tratamento a longo prazo foi outro tema bastante abordado no congresso. Pelo menos duas palestras tiveram o tema da manutenção do peso perdido como foco central. O palestrante Dr. Bruno Halpern deixou claro que o sucesso do tratamento da obesidade não deve ser medido apenas pela perda de peso, mas sim pela manutenção do peso. O reganho de peso é uma resposta biológica esperada após a suspensão do tratamento medicamentoso, ainda mais após a utilização de medicações para tratamento da obesidade de alta potência. Prática de atividade física, perseverança no tratamento e automonitoramento são características em comum de pessoas que conseguem manter o peso perdido.

    A mensagem foi clara: recuperar peso faz parte do curso de uma doença crônica e não significa que a pessoa falhou. Quando alguém com obesidade perde peso de propósito e depois recupera, esse peso recuperado costuma ter a mesma composição do que foi perdido, incluindo músculo. E, junto com o peso, podem voltar alterações no coração e no metabolismo. As palestras reconheceram que ainda faltam estudos bem conduzidos sobre os efeitos de perder e recuperar peso várias vezes.

    O caminho proposto foi de acolhimento: entender o tratamento como um processo que tem idas e vindas, manter o acompanhamento ao longo do tempo e olhar para a saúde como um todo, não só para o número na balança. Para a consulta, isso já se aplica hoje, e talvez seja a parte mais importante de tudo: sustentar o vínculo e o cuidado contínuo, sem culpar a pessoa pelo reganho.

     

    Ciência que olha para a população

     

    Além do cuidado individual, o congresso trouxe estudos sobre o que acontece no conjunto da população.

    Um dos assuntos mais comentados foi a relação entre alimentos ultraprocessados e mortes doenças cardiovasculares. Pesquisadores do Canadá usaram dados de consumo alimentar da população para calcular quantas dessas mortes teriam ligação com esses alimentos. O número que encontraram é alto, e ajuda a entender o quanto a alimentação influencia a saúde do coração. Também serve de argumento para políticas como a dos rótulos de advertência. Como é um cálculo feito a partir do que as pessoas relatam comer, e não um experimento controlado, ainda fica em aberto quanto do risco vem de cada tipo de alimento. Na consulta, a orientação já é firme: vale reduzir bebidas açucaradas e carnes processadas.

    Sobre políticas, o congresso destacou o exemplo do Chile. Depois da lei que colocou rótulos de advertência nos alimentos, restringiu a venda em escolas e limitou a publicidade, um estudo grande mostrou redução na obesidade infantil, tanto em meninas quanto em meninos. É uma das primeiras vezes que se consegue ligar uma política nacional de alimentação a uma queda mensurável na obesidade das crianças.

    Houve também uma reflexão mais ampla, apresentada por Boyd Swinburn, sobre por que a obesidade se tornou tão comum. A ideia é que ela nasce do encontro entre um sistema que produz alimentos fáceis de consumir em excesso e um corpo que, pela sua história ao longo da evolução, tende a guardar energia. Nenhum dos dois está com defeito, e é justamente do encontro dos dois que vem o problema.

    Dois outros assuntos apareceram e valem registro. Um estudo sobre buscas na internet mostrou que o interesse por medicamentos para emagrecer cresceu muitas vezes nos últimos anos, enquanto o interesse por mudanças no estilo de vida ficou parado, o que chama atenção para a forma como a comunicação em saúde vem acontecendo. E houve uma palestra sobre inteligência artificial na obesidade, com seus avanços e seus cuidados.

     

    Como levar isso para o consultório

     

    Reunindo tudo, dá para separar com tranquilidade o que já vale para o dia a dia e o que ainda está a caminho. E vale dizer desde já: quase nada disso é tarefa de uma profissão só. O cuidado da obesidade hoje é trabalho de equipe multiprofissional.

    Já dá para aplicar hoje:

    • Avaliar onde a gordura se acumula e a composição do corpo, e não só o peso.
    • Reconhecer o lipedema quando o caso não se comporta como obesidade.
    • Quando há medicamento no tratamento, acompanhar de perto a alimentação: garantir proteína suficiente e estímulo à força muscular para proteger a massa magra durante o emagrecimento, ajustar a dieta à menor fome e às queixas digestivas comuns no início, e cuidar dos micronutrientes.
    • Trabalhar o comportamento alimentar e o food noise junto com a pessoa, algo que a orientação nutricional organiza tanto quanto a medicação. Considerar a história de cada um ao montar o plano.
    • Tratar o reganho de peso como parte do cuidado de uma doença crônica, mantendo o vínculo e o acompanhamento.
    • E, para quem prescreve, escolher o medicamento pensando também nas doenças que acompanham a obesidade, como as do coração, dos rins, do fígado e a apneia, porque esse benefício está bem demonstrado.

    Ainda é cedo para incorporar como rotina:

    • Usar medicamentos com base em efeitos que a pesquisa está começando a estudar, como as possíveis ações no cérebro.
    • Decidir a conduta apenas pelo padrão de comportamento, que é uma ideia promissora mas ainda em construção.
    • E contar com os medicamentos mais novos que seguem em fase de teste e vão levar tempo até o uso comum.

    Há ainda uma base que atravessa tudo. Por mais que os medicamentos tenham avançado, o trabalho sobre a alimentação, o comportamento e o ambiente em que a pessoa vive não perdeu espaço. Com o emagrecimento mais rápido, cuidar da qualidade da alimentação, da massa muscular e da relação da pessoa com a comida ficou ainda mais necessário. É aí que o acompanhamento nutricional se mostra insubstituível.

     

    Tratar a doença e cuidar da pessoa

     

    Num dos espaços mais marcantes do congresso, participantes de vários países foram convidados a escrever mensagens sobre a própria experiência com a obesidade. De longe, parecia um mural coberto de flores. De perto, cada flor trazia uma história. Muitas falavam de estigma, da dificuldade de encontrar profissionais preparados, de barreiras para conseguir tratamento e de perguntas que, em vez de acolher, reforçavam a culpa. As mensagens estavam em idiomas diferentes, mas diziam a mesma coisa: em qualquer país, muitas pessoas que vivem com obesidade ainda não se sentem compreendidas nem acolhidas quando procuram ajuda.

    O mural lembra algo simples e importante. Tratar a obesidade é mais do que indicar um tratamento. É reconhecer a experiência de cada pessoa, ouvir a sua história e oferecer um cuidado sem julgamento. Foi essa a mensagem que ligou as três dimensões do congresso, a ciência, a clínica e a saúde pública: levar a obesidade a sério como a doença crônica que ela é, e tratar quem convive com ela com respeito, escuta e dignidade.

     

    Uma nova liderança 

     

    Por fim, uma novidade que não veio de um estudo, mas que importa para o futuro do campo. Durante o ICO 2026, a presidência da World Obesity Federation passou para o brasileiro Bruno Halpern, médico endocrinologista e vice-presidente da ABESO, sucedendo Simón Barquera. Halpern já vinha trabalhando junto à entidade e assume agora à frente dela, o que coloca um brasileiro na liderança da principal organização do mundo dedicada à obesidade.

    Ao assumir, ele apresentou seis prioridades para o seu trabalho:

    1. Transformar a educação sobre obesidade, apontada como um dos principais caminhos para a mudança.
    2. Promover a cobertura universal de saúde, com segurança, equidade e cuidado baseado em evidência para todos que procurarem ajuda.
    3. Superar a falsa separação entre prevenção e tratamento, que não competem entre si e fazem parte de uma mesma estratégia.
    4. Fortalecer equipes com formações diferentes, incluindo as próprias pessoas que vivem com obesidade.
    5. Incentivar a ciência e as parcerias entre países, reconhecendo que nações de baixa e média renda têm muito a contribuir.
    6. Modernizar a comunicação, tornando o conhecimento sobre obesidade mais acessível e conectado.

    Duas dessas prioridades, a educação e a comunicação, são exatamente o que move um projeto de divulgação científica como este. Terminar a curadoria por elas é também uma forma de reconhecer o trabalho de quem passa a conduzir esse campo, e de dizer que estamos junto nesse esforço.

     

    Referências

    1. Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al.; SELECT Trial Investigators. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. N Engl J Med. 2023;389(24):2221-2232. doi:10.1056/NEJMoa2307563.
    2. Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al.; FLOW Trial Committees and Investigators. Effects of semaglutide on chronic kidney disease in patients with type 2 diabetes. N Engl J Med. 2024;391(2):109-121. doi:10.1056/NEJMoa2403347.
    3. Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al.; SURMOUNT-OSA Investigators. Tirzepatide for the treatment of obstructive sleep apnea and obesity. N Engl J Med. 2024;391(13):1193-1205. doi:10.1056/NEJMoa2404881.
    4. Sanyal AJ, Newsome PN, Kliers I, et al.; ESSENCE Study Group. Phase 3 trial of semaglutide in metabolic dysfunction-associated steatohepatitis. N Engl J Med. 2025;392(21):2089-2099. doi:10.1056/NEJMoa2413258.
    5. Wharton S, et al.; OASIS 4. Oral semaglutide 25 mg in adults with overweight or obesity. N Engl J Med. 2025;393(11):1077-1087. doi:10.1056/NEJMoa2500969.
    6. Programa SYNCHRONIZE (survodutida, fase 3). Apresentado no ICO 2026 (aguardando publicação).
    7. Acosta A, Camilleri M, Abu Dayyeh B, et al. Selection of antiobesity medications based on phenotypes enhances weight loss: a pragmatic trial in an obesity clinic. Obesity (Silver Spring). 2021;29(4):662-671. doi:10.1002/oby.23120.
    8. Loos RJF, Yeo GSH. The genetics of obesity: from discovery to biology. Nat Rev Genet. 2022;23(2):120-133.
    9. Nielsen S, Guo Z, Johnson CM, Hensrud DD, Jensen MD. Splanchnic lipolysis in human obesity. J Clin Invest. 2004;113(11):1582-1588.
    10. Metanálise sobre GLP-1 e proteína C reativa em adultos sem diabetes. Apresentada no ICO 2026 (aguardando publicação).
    11. Hamel V, Moubarac JC, et al. Carga de doença cardiovascular atribuível ao consumo de ultraprocessados no Canadá. Am J Prev Med. 2026. PMID:41966464.
    12. Paraje G, Valdés N, Vega Macaya A, Corvalán C, Popkin B. The impact of Chile’s multipronged food labelling and advertising law on early childhood excess weight: a cohort difference-in-differences study. Lancet. 2026;407(10548):2630-2640. doi:10.1016/S0140-6736(26)00651-3.

     


  • Curadoria científica 8: O Silêncio de uma Nova Era: A Ascensão e os Questionamentos do Food Noise

    Edição especial: trajetória de um construto, não análise de artigo único
    Fontes desta edição: ver lista completa ao final
    Leitura estimada: 8 min

    Curadoria feita por: Ana Paula Gines Geraldo. Nutricionista. Professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina.

    Por que este tema agora

    Desde 2023, pacientes em uso de semaglutida começaram a relatar, em consultório e nas redes sociais, o desaparecimento de uma preocupação constante com comida, que passaram a chamar de “food noise“. A partir desse relato, formou-se em apenas três anos um campo inteiro: uma primeira definição científica proposta por Hayashi e colaboradores, outras definições que ampliaram o que já havia sido construído, dois questionários financiados por empresas do mercado de emagrecimento, um estudo de análise de conteúdo do TikTok, um caso clínico com eletrodo implantado no cérebro, e, em 2026, um comentário na revista científica Appetite assinado por Brewis, Hayashi e colaboradores, que aponta as incertezas ainda em aberto sobre esse construto. Chama atenção que Daisuke Hayashi, primeiro autor da definição científica original de 2023, seja também coautor desse comentário.

    Esta edição segue o fio dessa história, do relato espontâneo do paciente até os instrumentos comerciais que hoje se propõem a medi-lo, para deixar claro o que a evidência sustenta e o que ainda não sustenta sobre “ruído alimentar” na prática clínica.

    O que está sendo questionado, e o que não está

    Antes de entrar na linha do tempo, uma distinção que os próprios autores do comentário, Brewis, Hayashi e colaboradores, fazem questão de deixar explícita, e que vale repetir aqui com a mesma clareza: a experiência relatada pelo paciente não é o que está em discussão. Eles afirmam, no próprio texto, que essas incertezas não invalidam o fenômeno do ruído alimentar como potencialmente significativo, e reconhecem que nomear essa experiência pode reformular o que antes era vivido como falta de força de vontade em algo reconhecido como uma questão biológica comum. Para quem convive com obesidade e, só depois de “ruído alimentar” circular, encontrou palavra para descrever um pensamento constante sobre comida que sempre esteve lá, isso tem valor real e não é isso que o comentário questiona.

    O que está sendo questionado é outra coisa, com três frentes específicas: se esse relato configura um fenômeno cientificamente distinto de constructos já estudados há décadas (craving, preocupação alimentar, reatividade a pistas alimentares) ou se é a mesma coisa com nome novo; como os dois questionários disponíveis foram construídos e por quem foram financiados; e a ausência de critério para separar níveis normais de níveis considerados patológicos, o que importa diretamente para decisões de prescrição. Nomear a própria experiência e dispor de um instrumento validado com financiamento são duas coisas diferentes, e esta edição trata delas separadamente.

    2023: a primeira definição científica do termo

    O termo “food noise” não nasceu na ciência. Reportagens do New York Times, da Healthline e do Public Broadcasting Service (PBS), publicadas ao longo de 2023, já documentavam pacientes em uso de semaglutida descrevendo o desaparecimento de uma voz constante sobre comida na cabeça. Hayashi, Masterson e colegas, do laboratório de comportamento alimentar da Penn State, publicaram uma revisão narrativa propondo a primeira definição formal: “manifestações intensificadas e/ou persistentes de reatividade a pistas alimentares, frequentemente levando a pensamentos intrusivos sobre comida e comportamentos alimentares desadaptativos” (Hayashi et al., 2023).

    Essa definição se apoia no modelo CIRO (Cue-Influencer-Reactivity-Outcome), que trata o ruído alimentar como consequência de um fenômeno já conhecido há décadas na literatura de comportamento alimentar, a reatividade a pistas alimentares, modulada por fatores constantes (genética, traços apetitivos) e transitórios (sono, estresse, hormônios reguladores do apetite, incluindo o próprio GLP-1). Em outras palavras: o trabalho de 2023 não descobriu um fenômeno novo por experimento, ele emprestou teoria já validada para dar nome científico a um relato que pacientes e jornalistas já vinham descrevendo.

    Essa definição inicial não se manteve isolada. Nos dois anos seguintes, outros dois grupos publicaram definições próprias. Diktas et al. (2025) definiram o fenômeno como “pensamentos persistentes e intrusivos sobre comida que são disruptivos para a vida diária e dificultam comportamentos saudáveis”. Dhurandhar et al. (2025) o conceituaram como “pensamentos persistentes sobre comida que são percebidos pelo indivíduo como indesejados e/ou disfóricos e que podem causar danos ao indivíduo, incluindo problemas sociais, mentais ou físicos”, deslocando o eixo da reatividade a pistas para a experiência emocional negativa.

    As três definições compartilham o núcleo de pensamentos persistentes e intrusivos, mas divergem nos pontos: se o fenômeno depende ou não de estímulos alimentares externos, e se o traço definidor é a reatividade, o sofrimento emocional ou a disrupção funcional. Três definições, publicadas em menos de dois anos, para um mesmo termo.

    2025-2026: dois questionários, duas empresas

    Com o termo em ascensão, duas equipes desenvolveram, de forma praticamente simultânea, os dois únicos instrumentos validados para medir ruído alimentar.

    • O FNQ (Food Noise Questionnaire), publicado por Diktas, Cardel, Foster e Martin na Obesity (2025), é uma escala de 5 itens, financiada pela WW International (Weight Watchers). Ambos os instrumentos apresentam boa consistência interna e confiabilidade. No FNQ, mulheres pontuaram mais que homens, pessoas em dieta pontuaram mais que as demais, e o escore aumentou com o IMC.
    • O RAID-FN (Ro Allison Indiana Dhurandhar Food Noise Inventory), com a definição conceitual publicada por Dhurandhar, Allison e colegas na Nutrition & Diabetes (2025) e a validação psicométrica na Revista Appetite (2026), foi financiado pela Ro, empresa de telessaúde que vende GLP-1 por prescrição online. O instrumento validado tem 7 itens organizados em três fatores (preocupação, persistência, disforia); um conjunto maior de 23 itens fica disponível para estudos mais mecanísticos. Ao contrário do FNQ, nenhuma diferença significativa foi encontrada por sexo, idade, raça, escolaridade, renda ou IMC.

    Dois instrumentos que afirmam medir o mesmo construto, financiados por empresas concorrentes no mercado de emagrecimento, chegam a perfis diferentes de quem pontua alto em ruído alimentar. Além disso, ambos mostram correlação forte com escalas de craving e preocupação alimentar já validadas há mais de dez anos: o FNQ correlaciona 0,87 com a subescala de preocupação do Food Cravings Questionnaire-Trait; o RAID-FN correlaciona 0,79 com o escore geral desse mesmo questionário e 0,68 com responsividade a pistas alimentares. Correlações dessa magnitude não provam que os instrumentos meçam a mesma coisa, mas cabe perguntar o que exatamente esses questionários capturam que os anteriores não capturavam. Os autores dos instrumentos argumentam, por sua vez, que dispor de uma medida padronizada é um avanço sobre não ter nenhuma, e que a validação psicométrica de ambos seguiu procedimentos reconhecidos.

    O uso do termo nas redes sociais, antes de qualquer instrumento validado

    Enquanto os questionários eram desenvolvidos, a população em geral já havia se apropriado do termo. Uma análise de conteúdo dos 99 vídeos mais vistos no TikTok sob a hashtag #FoodNoise (Hayashi et al., 2026) encontrou 70,7% de depoimentos de pacientes, não de profissionais de saúde (apenas 22,2% dos criadores eram profissionais de saúde); 85,9% descrevendo o ruído alimentar de forma negativa; 49,5% mencionando medicamentos, majoritariamente GLP-1; e apenas 5,1% citando literatura científica. Entre os vídeos que mencionaram medicamento, a atitude foi positiva em 75,5%. As categorias de alimento mais associadas ao “ruído” foram doces, sobremesas e fast food, o que os autores relacionam ao conceito já descrito na literatura de “alimentos-problema”.

    Este dado é relevante clinicamente: o conceito estava circulando, sendo definido e redefinido pelas pessoas, antes que qualquer instrumento validado existisse. Isso não invalida a experiência relatada pelos pacientes, mas mostra que o termo se difundiu no debate público antes de existir instrumento validado para medi-lo.

    Um primeiro dado biológico, ainda em um único caso (N=1)

    Em 2025, um estudo publicado na Nature Medicine trouxe o primeiro dado neurofisiológico direto ligando o fenômeno a um substrato biológico. Em uma paciente com eletrodo cerebral implantado para tratar compulsão alimentar, o início da tirzepatida foi acompanhado do desaparecimento da compulsão e de um silêncio elétrico marcante na região registrada. Meses depois, ainda com a paciente medicada, o padrão elétrico e a compulsão retornaram, o que sugere possível tolerância ao efeito do fármaco sobre esse mecanismo. É um achado isolado, de uma única paciente e sem replicação, mas indica que a investigação sobre as bases biológicas do fenômeno está começando.

    2026: o comentário crítico publicado na Appetite

    Em 2026, Brewis, Hayashi e colaboradores publicaram na Revista Appetite um comentário que reúne as principais incertezas do campo. Vale notar: Daisuke Hayashi, primeiro autor da definição científica original de 2023, é também coautor deste comentário. Ou seja, parte de quem ajudou a construir o construto assina agora o pedido de cautela no seu uso. O comentário conta ainda com outros pesquisadores brasileiros, da Universidade de São Paulo, entre os autores.

    O comentário organiza as incertezas em torno de alguns pontos. No plano teórico, as definições publicadas divergem entre si, sobretudo quanto a se o ruído alimentar depende de reatividade a pistas alimentares ou se ocorre de forma espontânea. No plano metodológico, tanto o FNQ quanto o RAID-FN foram construídos a partir de observação informal de mídia e opinião de especialistas, sem etapa qualitativa prévia robusta junto a pacientes, e ambos mostram sobreposição semântica, item a item, com escalas já existentes de craving, preocupação alimentar e adição alimentar. No plano clínico, não existe critério baseado em evidência para separar “muito pensamento sobre comida” normal de nível patológico, o que é especialmente delicado em decisões de prescrição. E há a questão da heterogeneidade: os instrumentos foram validados em amostras online dos EUA, assumindo uma experiência cognitiva uniforme que ignora estigma de peso, histórico de restrição alimentar e variação cultural. Os autores citam, inclusive, o termo brasileiro informal “cabeça de gordo” como tradução popular mais estigmatizante que “ruído alimentar”.

    O comentário não nega que a experiência relatada pelos pacientes seja real. Defende que, na ausência de resolução teórica e metodológica, o uso clínico deve ser feito com muita cautela.

    A chegada ao Brasil

    Em junho de 2026, no congresso Brain, em Porto Alegre, pesquisadores da PUCRS, em colaboração direta com os autores do RAID-FN, apresentaram o protocolo de adaptação transcultural do instrumento para o português brasileiro. O estudo, submetido ao CEP da PUCRS e ainda sem dados coletados até o momento desta publicação, planeja avaliar a nova versão com Análise Fatorial Confirmatória e correlação com instrumentos já estabelecidos, como o GAD-7 e o TFEQ-21. A colaboração direta com os autores originais mostra que a expansão internacional do instrumento caminha lado a lado com o próprio time que o criou, e chegou ao Brasil em paralelo ao debate teórico levantado pela Brewis, ainda em curso na literatura internacional.

    O que isso significa para o uso no Brasil

     

    • Um limite atravessa os dois instrumentos: as amostras de validação, online e de painéis comerciais dos EUA, não incluem população brasileira, nem contextos de insegurança alimentar, nem pessoas com transtornos alimentares restritivos. Isso restringe diretamente a extrapolação para a prática clínica no Brasil. Os próprios autores do FNQ e do RAID-FN reconhecem, nas respectivas discussões, a necessidade de validação adicional em contextos clínicos e a incerteza sobre o corte de significância clínica.
    • Conflito de interesse e comercialização: No FNQ, o vínculo com a WW International está declarado no próprio artigo: parte dos autores é composta por funcionários ou acionistas da empresa, que também financiou o estudo. No RAID-FN, o financiamento pela Ro está declarado nos agradecimentos, e o instrumento é hoje disponibilizado pela própria Ro, que o oferece, em sua página institucional, para uso em atendimento clínico, em pesquisa e em ensaios clínicos da indústria farmacêutica. Nada disso invalida os achados, mas é uma informação que deve ser considerada na leitura de qualquer recomendação clínica que emerja dessa literatura ainda em construção.

    O que fazer na prática clínica?

     

    Antes de medir, entender. O primeiro movimento diante de um paciente que relata pensar em comida o tempo todo não é aplicar um questionário, é distinguir o que ele está descrevendo: fome fisiológica e planejamento normal de refeições, ou um pensamento que persiste mesmo sem fome, sem pista alimentar por perto e sem intenção de comer. Essa diferença orienta a conduta muito mais do que qualquer escore.

    O relato é legítimo, tenha ou não nome. Pensamento intrusivo e persistente sobre comida é sustentado pela literatura de reatividade a pistas alimentares há décadas. Nomear essa experiência pode ter valor real para quem nunca teve palavra para descrevê-la, e isso independe do debate sobre os instrumentos.

    O escore complementa a escuta, não decide sozinho. Financiamento comercial direto, validade de construto ainda não estabelecida de forma independente e o fato de os próprios autores do RAID-FN mostrarem que o escore pode ser inflado por quem responde são razões para que um número desses nunca substitua a entrevista clínica. Quando a mensuração for necessária, escalas já consolidadas de preocupação alimentar e craving, como a subescala de preocupação do Food Cravings Questionnaire-Trait, oferecem base mais robusta neste momento.

    Atenção redobrada em transtornos restritivos. Em quem tem ou está se recuperando de um quadro alimentar restritivo, ainda não se sabe o que significa uma redução no “ruído alimentar”: pode ser melhora, mas pode ser restrição se mascarando de alívio. Essa dúvida sozinha já justifica cautela antes de comemorar o silêncio.

    Alívio com GLP-1 pede acompanhamento no tempo. Vale registrar o relato e monitorar se o efeito se sustenta, porque o caso do eletrodo mostrou que ele pode não durar: o sinal e a fissura voltaram mesmo com a paciente ainda medicada.

     Referências

    1. Hayashi D, Edwards C, Emond JA, Gilbert-Diamond D, Butt M, Rigby A, Masterson TD. What is food noise? A conceptual model of food cue reactivity. Nutrients. 2023;15(22):4809. doi:10.3390/nu15224809
    2. Diktas HE, Cardel MI, Foster GD, LeBlanc MM, Dickinson SL, Ables EM, Chen X, Nathan R, Shapiro D, Martin CK. Development and validation of the Food Noise Questionnaire. Obesity (Silver Spring). 2025;33(2):289-297. doi:10.1002/oby.24216
    3. Dhurandhar EJ, Maki KC, Dhurandhar NV, Kyle TK, Yurkow S, Hawkins MAW, Agley J, Ho EH, Cheskin LJ, Sørensen TIA, Wang XR, Allison DB. Food noise: definition, measurement, and future research directions. Nutr Diabetes. 2025;15:30. doi:10.1038/s41387-025-00382-x
    4. Dhurandhar EJ, Maki KC, Dhurandhar NV, Kyle TK, Yurkow S, Hawkins MAW, Agley J, Ho EH, Cheskin LJ, Sørensen TIA, Wang XR, Gorman B, Allison DB. Development and rigorous multistep validation of a psychometric tool to measure food noise. Appetite. 2026;217:108339. doi:10.1016/j.appet.2025.108339
    5. Hayashi D, Kort J, Robles-Martinez IM, Orabueze D, Bakhl K, Masterson TD. “And just like that, quiet”: a content analysis of TikTok videos on food noise. Nutr Diabetes. 2026;16:16. doi:10.1038/s41387-026-00423-z
    6. Choi W, Nho YH, Qiu L, et al. Brain activity associated with breakthrough food preoccupation in an individual on tirzepatide. Nat Med. 2025 Nov 17. doi:10.1038/s41591-025-04035-5
    7. Brewis A, Hayashi D, Gualano B, Precinotto ML, Scagliusi FB, Stöckelová T, SturtzSreetharan C, West H, Williams O, Masterson T. Food noise: conceptual, methodological, and ethical considerations. Appetite. 2026. doi:10.1016/j.appet.2026.108700
    8. Lopes da Silva T, Jimenez-Garcia JA, Dhurandhar E, Allison D, Feoli AMP. Food noise no contexto brasileiro: protocolo de adaptação transcultural do RAID-FN Inventory. Congresso Brain, Porto Alegre, jun. 2026 (resumo de congresso, protocolo em andamento).

  • Curadoria científica 7 – Acompanhamento nutricional no uso de medicações com GLP-1 e GIP: os dados mostram que não é opcional

    Acompanhamento nutricional no uso de agonistas de GLP-1/GIP: os dados mostram que não é opcional

     

    Referência: Korus S, Cembrowska-Lech D, Kłoda K, Stachowska E. Journal of Translational Medicine, 2026. DOI: 10.1186/s12967-026-07702-4 | PMID: 41965670

    Curadoria científica feita por: Ana Paula Gines Geraldo – Nutricionista, professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora do Obesidade com Ciência

    Leitura estimada: 6 min

     

    Por que este artigo agora

     

    Quem atua com pacientes em uso de agonistas de GLP-1/GIP sabe, na prática clínica e pelas redes sociais, que uma das preocupações mais legítimas com essa farmacoterapia é exatamente essa: a supressão de apetite promovida pelos medicamentos pode levar a uma redução calórica tão intensa que compromete a ingestão de proteína e micronutrientes essenciais. Profissionais de saúde repetem isso em consultas e em conteúdos educativos. O problema é que, até agora, faltava evidência sistematizada para sustentar essa preocupação com dados reais de ingestão alimentar.

    A dimensão dessa lacuna ficou evidente em duas revisões publicadas recentemente. Jansson et al. (Obesity Reviews, 2026) analisaram 41 ensaios clínicos randomizados sobre liraglutida, semaglutida e tirzepatida, envolvendo mais de 50.000 participantes, e encontraram que apenas 2 deles, cerca de 5%, avaliaram ingestão alimentar como desfecho. Babazadeh et al. (2025), em uma revisão de escopo mais ampla com 129 ensaios, chegaram a conclusão semelhante: somente 10 estudos (8%) reportaram dados de ingestão, e metade usou avaliações pontuais em laboratório, não registro da dieta habitual. Em outras palavras, os ensaios clínicos que definiram a eficácia dessas medicações, os chamados estudos pivotais, ou seja, os grandes estudos randomizados que serviram de base para a aprovação regulatória dos medicamentos, praticamente ignoraram o que as pessoas estavam comendo durante o tratamento.

    Nesse cenário, o trabalho de Korus et al. ganha relevância por ser um dos primeiros a tentar mapear sistematicamente o perfil nutricional de usuários reais de agonistas de GLP-1 e GIP/GLP-1, cobrindo macronutrientes, micronutrientes selecionados e variação entre dias da semana e final de semana. É um estudo preliminar, com limitações que serão discutidas adiante, mas que começa a preencher uma lacuna que a prática clínica já sinalizava há tempo.

     

    O que o estudo fez

     

    O estudo possui o delineamento de coorte retrospectiva conduzida inteiramente online, recrutando participantes de grupos de suporte em redes sociais polonesas (Facebook e Instagram) de abril de 2024 a fevereiro de 2025. Foram incluídos 387 adultos com sobrepeso ou obesidade (IMC médio 36,4 kg/m²) em uso de dulaglutida, liraglutida, semaglutida ou tirzepatida, com frequência semanal de uso. A média de idade foi de 34,9 anos (DP 9,9), e 80,4% eram mulheres.

    Os participantes preencheram um diário alimentar de 48 horas, cobrindo um dia de semana (predominantemente sexta-feira) e um dia de final de semana (predominantemente sábado), com registro de horário, peso ou medida doméstica, modo de preparo e marca dos alimentos. Os registros foram processados no software Dieta-6 (banco de dados do Instituto Nacional de Saúde Pública polonês, 2024), gerando valores para energia e 42 nutrientes. Os resultados foram comparados com as DRI polonesas de 2024. A perda de peso foi obtida por autorrelato (peso antes do tratamento e peso atual).

    A duração média de tratamento reportada foi de 15,7 semanas, com desvio padrão de 14 semanas, o que indica heterogeneidade importante de tempo de uso dentro da amostra.

     

    O que o estudo encontrou

     

    A ingestão energética média foi de 753 kcal/dia (DP 257,8 kcal), com proteína de 33,4 g/dia, gordura de 26,5 g/dia e carboidratos de 96,4 g/dia. Em relação às recomendações de proteína, 97% dos participantes ficaram abaixo da RDA; nenhum atingiu exatamente a recomendação. Menos de 10% atingiu as recomendações para proteína, fibra, vitamina D, cálcio e potássio.

    A ingestão de gordura também apresentou inadequação relevante. Na média dos dois dias, 48,8% dos participantes ficou abaixo da recomendação, 38,2% dentro e apenas 12,9% acima. O padrão predominante, portanto, é de déficit, com variação importante entre os dias: nos dias de semana, o consumo foi maior em 7-10 g em comparação ao final de semana (p<0,001), quando 63,6% ficou abaixo da recomendação.

    Houve também diferença significativa na ingestão calórica entre dias da semana e final de semana: nos dias úteis, a ingestão foi maior em 170 kcal (IC95%: 152-185; p<0,001), com maior consumo de sódio (370 mg a mais). A proteína total não diferiu entre os dias, mas a proteína de origem animal foi significativamente maior nos dias de semana.

    Na análise de regressão múltipla para perda de peso, o tempo de tratamento foi o preditor dominante: cada semana adicional foi associada a 0,73 kg a mais de perda (IC95%: 0,68-0,78; p<0,001). Maior ingestão total de proteína foi associada a maior perda de peso (β=0,45; p=0,014), enquanto maior proporção de proteína animal foi associada a menor perda (β=-0,52; p=0,004). A classe do medicamento (GLP-1 vs. dual GIP/GLP-1) não foi preditora significativa após ajuste.

     

    O que é possível afirmar a partir deste artigo

     

    • Este estudo sugere que adultos em uso de agonistas de GLP-1 ou GIP/GLP-1 recrutados em grupos de suporte online poloneses apresentam ingestão proteica muito abaixo das recomendações, com menos de 3% atingindo a RDA.
    • Os dados indicam que a ingestão de gordura também foi inadequada na maioria dos participantes, com 48,8% abaixo da recomendação na média dos dois dias. Esse déficit tem implicações clínicas relevantes: a ingestão insuficiente de gordura compromete o aporte de ácidos graxos essenciais e pode reduzir a absorção de vitaminas lipossolúveis, incluindo a vitamina D, que já aparece como deficiente nessa população.
    • Os dados indicam uma diferença de ingestão calórica entre dias da semana e final de semana, com maior consumo calórico nos dias úteis, padrão não anteriormente documentado nessa população.
    • Este estudo observacional encontrou associação entre maior ingestão total de proteína e maior perda de peso, e entre maior proporção de proteína animal e menor perda, após ajuste para tempo de tratamento, sexo e idade, embora a contribuição dietética ao modelo seja marginal diante do papel dominante do tempo de uso.
    • O tempo de tratamento, e não a classe do medicamento, foi o preditor dominante de perda de peso nesta amostra.
    • Os dados sugerem que a ingestão elevada de sódio pode ser marcador de padrão alimentar ultraprocessado associado a menor perda de peso.

     

    O que não é possível afirmar a partir deste artigo

     

    • Não é possível afirmar que a dieta habitual de usuários de agonistas GLP-1/GIP apresenta esses déficits: o diário de 48 horas captura dois dias, não o padrão alimentar crônico.
    • Não é possível concluir que proteína animal causa menor perda de peso: o delineamento é associativo e o confundimento por tipo de fonte proteica, alimento in natura versus ultraprocessado, não foi mensurado diretamente.
    • Não é possível generalizar para a população brasileira em farmacoterapia, nem para pacientes com suporte nutricional profissional, nem para usuários com menor engajamento em comunidades digitais de saúde.
    • Não é possível afirmar que os valores de ingestão observados representam fielmente a dieta real dessa população, dado o risco de sub-relato em diários autodirecionados.
    • Não é possível afirmar nada sobre micronutrientes específicos com base nos dados apresentados: a afirmação de que menos de 10% atingiu recomendações de vitamina D, cálcio e potássio aparece no texto sem que os dados detalhados desses micronutrientes sejam apresentados nas tabelas ou figuras.

     

    Aplicação clínica

     

    Os agonistas de GLP-1/GIP promovem supressão do apetite e redução da ingestão alimentar. Esse é exatamente o mecanismo que sustenta a perda de peso. A questão que os dados deste estudo levantam é sobre a qualidade do que ainda é consumido durante esse processo, e é aí que o acompanhamento nutricional se torna indispensável.

    O déficit de gordura merece atenção específica. Além das implicações diretas sobre o aporte de ácidos graxos essenciais, a ingestão insuficiente de gordura compromete a absorção de vitaminas lipossolúveis, em especial vitamina D, que já aparece como deficiente nessa população. Há, portanto, uma relação entre os dois déficits que reforça a necessidade de avaliação nutricional integrada, e não restrita a um único nutriente.

    Este estudo oferece algo que a prática clínica já pedia: um dado quantitativo, ainda que preliminar, sobre o perfil nutricional de quem está em farmacoterapia com incretinas. A ordem de grandeza do déficit proteico observado, com média de 33 g/dia em uma população cujo alvo recomendado seria de 1,2 a 1,6 g/kg de peso ajustado/dia (Mozaffarian et al., 2025), é suficientemente expressiva para reforçar o que profissionais já orientam na prática: o monitoramento ativo da adequação proteica e de micronutrientes deve ser parte estruturada do acompanhamento durante o tratamento, não uma recomendação genérica ao final da consulta.

    A variação de padrão entre dias da semana e final de semana, se confirmada em estudos futuros com metodologia mais robusta, adiciona uma camada de complexidade ao planejamento alimentar que vale ser explorada clinicamente. E o fato de que o tipo de medicamento não foi preditor significativo de perda de peso após ajuste para tempo de tratamento reforça a ideia de que a duração e a qualidade do acompanhamento importam tanto quanto a escolha do fármaco.

    Estudos prospectivos com avaliação objetiva de composição corporal, registro alimentar de múltiplos dias e controle para presença de suporte nutricional profissional são os próximos passos necessários para transformar esse sinal clínico em evidência orientadora de conduta.

     

    Análise crítica

     

    Os autores denominam este trabalho como estudo preliminar, e essa qualificação é adequada e importante: embora venha preencher uma lacuna real, alguns pontos merecem ser considerados para que os achados sejam usados com o enquadramento adequado.

    Delineamento e amostra

    O recrutamento em grupos de suporte em redes sociais tende a capturar um perfil específico: pessoas engajadas ativamente em comunidades digitais de saúde, majoritariamente mulheres jovens, com acesso digital e motivação para participar de pesquisas. Esse perfil é útil para gerar hipóteses iniciais, mas a transposição direta para outros contextos, incluindo o brasileiro ou o de usuários sem suporte digital, requer cautela.

    O diário alimentar de 48 horas é uma escolha compreensível para um estudo exploratório online, mas dois dias capturam variabilidade ocasional, não o padrão alimentar habitual. A média de ingestão de 753 kcal/dia é muito baixa, e embora possa refletir a supressão de apetite promovida pelos medicamentos, a possibilidade de sub-relato, limitação típica de diários alimentares autodirecionados, não pode ser descartada.

    A heterogeneidade de tempo de uso (DP de 14 semanas para média de 15,7 semanas) significa que participantes em fases muito distintas do tratamento foram analisados de forma agregada, o que torna a caracterização descritiva um ponto de partida, não uma fotografia definitiva do padrão alimentar nessa população.

    Sobre as conclusões

    A recomendação central dos autores, de que o monitoramento da adequação proteica e de micronutrientes deve acompanhar a farmacoterapia com incretinas, é clinicamente razoável e alinhada com o advisory conjunto de 2025 da ACLM, ASN, OMA e TOS (Mozaffarian et al. 2025). A interpretação de que a associação negativa entre proteína animal e perda de peso reflete consumo de ultraprocessados ricos em sódio é biologicamente plausível, mas não foi testada diretamente nos dados disponíveis, e merece investigação em estudos futuros com melhor controle da qualidade alimentar.

    Conflito de interesse

    Financiamento institucional pela Universidade Médica da Pomerânia, sem vínculo com indústria farmacêutica. Sem conflito de interesse identificável com o tema do artigo.

    Nota da curadora

    Muito se discute sobre o que os agonistas de GLP-1/GIP fazem pelo peso. Mas estudos que avaliam o que as pessoas estão realmente comendo durante o tratamento são raros, e é justamente aí que o nutricionista tem um papel insubstituível. Os dados deste artigo mostram onde as lacunas estão: na proteína, nos micronutrientes, na oscilação entre os dias da semana. São exatamente esses os pontos de intervenção do nutricionista, e são eles que fazem a diferença entre uma perda de peso que preserva massa magra e funcionalidade e uma que não preserva.

    Isso aumenta a relevância de uma pergunta que ainda não tem resposta adequada na literatura: como está organizado o cuidado desse paciente? O nutricionista está presente na equipe? E quando está, em que momento do tratamento ele entra? Essas questões importam tanto para quem acessa o tratamento pelo SUS quanto para quem acessa pelo setor privado ou por convênio, porque a ausência de organização do cuidado não é um problema exclusivo de nenhum desses contextos. O nutricionista não é opcional nessa equipe, e os dados começam a mostrar por quê.

    Ana Paula Gines Geraldo

    Nutricionista, professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora do Obesidade com Ciência

     

    Referências:

     

    KORUS, S. et al. Dietary intake patterns and nutritional adequacy among adults with overweight or obesity treated with GLP-1 or dual GIP/GLP-1 receptor agonists: preliminary study. Journal of Translational Medicine, v. 24, n. 1, p. 532, 2026. DOI: 10.1186/s12967-026-07702-4.

    JANSSON, A. et al. A systematic review identifying critical evidence gaps in reporting dietary change in randomized controlled trials prescribing liraglutide, semaglutide, or tirzepatide. Obesity Reviews, 2026. DOI: 10.1111/obr.70077.

    BABAZADEH, D.; WYATT, S.; STEINBERG, F. M. Examining the omission of dietary quality data in glucagon-like peptide 1 clinical trials: a scoping review. Advances in Nutrition, v. 16, n. 10, p. 100491, 2025. DOI: 10.1016/j.advnut.2025.100491.

    MOZAFFARIAN, D. et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 122, n. 5, p. 344-367, 2025. DOI: 10.1016/j.ajcnut.2025.04.023.


  • Curadoria Científica 6 – A explosão de produtos proteicos para quem usa GLP-1: o que a ciência realmente sustenta

    Leitura estimada: 10 min

    Curadoria realizada por: Ana Paula Gines Geraldo – Nutricionista – Professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do projeto Obesidade com Ciência – UFSC.

    A explosão de produtos proteicos para quem usa GLP-1: o que a ciência realmente sustenta

    O mercado de alimentos e suplementos está passando por uma transformação visível. Barras, shakes, iogurtes, pães, snacks e biscoitos exibem cada vez mais o claim “alto teor de proteínas” em destaque na embalagem. Cresce também a oferta de suplementos de vitaminas, minerais e fibras com promessas ligadas ao controle de peso e à saúde metabólica.

    Mais recentemente surgiu uma categoria inteiramente nova: os produtos denominados “GLP-1 support”. Eles se apresentam como suporte ao tratamento com agonistas de GLP-1 e GIP, mas essa denominação não aparece no rótulo dos produtos, onde a regulação da ANVISA se aplica. Ela circula nas redes sociais, nas páginas de venda, nos materiais de divulgação e nos estandes de eventos, como foi observado na Naturaltech, feira realizada em junho de 2026 em São Paulo. É um posicionamento de marketing que opera nos espaços onde a fiscalização de claims é mais difusa.

    Esses produtos podem assumir formas distintas. Às vezes é um único produto que reúne proteínas, fibras, vitaminas, minerais e outros compostos bioativos numa só formulação. Outras vezes é uma família de suplementos separados, cada um com um papel específico dentro de um protocolo de uso, como ômega-3, HMB, vitaminas e minerais em produtos distintos, comercializados conjuntamente como uma linha.

    O surgimento dessa categoria tem uma explicação estrutural. A adoção rápida das terapias com agonistas de GLP-1 e GIP ultrapassou o desenvolvimento de sistemas adequados de suporte nutricional, deixando muitos pacientes sem orientação dietética apesar de experienciarem reduções expressivas no apetite e na ingestão alimentar. Como argumentam Mogna-Peláez e Guasch-Ferré (2026) em perspectiva recente publicada no Journal of Nutrition, as decisões tomadas agora sobre como integrar o cuidado nutricional ao uso de GLP-1 vão moldar os padrões clínicos por anos. O mercado de GLP-1 support não surgiu do nada: ele ocupa uma lacuna de cuidado documentada e nomeada pela própria literatura científica.

    A questão que este texto propõe não é se proteína importa para quem usa agonistas de GLP-1/GIP. Importa. A questão é outra: o que a evidência realmente recomenda para essa população, e o que esses produtos efetivamente entregam?

    O ambiente informacional em que esses produtos surgem

     

    A qualidade da informação sobre GLP-1 e nutrição nas redes sociais é predominantemente baixa. Campos-Rivera et al. (2024) analisaram vídeos em espanhol sobre semaglutida no TikTok e encontraram que 79% promoveram a medicação como solução para perda de peso sem mencionar mudanças de estilo de vida. Apenas 11,9% mencionaram algum risco associado ao uso. O mesmo padrão aparece no conteúdo nutricional mais amplo: Zeng et al. (2025) avaliaram posts do TikTok sobre alimentação e dieta e encontraram que 55% não apresentaram informação baseada em evidências, 75% não tinham conteúdo balanceado e acurado, e apenas 36% foram considerados completamente acurados. Nos dois contextos, engajamento e qualidade da informação não se correlacionaram.

    O que acontece com o consumidor quando se depara com um produto com claim de proteína foi investigado por McKeon e Hallman (2024) num survey com mais de mil adultos. Os pesquisadores compararam as percepções sobre dois cereais da mesma marca, um comum e um com destaque de proteína na embalagem. O produto com o claim foi percebido como mais saudável e mais nutritivo, mesmo sem diferença real expressiva na composição. O dado mais revelador: quando as porções foram equalizadas, o produto com proteína tinha mais açúcar, sódio e calorias do que o original, mas cerca de metade dos participantes não percebeu nenhuma diferença nesses nutrientes. Os autores chamaram esse fenômeno de efeito halo: a presença de um claim positivo na embalagem cria uma percepção de saúde que se estende ao produto inteiro, independentemente do que a tabela nutricional mostra.

    O que a evidência recomenda para quem usa agonistas de GLP-1/GIP

     

    Em maio de 2025, quatro sociedades científicas, American College of Lifestyle Medicine, American Society for Nutrition, Obesity Medicine Association e The Obesity Society, publicaram um advisory conjunto coordenado por Mozaffarian et al. O documento sintetiza as prioridades nutricionais e de estilo de vida para o uso clínico de agonistas de GLP-1 e GIP, e parte de um reconhecimento direto: o uso de terapias nutricionais baseadas em evidência em associação com a farmacoterapia ainda não é disseminado na prática clínica. As prioridades incluem manejo dos efeitos adversos gastrointestinais, atenção às alterações de preferências e ingestão alimentar, prevenção de deficiências de nutrientes e preservação de massa muscular. O counseling por nutricionista é citado como estratégia de suporte essencial.

    Os dados de Mogna-Peláez e Guasch-Ferré (2026) ajudam a entender por que isso importa. Usuários de agonistas de GLP-1 apresentam reduções de ingestão energética entre 16 e 39%, com um ensaio clínico de semaglutida oral documentando redução de 39% em relação ao placebo. Sem orientação estruturada, a ingestão proteica e de micronutrientes frequentemente fica abaixo do necessário: num estudo transversal com usuários de GLP-1, apenas 43% atingiram o limiar mínimo de 1,2 g/kg/dia de proteína, e a maioria não atingiu as referências dietéticas para vitamina D, potássio, magnésio e ferro. Numa análise retrospectiva com mais de 460.000 usuários, deficiências nutricionais foram documentadas em 12,7% aos 6 meses e em 22,4% aos 12 meses de tratamento.

    As mesmas autoras observam que as respostas comerciais a esse cenário, incluindo refeições menores em restaurantes e produtos apresentados como adequados para usuários de GLP-1, raramente têm adequação nutricional baseada em evidências. O desafio central não é o tamanho da porção, mas a densidade de nutrientes: uma distinção frequentemente ignorada nas mensagens comerciais. É nesse espaço que os produtos GLP-1 support se posicionam.

    Arslan (2026) sistematizou os alvos nutricionais propostos para essa população: proteína entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia, com distribuição por refeição e atenção ao teor de leucina; monitoramento laboratorial de vitamina D, B12, ferro, folato, zinco e tiamina em pacientes de risco; integração de exercício resistido progressivo. Um cuidado que parte de avaliação individual, não de fórmula padronizada.

    A revisão sistemática de de Paulo et al. (2026), com 16 ensaios clínicos e 7.096 participantes, acrescenta uma ressalva necessária: a evidência sobre as necessidades nutricionais ótimas de usuários de GLP-1/GIP ainda é limitada. Quando havia intervenção de estilo de vida associada, a massa magra foi geralmente preservada. Mas nenhum ensaio avaliou abordagens nutricionais específicas de forma direta. Muito do que se recomenda ainda é extrapolado de outras populações.

    O cuidado nutricional recomendado é individualizado e não se resume a um produto. Um suplemento de prateleira, por mais sofisticada que seja sua composição, não responde às perguntas que uma avaliação clínica precisa fazer.

    O que o mercado não mostra

     

    Dois elementos raramente aparecem nas embalagens ou nas páginas de venda.

    O primeiro é o perfil dos produtos. Suplementos e alimentos funcionais direcionados a usuários de agonistas de GLP-1/GIP frequentemente apresentam características que os enquadrariam como ultraprocessados pela classificação NOVA, independentemente dos nutrientes que listam no rótulo. A umbrella review de Lane et al. (2024), publicada no BMJ com quase 10 milhões de participantes, encontrou evidência convincente de associação entre maior consumo de ultraprocessados e riscos elevados de mortalidade cardiovascular e diabetes tipo 2, entre outros desfechos. Nenhum estudo identificou associação benéfica. A presença de um claim proteico no rótulo não altera a classificação NOVA de um produto nem o perfil de associações que essa classificação carrega.

    O segundo é o custo. A OMS, em sua primeira diretriz sobre o uso de agonistas de GLP-1 para tratamento da obesidade, publicada em dezembro de 2025, tornou sua recomendação condicional pelo alto custo das terapias e pelas implicações de equidade no acesso. Adicionar suplementos sem indicação individualizada a esse tratamento é clinicamente questionável e economicamente relevante. Quando se trata de uma família de produtos, cada item somado ao protocolo amplia esse custo de forma que raramente é dimensionada antes da compra.

    O que esse cenário revela

    A preocupação com nutrição durante o uso de agonistas de GLP-1 e GIP é real e tem respaldo científico. Reduções expressivas na ingestão alimentar, risco de inadequação proteica e de micronutrientes, e ausência de acompanhamento nutricional estruturado são problemas documentados e clinicamente relevantes. O mercado de GLP-1 support não inventou uma necessidade fictícia: ele identificou uma lacuna legítima e construiu sobre ela uma resposta que opera fora da regulação de rótulos, sem eficácia clínica demonstrada, com composições que frequentemente apresentam características de ultraprocessados, e com custo que se soma a um tratamento já economicamente excludente para muitos. Reconhecer a legitimidade da preocupação nutricional é diferente de validar a resposta que o mercado oferece para ela.

    Aplicação clínica

    A demanda por esses produtos tem uma origem rastreável: conteúdo de baixa qualidade nas redes sociais, efeito halo de embalagem e uma lacuna real de orientação nutricional que o mercado preencheu antes do sistema de saúde. Esse entendimento muda o ponto de entrada da conversa clínica. A pergunta não é sobre o produto que o paciente trouxe, é sobre o que ele está conseguindo comer desde que começou a usar a medicação. É dessa resposta que emerge o raciocínio clínico.

    A conduta mais fundamentada diante de um produto GLP-1 support é redirecionar a atenção para o que a literatura sustenta: avaliação da ingestão alimentar atual, identificação de inadequações reais, manejo dos sintomas gastrointestinais que frequentemente determinam o quanto e o quê o paciente consegue comer, e suplementação com propósito clínico definido quando a alimentação não é suficiente. Essa sequência não depende de nenhum produto dessa categoria. Depende de avaliação.

    Num cenário em que o custo da medicação já é uma barreira para muitos, nomear com clareza o que tem e o que não tem evidência também é cuidado. Não como confronto, mas como ancoragem num ambiente informacional que raramente oferece essa distinção.

     

    Referências

    Mogna-Peláez P, Guasch-Ferré M. Avoiding malnutrition in the era of GLP-1 medications: emerging evidence and opportunities for integrated nutrition care. J Nutr. 2026. doi:10.1016/j.tjnut.2026.101684

    McKeon GP, Hallman WK. Front-of-Package Protein Labels on Cereal Create Health Halos. Foods. 2024;13(8):1139. doi:10.3390/foods13081139 | PMID: 38672812

    Mozaffarian D, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: A joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. Obesity (Silver Spring). 2025;33(8):1475-1503. doi:10.1002/oby.24336 | PMID: 40445127

    Arslan S. Medical nutrition in the glucagon-like peptide-1 (GLP-1) era: Protein strategies, micronutrient monitoring, and lean mass preservation. Clin Nutr ESPEN. 2026;73:103305. doi:10.1016/j.clnesp.2026.103305 | PMID: 42036071

    de Paulo RS, et al. Dietary Strategies and Nutritional Management in Patients Receiving GLP-1 and Dual GIP/GLP-1 Receptor Agonists as Adjuncts to Lifestyle Interventions: A Systematic Review of Randomised Clinical Trials. Diabetes Obes Metab. 2026;28(7):5492-5507. doi:10.1111/dom.70779 | PMID: 42037117

    Zeng M, et al. #WhatIEatinaDay: The Quality, Accuracy, and Engagement of Nutrition Content on TikTok. Nutrients. 2025;17(5):781. doi:10.3390/nu17050781 | PMID: 40077651

    Campos-Rivera PA, et al. Quality of information and social norms in Spanish-speaking TikTok videos as levers of commercial practices: The case of semaglutide. Soc Sci Med. 2024;366:117646. doi:10.1016/j.socscimed.2024.117646 | PMID: 39827687

    Lane MM, et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses. BMJ. 2024;384:e077310. doi:10.1136/bmj-2023-077310 | PMID: 38418082

    World Health Organization. WHO issues global guideline on the use of GLP-1 medicines in treating obesity. Geneva: WHO; 2025. Disponível em: https://www.who.int/news/item/01-12-2025-who-issues-global-guideline-on-the-use-of-glp-1-medicines-in-treating-obesity


  • Curadoria científica 5 – Nutrição integrada ao tratamento com GLP-1/GIP: um framework prático com base de evidências ainda em construção

    Referência: Zambrano-Villacres R, Campuzano-Donoso M, Reytor-González C, Rossetti G, Cobellis L, Cobellis F, Pilone V, Simancas-Racines D, Schiavo L. Nutrition-First Support for GLP-1 and Dual Incretin Therapy in Obesity: A Practical Framework for Dietary Management, Symptom Tolerability, and Long-Term Weight Maintenance. Nutrients. 2026;18(11):1751. doi:10.3390/nu18111751

    Delineamento: Revisão narrativa com busca estruturada

    Leitura estimada: 9 min

    Curadoria científica realizada por: Dra. Ana Paula Gines Geraldo. Nutricionista. Professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do Projeto Obesidade com Ciência UFSC.

    Por que este artigo agora

    O campo está diante de um paradoxo operacional: os medicamentos agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP já estão na clínica em larga escala, mas o suporte nutricional durante o tratamento ainda carece de protocolos baseados em estudos desenhados especificamente para essa população. O resultado prático é que o nutricionista que acompanha um paciente em uso de semaglutida ou tirzepatida precisa extrapolar de literatura sobre restrição calórica, cirurgia bariátrica e sarcopenia, sem saber ao certo quanto dessas evidências se traduz para o contexto dos incretínicos.

    É nessa lacuna que este artigo entra. Publicado em Nutrients em maio de 2026, propõe um “framework nutricional primeiro” para organizar a conduta dietética ao longo das fases do tratamento farmacológico. Não é um guideline, não produz dados novos, mas tenta sistematizar o que existe de forma operacionalizável. Para o clínico que atende essa população, entender o que esse framework oferece e onde seus pés estão no vazio é o ponto de partida.

    O que o estudo fez

    Trata-se de uma revisão narrativa com busca estruturada nas bases PubMed, Scopus e outras bases biomédicas, com cobertura desde o início das bases até janeiro de 2026. Os termos combinaram vocabulário de farmacoterapia da obesidade (semaglutida, tirzepatida, GLP-1, GIP), efeitos gastrointestinais, composição corporal, padrão alimentar, manutenção de peso e descontinuação.

    O objetivo não foi sintetizar efeitos de tratamento, mas construir um modelo conceitual e translacional que organizasse a evidência disponível em domínios práticos: avaliação pré-tratamento, manejo sintomático por sintoma, prioridades macronutrientes, composição corporal e planejamento de manutenção. Os autores explicitam que, quando a evidência direta em populações usuárias de GLP-1/GIP era insuficiente, recorreram à literatura de restrição calórica, cirurgia bariátrica, sarcopenia e gastropatia, classificando essa evidência como indireta ou baseada em consenso especializado.

    O artigo se estrutura em quatro grandes blocos: tradução da farmacologia em prioridades nutricionais; avaliação e preparo pré-tratamento; manejo nutricional de sintomas gastrointestinais; padrão alimentar, proteína e composição corporal, com seções adicionais sobre manutenção, populações especiais e implementação clínica.

    O que o artigo encontrou

    O artigo entrega um conjunto de prioridades nutricionais organizadas por fase de tratamento. Traduzido para a prática: o que fazer antes de iniciar o medicamento, durante o início e ajuste de dose, na fase de perda ativa e no planejamento de manutenção.

    Os alvos propostos partem da farmacologia do medicamento e são extrapolados da literatura de restrição calórica, sarcopenia e cirurgia bariátrica.

    • Para proteína, a faixa recomendada é de 1,2 a 1,6 g/kg/dia distribuída entre as refeições, com fontes de alto valor biológico priorizadas no início de cada refeição antes que a saciedade precoce limite o volume total ingerido.
    • Para hidratação, a meta é de 1,5 a 2,5 L/dia em pequenos goles distribuídos ao longo do dia, evitando grandes volumes junto à refeição quando há refluxo ou plenitude.
    • Para fibra, a titulação gradual até 25 a 35 g/dia é recomendada, com preferência por fontes solúveis no contexto de constipação.
    • A estrutura alimentar sugerida é de três refeições principais com lanche proteico opcional,
    • Treinamento resistido de duas a três sessões por semana é apresentado como componente indispensável para preservação de massa magra.
    • Para sintomas gastrointestinais, o artigo organiza estratégias por sintoma com uma lógica de progressão: primeiro ajustes dietéticos, depois conduta médica se o sintoma persistir. Náusea e refluxo respondem a refeições menores, ritmo lento de ingestão e moderação de gordura. Constipação exige titulação gradual de fibra solúvel, hidratação e atividade física, com agentes osmóticos à base de magnésio como terceiro passo. Diarreia e distensão melhoram com redução temporária de gordura, limitação de polióis e aumento gradual de fibra.

    Um dado com implicação direta no timing da conduta nutricional: dados observacionais mostram descontinuação em até metade dos pacientes no primeiro ano, com taxas maiores em quem usa os medicamentos sem diabetes tipo 2. O STEP 1 extension documenta reganho médio de 11,6 pontos percentuais após interrupção da semaglutida; o SURMOUNT-4 replica o padrão com tirzepatida. A implicação prática: a conversa sobre alimentação sustentável começa no primeiro mês de tratamento, não quando o medicamento está sendo retirado.

    Figura 1. Mecanismos farmacológicos e prioridades nutricionais clínicas durante o tratamento com agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP. Fonte: Zambrano-Villacres et al., Nutrients, 2026. Tradução livre.

    Contexto na literatura

    • O que o artigo avança:

      A contribuição principal é operacional, não epistêmica. O terreno conceitual da necessidade de suporte nutricional integrado ao GLP-1/GIP já havia sido demarcado pelo advisory conjunto da American Society for Nutrition, Obesity Medicine Association e The Obesity Society (Mozaffarian et al., American Journal of Clinical Nutrition, 2025) e pelo artigo de Fitch et al. (Obesity Pillars, 2025). O que Zambrano-Villacres et al. acrescentam é a tentativa de traduzir esses princípios em fluxogramas e tabelas clínicas organizadas por fase de tratamento e por sintoma, o que facilita a implementação prática. A contribuição incremental é modesta em termos científicos, mas pode ser útil como material de referência rápida na clínica.

    • Onde se encaixa:

      O artigo é convergente com o movimento da literatura dos últimos dois anos, que aponta sistematicamente para a mesma lacuna: faltam ensaios pragmáticos que testem intervenções nutricionais específicas em usuários de GLP-1/GIP com desfechos de adesão, composição corporal e qualidade alimentar. A revisão se alinha com Fitch et al. (2025) e com Spreckley et al. (International Journal of Obesity, 2026) na proposta de transplantar aprendizados da nutrição pós-bariátrica para o contexto dos incretínicos, reconhecendo simultaneamente que essa transposição não é direta.

    Aplicação clínica

    O artigo propõe três ferramentas organizadas por momento do tratamento. Cada uma responde a uma pergunta diferente: o que avaliar antes de começar, o que fazer quando surgem sintomas, e como estruturar o acompanhamento ao longo das fases.

    Checklist pré-tratamento

    Aplicar antes da primeira dose para mapear vulnerabilidades específicas do paciente:

    • Qualidade alimentar basal: predominância de ultraprocessados, densidade proteica das refeições habituais
    • Ingestão proteica e distribuição ao longo do dia
    • Hidratação habitual e padrão de consumo de líquidos
    • Padrão intestinal basal: frequência, consistência, histórico de constipação ou refluxo
    • Ritmo e horário das refeições: refeições grandes à noite, comer rápido, longos períodos em jejum
    • Rastreamento de risco de transtorno alimentar (SCOFF ou equivalente quando indicado)
    • Mapeamento da relação basal com a comida: padrões hedônicos, comer emocional, preocupação excessiva com alimentos

    Alvos nutricionais por domínio

    Manejo por sintoma

    Acompanhamento por fase

    O framework organiza o cuidado em quatro fases: preparação antes do início do medicamento, adaptação durante o ajuste de dose, otimização na fase de perda ativa e manutenção a longo prazo. Cada fase tem riscos nutricionais distintos e estratégias específicas. O ponto mais relevante para a prática é que as fases não são lineares: um paciente que retoma o medicamento após interrupção volta para a fase de adaptação, com os mesmos riscos de intolerância gastrointestinal e redução de ingestão proteica do início do tratamento.

    Figura 2. Suporte nutricional ao longo das fases do tratamento com incretínicos. Fonte: Zambrano-Villacres et al., Nutrients, 2026. Tradução livre.

    Figura 3. Fluxograma de decisão clínica para manejo nutricional durante a terapia com incretínicos. FFM: massa livre de gordura; GLP-1: peptídeo semelhante ao glucagon-1. Fonte: Zambrano-Villacres et al., Nutrients, 2026. Tradução livre.

    Tabela 3 — Acompanhamento nutricional por fase de tratamento

    O que buscar além deste artigo

     

    Alvo proteico por peso de referência:

    O artigo não especifica se os 1,2 a 1,6 g/kg/dia se aplicam ao peso atual, peso ajustado ou massa livre de gordura. Em obesidade grave, usar peso atual pode superestimar a necessidade em até 50%. O advisory de Mozaffarian et al. (Am J Clin Nutr, 2025) propõe massa livre de gordura como referencial mais preciso, ou alvo absoluto de 80 a 120 g/dia quando a composição corporal não está disponível.

    Comportamento alimentar como domínio clínico:

    Esta é a lacuna estrutural mais relevante do framework. A supressão de apetite, a redução do “food noise”, as mudanças nas preferências alimentares e na relação hedônica com a comida são mencionadas como efeitos farmacológicos ao longo do texto, mas não recebem tratamento como dimensão clínica com instrumento de avaliação, protocolo de monitoramento ou alvo terapêutico. Isso importa em todas as fases: antes do tratamento (rastreamento de padrões disfuncionais que o medicamento pode mascarar), durante (distinção entre supressão funcional e restrição maladaptativa) e especialmente na descontinuação (retorno do apetite e das preferências hedônicas sem suporte estruturado é um dos mecanismos mais prováveis do reganho documentado). O framework proposto não oferece ferramentas para isso.

    Análise crítica

    Delineamento e amostra

    Por ser uma revisão narrativa sem protocolo PRISMA, o artigo não está sujeito a vieses de seleção amostral no sentido convencional, mas está exposto a um problema análogo: a escolha dos estudos incluídos segue critérios não pré-registrados e sem avaliação formal de risco de viés das fontes citadas. Os autores reconhecem isso explicitamente, o que é um ponto de transparência relevante. O uso de evidência indireta é declarado ao longo do texto, não escondido.

    O alcance geográfico da literatura citada é predominantemente norte-americano e europeu. O artigo não discute aplicabilidade para contextos com acesso restrito aos medicamentos, sem estrutura multidisciplinar ou com realidades alimentares distintas, o que limita a generalização para o contexto de APS brasileiro.

    Limitações e o que os autores concluem

    Os autores listam como limitações centrais: o design narrativo sem graduação de certeza das evidências, a escassez de ensaios com intervenções nutricionais específicas em populações usando GLP-1/GIP, e a necessidade de individualização para todos os alvos propostos. A conclusão é proporcional: o artigo se apresenta como contribuição conceitual e translacional, não como diretriz. Isso é epistemicamente correto e diferencia este texto de revisões que extrapolam além do que o dado suporta.

    O que os autores não discutiram

    A omissão mais operacionalmente relevante está nos alvos proteicos. O artigo recomenda 1,2 a 1,6 g/kg/dia sem especificar se “kg” se refere ao peso atual, ao peso ajustado ou à massa livre de gordura. Em pessoas com obesidade grave (IMC acima de 40 kg/m²), usar peso atual pode superestimar a necessidade proteica em 30 a 50% em relação ao peso ajustado ou à massa livre de gordura. O advisory de Mozaffarian et al. (2025) aborda essa ambiguidade diretamente: reconhece que não há consenso e propõe a massa livre de gordura como referencial mais preciso, ou alvos absolutos de 80 a 120 g/dia como alternativa pragmática.

    A segunda ausência notável é o comportamento alimentar. Supressão de apetite, redução do “food noise”, mudanças nas preferências alimentares e na relação hedônica com a comida são mencionadas como efeitos farmacológicos ao longo do texto, mas não recebem tratamento como dimensão clínica estruturada. Não há proposta de instrumento de avaliação, protocolo de monitoramento ou alvo terapêutico para essa dimensão. Para um framework que se propõe integrado, essa lacuna é significativa: o comportamento alimentar é simultaneamente mediador dos efeitos dos medicamentos e vulnerabilidade central no contexto de descontinuação.

    Conflito de interesse e credibilidade dos autores

    Os autores declaram ausência de financiamento externo e inexistência de conflitos de interesse. Luigi Schiavo, autor correspondente pela Universidade de Salerno, tem produção consolidada em nutrição clínica e cirurgia bariátrica, com linha de pesquisa coerente e histórico de publicações relevantes nessa interface. Daniel Simancas-Racines, segundo autor correspondente pela Universidad Indoamérica (Equador), integra grupo de co-autorias recorrentes com produção predominante em Nutrients (MDPI), periódico de acesso aberto com critérios de revisão por pares que são objeto de debate na comunidade. O fator de impacto da revista é de aproximadamente 4,8 (2024), razoável para a área, mas o volume elevado de publicações do mesmo grupo no mesmo veículo merece atenção ao avaliar o peso relativo das afirmações.

    Qualificação epistêmica

    O que o dado sustenta

    • Este framework sugere que a integração de avaliação nutricional estruturada antes e durante o uso de GLP-1/GIP é clinicamente plausível e potencialmente relevante para tolerabilidade e adesão, com suporte em literatura indireta de qualidade razoável.
    • Os dados indicam associação consistente entre sintomas gastrointestinais não manejados e descontinuação precoce da farmacoterapia, com múltiplos estudos convergindo nesse ponto.
    • Esta revisão sustenta que alvos proteicos na faixa de 1,2 a 1,6 g/kg/dia (com peso de referência a ser definido individualmente) têm suporte na literatura de restrição calórica, sarcopenia e envelhecimento, ainda que não tenham sido testados em ensaios dose-resposta em usuários de incretínicos.
    • A revisão sustenta que treinamento resistido combinado à ingestão proteica adequada é a estratégia com maior suporte para preservação de massa magra durante perda de peso, com evidência extrapolada de literatura de qualidade, mas ainda sem validação específica em usuários de GLP-1/GIP.

    O que extrapola

    • Este artigo não suporta a adoção de seus alvos nutricionais como protocolos validados: são recomendações de consenso e extrapolação, não intervenções testadas em ensaios pragmáticos com usuários de GLP-1/GIP.
    • Não é possível afirmar que implementar este framework melhora adesão ou desfechos de composição corporal: a hipótese é plausível e biologicamente fundamentada, mas ainda não foi testada com desfechos controlados nessa população.
    • Os alvos proteicos não devem ser aplicados sem definir o peso de referência, especialmente em obesidade grave ou doença renal crônica.

    Nota da Dra. Ana Geraldo

    Esse artigo foi publicado em um momento em que ainda não sabemos ao certo como é de fato a alimentação de quem usa os agonistas de GLP-1 e GIP e os autores tentaram organizar, de forma sistemática e muito bem feita, os cuidados nutricionais nas diferentes fases do tratamento com as medicações, desde antes do início da medicação até a manutenção ou descontinuação. Vejo esse como um importante diferencial dessa publicação, que certamente poderá ser utilizada no atendimento clínico dos pacientes, com as ressalvas levantadas nessa curadoria. Um ponto ainda que quero levantar é a quase ausência de estratégias referentes às mudanças de hábitos alimentares e no comportamento alimentar, que são tão importante quanto a adequação da ingestão de nutrientes e manejo de efeitos colaterais. Espero ver em breve algo nesse sentido.

    Referência (Vancouver)

    Zambrano-Villacres R, Campuzano-Donoso M, Reytor-González C, Rossetti G, Cobellis L, Cobellis F, Pilone V, Simancas-Racines D, Schiavo L. Nutrition-First Support for GLP-1 and Dual Incretin Therapy in Obesity: A Practical Framework for Dietary Management, Symptom Tolerability, and Long-Term Weight Maintenance. Nutrients. 2026;18(11):1751. doi:10.3390/nu18111751


  • Curadoria 4 – Ultraprocessados não engordam? O que um comentário na Science diz, o que omite, e por que isso importa agora

    Profa. Dra. Ana Paula Gines Geraldo

    Nutricionista | Doutora em Nutrição em Saúde Pública (USP) | Professora do Departamento de Nutrição da UFSC | Coordenadora do Obesidade com Ciência

    Referência: Magkos F, Forde CG, Robinson E. Ultraprocessed foods and obesity: Interpreting the evidence. Science. 2026;392(6802):1020-1022. doi:10.1126/science.aef3495

    Delineamento: Commentary/Perspectives

    Destinado a: Nutricionistas, médicos e demais profissionais de saúde que atuam com obesidade

    Leitura estimada: 9 min

    Por que escolhi este artigo

    Quando vi esse comentário publicado na Science, não consegui ignorar. O argumento é sério, os autores têm trajetória real, e o momento em que foi publicado não é por acaso. Vale a leitura com atenção.

    Por que este artigo agora

    O artigo chegou num momento muito conveniente. Em junho de 2026, enquanto países do mundo todo debatem impostos, rotulagens e restrições a alimentos ultraprocessados, três pesquisadores europeus publicam na Science um argumento que merece leitura atenta: os ensaios clínicos randomizados disponíveis não provam que o ultraprocessamento, como tal, causa ganho de peso ou piora metabólica. O problema seria a textura macia, o excesso de sódio, a densidade calórica. Não o processamento em si.

    Vale ler. O argumento é tecnicamente sério e os autores têm expertise real na área. Mas vale ler sabendo o contexto: a Colômbia já opera com imposto de 20% sobre ultraprocessados, a FDA americana abriu consulta pública para defini-los em lei, o Lancet publicou em 2025 uma série com 43 especialistas e apoio da OMS pedindo regulação global, e no Brasil a indústria mobilizou frente parlamentar para blindá-los do imposto seletivo da Reforma Tributária. Um comentário de três páginas na revista científica de maior prestígio do mundo, publicado nesse momento, não é um evento neutro.

    O que o estudo fez

    Este não é um estudo primário. É um artigo de opinião argumentativa que revisita cinco ensaios clínicos randomizados já publicados: Hall et al. (EUA), Hamano et al. (Japão), Dicken et al. (Reino Unido), Preston et al. (Reino Unido, dois braços) e Rego et al. Não há busca sistemática, critérios formais de inclusão, avaliação de qualidade metodológica ou síntese quantitativa. A seleção dos cinco estudos parece orientada pela pertinência ao argumento que os autores querem construir.

    Os autores são pesquisadores com trajetória coerente com o que defendem:

    • Faidon Magkos (Universidade de Copenhague): metabolismo e intervenção dietética
    • Ciáran Forde (Universidade de Wageningen): textura alimentar, velocidade de ingestão e consumo calórico
    • Eric Robinson (Universidade de Liverpool): tamanho de porção e consumo passivo de calorias

    Isso importa para entender que a posição deles não surgiu do nada.

    O que encontrou

    Os autores organizam a releitura dos cinco ensaios em torno de três argumentos:

    1. Textura e velocidade de ingestão

    Dietas ricas em ultraprocessados tendem a ser de textura macia, o que aceleraria o ritmo de comer e aumentaria o consumo calórico sem que a pessoa perceba. Para sustentar esse mecanismo, citam um ensaio do próprio grupo de Forde (AJCN, 2025) que teria demonstrado diferença de 369 kcal por dia apenas pela manipulação da textura, sem alterar o grau de processamento. Nos estudos em que os ultraprocessados eram de textura mais dura, relatam que o excesso de ingestão desapareceu ou se inverteu.

    2. Sódio e retenção de água

    No estudo de Preston, segundo os autores, a dieta rica em ultraprocessados tinha cerca de 150% mais sódio que a comparadora. O ganho de peso de 0,75 kg em três semanas poderia ser explicado por retenção hídrica, não por acúmulo de gordura. Quando fibra e sódio foram equiparados entre as dietas, como no estudo Rego, o excesso de ingestão calórica deixou de ser estatisticamente significativo.

    3. Comparadores ecologicamente inválidos

    Segundo os autores, nos países onde os ensaios foram conduzidos, entre 50 e 70% da energia habitual dos participantes já vinha de ultraprocessados. As dietas controle forneciam de 0 a 5% de energia a partir desses alimentos. Comparar 70% com 0% amplifica artificialmente qualquer diferença observada e não reflete nenhuma mudança alimentar que existe na vida real.

    Com base nesses três argumentos, os autores concluem que políticas públicas deveriam focar em alimentos de alta densidade calórica, baixo teor de proteína e fibras e consumo rápido, independentemente da classificação pelo grau de processamento.

    Análise crítica

    O que o texto é e o que não é

    Não é revisão sistemática, não é meta-análise, não é estudo primário. É argumentação qualificada, sem método declarado de seleção dos estudos. As omissões não são limitações metodológicas: são escolhas editoriais.

    A mais significativa delas é a ausência completa da evidência observacional longitudinal:

    • O NutriNet-Santé (105 mil participantes, França) demonstrou que cada incremento de 10 pontos percentuais de ultraprocessados na dieta estava associado a 12% mais risco cardiovascular, 13% mais doença coronariana e 11% mais doença cerebrovascular, associações que se mantiveram após ajuste para qualidade nutricional da dieta (Srour et al., BMJ, 2019).
    • Coorte australiana com 10 mil mulheres acompanhadas por 15 anos associou maior consumo de ultraprocessados a 39% mais risco de hipertensão (Pant et al., European Journal of Nutrition, 2024).

    Essa literatura simplesmente não aparece no artigo. Os autores reconhecem, numa única frase, que estudos de curta duração não excluem riscos de longo prazo, mas não discutem os dados que existem sobre esses riscos.

    Os três argumentos, avaliados um a um

    Comparadores contrafactuais: o mais sólido. Comparar 70% com 0% de ultraprocessados é uma limitação real, reconhecida há anos na literatura, e vale independentemente de qual lado do debate se está.

    Textura e velocidade de ingestão: plausível, mas inferencial. Nenhum dos cinco ensaios testou textura de forma independente do grau de processamento. E o argumento cria uma lacuna que o artigo não fecha: se o problema é a maciez, um ultraprocessado de textura dura seria inofensivo? Para a prática clínica e para a comunicação em saúde pública, deixar essa pergunta sem resposta é um problema.

    Sódio e retenção hídrica: o mais especulativo. Construído retroativamente sobre dados publicados, sem acesso à composição corporal ou dados urinários dos participantes. É uma interpretação possível, não uma demonstração.

    A hipótese não testada

    Vale levar o argumento dos autores até sua conclusão lógica: se o problema não é o ultraprocessamento em si, mas textura macia, alta densidade calórica e excesso de sódio, então um ultraprocessado que controla os três seria inofensivo. Essa hipótese nunca foi testada. Não existe, até hoje, nenhum ensaio que tenha manipulado esses três atributos de forma independente dentro de uma dieta ultraprocessada. Isso não torna o argumento falso, mas torna prematuro usá-lo para revisar políticas públicas ou relativizar a orientação de reduzir ultraprocessados na prática clínica.

    O que o artigo não enfrenta

    Monteiro e colaboradores documentaram que os processos e ingredientes dos ultraprocessados são deliberadamente escolhidos para criar produtos hiperpalatáveis, de baixo custo e longa vida de prateleira (Monteiro et al., Public Health Nutrition, 2017; 2019). A maciez, o sódio e a densidade calórica não são efeitos colaterais do processamento: são o objetivo dele. A evidência mais concreta disso vem das políticas regulatórias: após a rotulagem frontal obrigatória no Chile, a indústria reformulou seus produtos reduzindo açúcar e sódio para escapar dos selos de advertência, sem deixar de produzir ultraprocessados (Roberto et al., Annual Review of Nutrition, 2021). O alcance e a suficiência dessas reduções para impacto em saúde ainda são debatidos, mas o fato da reformulação em si demonstra que essas características são escolhas, não restrições técnicas. Questionar a classificação pelo grau de processamento sem questionar a intencionalidade dessas escolhas é uma análise incompleta.

    Conflito de interesse

    Forde declara reembolsos de: Kerry Taste and Nutrition, Ajinomoto, Nestlé Nutrition Institute, AB Mauri, Pepsico, Barilla, World Sugar Research Organization, Mondelez, Northern Irish Dairy Council, General Mills, Lesaffre, European Milk Forum e International Glutamate Technical Committee. São empresas produtoras de alimentos processados e ingredientes industriais, precisamente os setores cujos produtos são alvo das políticas que o artigo questiona. Magkos declara suporte da Novo Nordisk Foundation. Robinson não declara vínculos com a indústria alimentar.

    Nada disso invalida os argumentos. Mas quando essa convergência de interesses coincide com o pico do debate regulatório global, ela precisa ser nomeada com clareza, não apenas listada numa nota de rodapé.

    O que é possível afirmar

    • Os cinco ensaios têm limitações reais: duração de 1 a 8 semanas, amostras pequenas e comparadores que diferem das dietas habituais em múltiplas dimensões simultaneamente.
    • Textura, densidade energética, fibras e proteínas variam sistematicamente entre dietas ricas em ultraprocessados e dietas sem esses alimentos, tornando difícil isolar o efeito específico do processamento.
    • Quando fibra e sódio foram equiparados (estudo Rego), o excesso de ingestão calórica com a dieta ultraprocessada deixou de ser estatisticamente significativo.
    • O argumento dos comparadores ecologicamente inválidos é metodologicamente legítimo e generalizável além dos cinco estudos analisados.

    O que não é possível afirmar

    • Que ultraprocessados não causam ganho de peso ou dano metabólico. A evidência observacional longitudinal, ausente neste texto, não desaparece por não ter sido citada.
    • Que textura e velocidade de ingestão são os mecanismos causais dos efeitos dos ultraprocessados. É uma hipótese plausível, não demonstrada diretamente nos ensaios analisados.
    • Que políticas regulatórias baseadas no grau de processamento são injustificadas. Questionar a especificidade do marcador em ensaios de curto prazo é diferente de demonstrar que essas regulações são ineficazes.
    • Que este texto representa o que os estudos sobre ultraprocessados mostram. Representa o que esse grupo de autores interpreta que esses estudos mostram, com base num corpus selecionado, num momento de disputa regulatória ativa.

    Aplicação clínica

    A conduta não muda. A base continua sendo priorizar alimentos in natura e minimamente processados, onde está a maior densidade de nutrientes, e reduzir ultraprocessados, associados a diversas doenças crônicas não transmissíveis em estudos de longo prazo. É isso que o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda, e é isso que a evidência observacional acumulada sustenta.

    • Para o nutricionista: trabalhar não apenas a categoria do alimento, mas suas características físicas e de composição: textura, velocidade de ingestão, densidade calórica, teor de fibras e proteínas.
    • Para o médico: ampliar as perguntas ao paciente para além de “você come ultraprocessados?” incluindo “você come rápido? Você para de comer antes de se sentir satisfeito?”

    O que este artigo não justifica é usá-lo para relativizar essa orientação. A distância entre “o mecanismo pode não ser o processamento em si” e “então ultraprocessados não são um problema” é uma extrapolação que nem os próprios autores sustentam com os dados que apresentam.

    Nota da curadora

    “O que me chama atenção é que os autores tratam ‘processamento’ como se fosse uma categoria única, quando não é. Um grão de trigo virando farinha, um feijão sendo seco, um queijo sendo curado: isso é processamento, e é necessário. A NOVA nunca disse o contrário. O que a NOVA nomeia como ultraprocessado é outra coisa: é o produto formulado industrialmente para ir além da nutrição, para maximizar atratividade sensorial e consumo. Essa distinção importa, e um texto publicado na Science em 2026 não deveria ignorá-la.”

    Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora da UFSC, coordenadora do Obesidade com Ciência

    Referências

    Magkos F, Forde CG, Robinson E. Ultraprocessed foods and obesity: Interpreting the evidence. Science. 2026;392(6802):1020-1022. doi:10.1126/science.aef3495

    Srour B et al. Ultra-processed food intake and risk of cardiovascular disease: prospective cohort study (NutriNet-Santé). BMJ. 2019;365:l1451. doi:10.1136/bmj.l1451

    Pant A et al. Ultra-processed foods and incident cardiovascular disease and hypertension in middle-aged women. Eur J Nutr. 2024;63(3):713-725. doi:10.1007/s00394-023-03297-4

    Monteiro CA et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutr. 2019;22(5):936-941. doi:10.1017/S1368980018003762

    Monteiro CA et al. The UN Decade of Nutrition, the NOVA food classification and the trouble with ultra-processing. Public Health Nutr. 2017;21(1):5-17. doi:10.1017/S1368980017000234

    Roberto CA et al. The Influence of Front-of-Package Nutrition Labeling on Consumer Behavior and Product Reformulation. Annu Rev Nutr. 2021;41:529-550. doi:10.1146/annurev-nutr-111120-094932

    Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.


  • Curadoria 3 – Mudar o metabolismo vale mais do que mudar o comportamento? O que os dados confirmam, o que contradizem, e o que ainda falta saber.

    Referência: Greenway FL. Physiological adaptations to weight loss and factors favouring weight regain. International Journal of Obesity, 2015. DOI: 10.1038/ijo.2015.59

    Delineamento: Revisão narrativa (busca estruturada, seleção por julgamento do autor)

    Leitura estimada: 8 min

     

    Por que este artigo agora

     

    Há uma pergunta que pacientes e profissionais repetem nos consultórios de obesidade: por que, depois de perder peso, o corpo parece trabalhar ativamente contra a manutenção? A resposta intuitiva, e equivocada, é que falta força de vontade. A resposta fisiológica, sistematizada neste artigo, é que falta um arcabouço hormonal, metabólico e neurobiológico favorável, e que tentar vencer esse sistema apenas com mudança de comportamento é, como o próprio autor argumenta, uma batalha que a biologia costuma ganhar.

    O artigo ganhou uma camada adicional de relevância com o advento dos agonistas de GLP-1 e GIP. Greenway descreve, em detalhe, a queda dos hormônios anorexigênicos após o emagrecimento, em especial GLP-1, PYY e CCK, e a elevação simultânea do orexigênico grelina, como um dos principais mecanismos do reganho. Uma década depois, os medicamentos que dominam as prescrições em obesidade são exatamente os que repõem ou mimetizam esses sinalizadores. Ler esta revisão é compreender, mecanisticamente, por que o GLP-1 exógeno funciona em quem já emagreceu e perdeu o suporte hormonal que sustentaria esse peso.

     

    O que o estudo fez

     

    Trata-se de uma revisão narrativa com busca realizada no PubMed para publicações entre janeiro de 2008 e abril de 2014. A busca inicial identificou 4.314 artigos; pesquisas secundárias com termos específicos (grelina, leptina, GLP-1, PYY, CCK, hedônico, metabolismo, exercício, entre outros) permitiram refinamento por relevância. Ao final, 106 artigos foram incluídos, selecionados por julgamento do autor com base em experiência clínica e revisão de pares.

     

    O que encontrou

     

    A revisão organiza os achados em quatro mecanismos interdependentes que, juntos, criam um ambiente fisiológico hostil à manutenção do peso.

    1. O perfil hormonal muda e não volta ao ponto de partida

    Após emagrecimento induzido por dieta, ocorre uma inversão consistente no ambiente hormonal: grelina e peptídeo inibitório gástrico sobem; leptina, PYY, CCK, amilina, insulina e GLP-1 caem. O efeito é mais fome, menos saciedade e maior tendência ao armazenamento de energia. Em estudo com 50 participantes submetidos a dieta de muito baixo valor calórico por 10 semanas, essas alterações persistiram com significância estatística por aproximadamente 1 ano (p<0,05 para todos os hormônios). O sistema hormonal não se normaliza com o tempo: permanece em modo de recuperação por pelo menos 12 meses.

    O achado mais contraintuitivo da revisão vem de estudo com 104 participantes: quem reganhava 10% ou mais do peso perdido apresentava, ao seguimento de 6 meses, leptina mais elevada e grelina mais baixo do que quem mantinha o peso, o oposto do esperado. A explicação proposta é resistência hormonal, não deficiência: o problema não está no quanto o hormônio circula, está em quanto o organismo consegue responder a ele.

    1. O metabolismo de repouso cai mais do que o peso explica

    Em participantes de um programa televisivo de emagrecimento extremo (perda de mais de um terço do peso corporal em 30 semanas), a taxa metabólica de repouso reduziu 789 kcal/dia. Desse total, 504 kcal/dia correspondiam a queda além do esperado pela mudança de composição corporal. Isso é adaptação metabólica: o organismo reorganiza sua eficiência celular e passa a gastar menos energia para fazer as mesmas funções.

    O fenômeno aparece também em contextos menos extremos. Em 30 mulheres com sobrepeso ou obesidade que realizaram 12 semanas de exercício aeróbico supervisionado, 43% apresentaram queda da taxa metabólica de repouso superior ao esperado (média de -102,9 kcal/dia). A variabilidade individual foi expressiva, mas o padrão foi consistente.

    1. A gordura dietética é poupada da oxidação e vai para depósito

    Após o emagrecimento, a oxidação de gordura cai, com supressão mais intensa no período pós-prandial. Estudos em ratos documentaram desvio do metabolismo lipídico para oxidação preferencial de carboidratos durante a manutenção do peso e o reganho: a gordura deixa de ser queimada e fica disponível para armazenamento no tecido adiposo. Dados em humanos sugerem que a composição da dieta pode influenciar esse processo. Ebbeling et al. (BMJ, 2018), em RCT com 162 adultos e 20 semanas de manutenção, encontraram gasto energético total 209 kcal/dia maior na dieta muito baixa em carboidrato versus dieta alta em carboidrato, medido por água duplamente marcada. O achado é biologicamente plausível, mas metodologicamente contestado por Hall et al., e não foi replicado em estudos com controle rigoroso de calorias em câmara metabólica. O debate permanece aberto.

    1. O apetite não estabiliza: ele se amplifica

    Em seguimento de 1 ano com 50 participantes, fome, desejo de comer e consumo prospectivo permaneceram significativamente elevados na semana 62 em relação ao basal (p<0,001). A preocupação com pensamentos sobre comida, ainda não significativa na semana 10, tornou-se significativa na semana 62 (p=0,008). O apetite não acompanha o novo peso: ele cresce ao longo do tempo, enquanto os sinais hormonais de saciedade seguem deprimidos. A isso se soma o componente hedônico: pessoas com obesidade apresentam redução dos receptores de dopamina D2 no estriado, o que diminui a resposta de recompensa à alimentação habitual e pode gerar hiperfagia compensatória. Circuitos de recompensa são capazes de sobrepor o controle homeostático, e o ambiente obesogênico amplifica essa sobreposição ao disponibilizar, ao tornar alimentos de alta densidade energética e alta palatabilidade disponíveis em todo lugar e a qualquer momento.

     

    Análise crítica

     

    Delineamento e base de evidência

    Esta é uma revisão narrativa cujos critérios de seleção dependem, em parte, do julgamento do autor, o que é reconhecido explicitamente no método. Não há avaliação formal de qualidade dos estudos incluídos. Os tamanhos amostrais são, em geral, modestos: 17, 21, 50 ou 104 participantes. Os períodos de acompanhamento raramente excedem 1 a 2 anos. A maioria dos dados provém de populações norte-americanas e europeias, com representatividade limitada para outros contextos. Parte dos dados mecanísticos é proveniente de modelos animais e extrapolada para humanos sem a devida qualificação.

    O que isso significa na prática: o artigo é uma síntese interpretativa do estado da arte de 2015, não uma estimativa de efeito consolidada com poder estatístico adequado. Ele organiza, conecta e argumenta com clareza, e isso tem valor. Mas não prova com a robustez de uma meta-análise bem conduzida e pré-registrada.

    O que os autores concluem e o que os dados permitem

    A conclusão central, de que intervenções sobre a homeostase são mais eficazes a longo prazo do que intervenções comportamentais, é uma extrapolação ampla construída sobre base de dados heterogênea. O autor recorre à analogia com o tratamento da hipertensão arterial de modo didático e eficaz retoricamente, mas analogia não é evidência. A assertividade do argumento central, “é difícil vencer a fisiologia com o comportamento”, merece qualificação importante: comportamento e fisiologia não são polos opostos de uma dicotomia. São sistemas que se interpenetram e se modulam mutuamente. A revisão subestima, por exemplo, o papel do tecido adiposo como órgão endócrino ativo e os mecanismos pelos quais mudanças comportamentais sustentadas podem reorganizar o ambiente hormonal ao longo do tempo. O National Weight Control Registry, com mais de 2.800 indivíduos que mantiveram perda de mais de 13,6 kg por pelo menos 1 ano, é citado no próprio artigo sem que sua existência seja usada para qualificar a conclusão.

    O artigo foi escrito em 2015, antes da aprovação do uso de liraglutida 3,0 mg e muito antes de semaglutida e tirzepatida para obesidade. A seção de perspectivas terapêuticas menciona liraglutida ainda em processo regulatório. Essa dimensão temporal deve ser lida como ponto de partida histórico, não como estado atual do campo.

    Conflito de interesse

    O autor declara vínculos com Novo Nordisk (honorário e membro de conselho científico), Orexigen Therapeutics (honorário e conselho científico), Boehringer Ingelheim, Eisai, GNC e outros. O artigo recebeu auxílio de redação médica financiado pela Novo Nordisk, que também teve a oportunidade de realizar revisão de acurácia médica antes da publicação. Isso não invalida os dados citados, mas configura conflito estrutural relevante em uma revisão narrativa, exatamente o tipo de delineamento onde a seleção e o peso atribuído a cada achado dependem mais intensamente do julgamento do autor do que em revisões sistemáticas com protocolo fechado.

    A conclusão que favorece farmacoterapia e cirurgia sobre intervenção comportamental, em um texto financiado por empresa de farmacoterapia para obesidade, precisa ser lida com esse contexto ativo e explícito.

    O que é possível afirmar a partir do estudo

     

    • Após perda de peso induzida por dieta, ocorrem alterações hormonais documentadas, com queda de GLP-1, PYY, CCK e leptina e elevação de grelina, que persistem por pelo menos 12 meses e que aumentam o impulso de fome enquanto reduzem os sinais de saciedade.
    • Há evidência de adaptação metabólica ao emagrecimento, com redução do gasto energético de repouso além do esperado pela mudança de composição corporal; sua magnitude real é provavelmente menor do que sugerem os estudos de emagrecimento extremo, e sua relação causal com o reganho é atualmente contestada na literatura.
    • O apetite subjetivo, em vez de estabilizar no novo peso, permanece elevado e tende a se amplificar ao longo do tempo, como documentado em seguimento de até 1 ano.
    • A composição da dieta pode influenciar o gasto energético durante a manutenção do peso: o estudo de maior duração disponível (Ebbeling et al., BMJ, 2018) encontrou maior gasto energético total na dieta muito baixa em carboidrato, mas o achado é metodologicamente contestado e não deve ser tratado como consenso.
    • O componente hedônico da alimentação, mediado por vias dopaminérgicas e circuitos de recompensa, pode sobrepor o controle homeostático e contribuir para o reganho independentemente dos sinais periféricos de saciedade.

    O que não é possível afirmar

     

    • Que “fisiologia vence comportamento” de forma inevitável e universal: a revisão documenta barreiras fisiológicas reais e consistentes, mas subestima a interação dinâmica entre comportamento sustentado e reorganização hormonal, além de não incorporar adequadamente a evidência de manutenção de longo prazo com intervenção comportamental intensiva.
    • Que a adaptação metabólica documentada em contextos de emagrecimento extremo, como o do programa televisivo com perda superior a um terço do peso corporal, seja diretamente extrapolável para pacientes com perdas moderadas de 5 a 15%, que representam a maioria do cenário clínico real.
    • Que os dados de modelos animais sobre metabolismo de lipídios e oxidação de carboidratos se apliquem à fisiologia humana na mesma magnitude e direção.
    • Que a farmacoterapia seja necessariamente superior à intervenção comportamental de alta intensidade a longo prazo: o argumento do autor é biologicamente plausível, mas não decorre de comparação direta entre abordagens com desfecho de manutenção de peso como desfecho primário.
    • Que as conclusões sobre superioridade farmacológica sejam epistemicamente neutras, dado o financiamento do artigo pela Novo Nordisk e o auxílio de redação pago pela mesma empresa.

     

    Aplicação clínica

    Ler este artigo sem transformar os mecanismos descritos em condutas concretas é desperdiçar o melhor que ele oferece. O texto organiza com clareza uma fisiologia que o profissional precisa dominar não apenas para entender o reganho, mas para antecipar, comunicar e intervir sobre ele.

    • Antes de iniciar o tratamento para perda de peso. O principal erro de timing na conduta clínica com obesidade é deixar a explicação do reganho para depois que ele acontece. A fisiologia descrita pelo autor, a queda de GLP-1 e leptina, a elevação de grelina, a redução do gasto metabólico basal, instala-se durante o emagrecimento e persiste por meses. Quando o paciente diz, na consulta de retorno, “comi igual a antes e ganhei tudo de volta”, ele está descrevendo com precisão o que esta revisão documenta: o mesmo padrão alimentar anterior gera balanço energético positivo porque o gasto de repouso caiu e os sinais de fome aumentaram. Explicar isso antes da perda de peso, e não como consolo depois do reganho, muda a relação do paciente com o processo e com as suas próprias sensações ao longo do tratamento.

     

    • Reconhecer a adaptação metabólica na estagnação, com cautela epistêmica. Quando um paciente relata platô sem desvio aparente na dieta, a adaptação metabólica é uma hipótese clinicamente razoável, mas a literatura mais recente pede cautela antes de ela virar explicação. Martins et al. (AJCN, 2020), em seguimento de 2 anos com 171 mulheres, encontraram adaptação metabólica modesta (-54 kcal/dia) que desaparecia ao longo do acompanhamento e não se associava ao reganho de peso quando medida sob condições de estabilidade. Isso não elimina o fenômeno, mas redimensiona seu papel clínico: a adaptação existe, é real, mas provavelmente não é a explicação universal para a resistência ao emagrecimento e ao platô. Antes de reajustar a dieta com base nessa hipótese, vale investigar com rigor o balanço energético real, o volume de exercício e possíveis fontes de energia não registradas. Quando disponível, a calorimetria indireta fornece a medida direta mais confiável para guiar a decisão.

     

    • Sobre a composição da dieta na manutenção. Os dados sobre oxidação de gordura e preferência metabólica por carboidratos durante o reganho sugerem que a fase de manutenção pode exigir estratégia dietética diferente da fase de perda. Dietas com menor carga glicêmica e proteína adequada, 1,2 a 1,5 g/kg/dia segundo outros consensos, parecem mais protetoras da eficiência metabólica do que dietas hipogordurosas. Isso não é umaprescrição fechada, é uma hipótese com respaldo biológico plausível que pode orientar escolhas individualizadas. O profissional que distingue a lógica da fase ativa da lógica da fase de manutenção entrega um cuidado estruturalmente diferente.

     

    • A dimensão hedônica não é psicológica no sentido pejorativo. A redução de receptores D2 no estriado documentada em pessoas com obesidade é neurobiologia, não fraqueza. Quando um paciente relata compulsão ou dificuldade de resistir a alimentos específicos mesmo sem fome fisiológica, isso tem substrato em circuitos de recompensa que operam parcialmente fora do controle consciente. Nomear isso ao paciente, sem culpabilizá-lo, e oferecer estratégias estruturais como reestruturação do ambiente alimentar, rotinas de refeição e, quando indicado, suporte multiprofissional, é conduta tecnicamente embasada, não apenas humanizada.

     

    • A farmacoterapia como modulação fisiológica, não como atalho. A queda de GLP-1 endógeno após o emagrecimento, documentada nesta revisão como persistente ao longo de 1 ano, é o argumento biológico mais preciso para explicar ao paciente por que a reintrodução exógena de GLP-1 não é um recurso para quem “não conseguiu emagrecer sozinho”. É uma intervenção que repõe uma sinalização que o próprio emagrecimento deprimiu. O GLP-1 exógeno não combate apenas a obesidade ativa: combate o estado fisiológico pós-emagrecimento que favorece o reganho. Essa distinção muda a conversa sobre duração do tratamento farmacológico e sobre o que significa “precisar de medicamento”.

    Nota da curadora

    O reganho de peso é o momento em que mais pessoas abandonam o tratamento, e não por falta de esforço. Escolhi este artigo por uma razão que vai além do conteúdo: ele é financiado pela Novo Nordisk, com redação médica paga pela mesma empresa, e conclui que é difícil vencer a fisiologia com o comportamento. Essa conclusão pode estar certa em parte. Mas ela serve ao produto, e isso precisa ser nomeado antes de qualquer leitura.

    O que o artigo descreve sobre a fisiologia do reganho é real e clinicamente útil, independentemente de quem pagou a conta. O corpo que emagrece fica com menos GLP-1, menos leptina, mais grelina, menos gasto metabólico, e está fazendo exatamente o que foi programado para fazer. Entender isso muda o ponto de partida da consulta e retira o peso moral do reganho, o que é necessário para qualquer estratégia de tratamento funcionar. Fisiologia e comportamento não competem entre si: cada uma tem um papel dominante em momentos diferentes do tratamento, e nenhuma substitui a outra.

    O que o conflito de interesse compromete não é a fisiologia descrita. É a autoridade de uma revisão narrativa para fazer afirmações dessa magnitude. Revisões narrativas não têm protocolo pré-registrado, não avaliam formalmente o risco de viés dos estudos incluídos e dependem do julgamento do autor para selecionar, pesar e interpretar a evidência. São, por definição, o delineamento mais vulnerável à influência de quem financia. Usar esse formato para concluir onde o comportamento termina e onde a medicação começa, em um texto pago pela indústria farmacêutica, é exatamente o tipo de decisão que o leitor crítico precisa identificar. Essa fronteira, o profissional precisa traçar com outras ferramentas, e com mais evidência do que este artigo oferece.

    Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora da UFSC, coordenadora do projeto Obesidade com Ciência UFSC


  • Curadoria de artigo 2 – Recomendações de cuidados nutricionais e de estilo de vida para o tratamento da obesidade com terapias baseadas em GLP-1

    Recomendações nutricionais para GLP-1: um consenso financiado pela Nestlé, com 46% das declarações baseadas em opinião de especialista, que ainda assim tem valor clínico — se lido com cautela

     

    Referência: Sievenpiper JL et al. Obesity Pillars, 2026. DOI: 10.1016/j.obpill.2025.100228

    Delineamento: Consenso de especialistas por método Delphi modificado, com scoping review como base documental

    Leitura estimada: 7 min

     

    Por que este artigo agora

     

    Os ensaios clínicos de semaglutida e tirzepatida mostram perdas de peso de 15 a 25%, mas quase não descrevem o que os participantes comem, quanto de proteína ingerem ou que suporte nutricional recebem. Uma revisão de 129 RCTs com essas medicações encontrou reporte mínimo sobre qualidade da dieta ou ingestão alimentar. Em outras palavras: a farmacologia foi testada. A nutrição que acompanha esse tratamento, não.

    É exatamente esse vácuo que este consenso tenta preencher. E aqui começa a leitura crítica: o documento foi integralmente financiado pela Nestlé Health Science, empresa com linha direta de suplementos proteicos e substitutos de refeição para gestão de peso. Todos os 15 especialistas do painel receberam honorários pessoais dessa empresa. Das 52 declarações aprovadas, 46% são baseadas exclusivamente em opinião de especialista e 33% são extrapolações de diretrizes pré-existentes sobre obesidade, não evidência nova sobre GLP-1.

    O que o documento oferece é uma organização estruturada do julgamento clínico disponível sobre um tema sem evidência direta. Lê-se com esse enquadramento ativo desde o início.

     

    O que o estudo fez

     

    Consenso Delphi modificado conduzido entre maio e setembro de 2024, com painel de 15 especialistas (médicos, pesquisadores e dietistas) de 9 países. A base documental foi uma scoping review de publicações de janeiro de 2021 a junho de 2025, conduzida por empresa contratada pelo patrocinador.

    O processo de votação ocorreu em duas rodadas anônimas. Consenso foi definido como ≥67% de concordância (escore ≥7 por 10/15 especialistas). Declarações com 60–66% de concordância e mediana ≥7 também foram incluídas como “consenso moderado”, o que, na prática, significa que até 6 em cada 15 especialistas discordaram. Das 85 declarações iniciais, 52 atingiram o threshold após duas rodadas.

     

    O que encontrou

     

    As 52 declarações foram organizadas em sete módulos: nutrição geral na obesidade, atividade física, avaliação pré-tratamento, fase de perda de peso ativa, fase de manutenção, manejo dos efeitos adversos gastrointestinais e condutas na descontinuação.

    Os pontos de maior relevância clínica:

    Área Recomendação
    Micronutrientes pré-existentes Pessoas com obesidade já apresentam risco aumentado de deficiências de vitamina D, B12, ferro e cálcio antes de iniciar o GLP-1. A redução da ingestão pode agravar um problema ainda não identificado. Triagem bioquímica indicada quando há sinais clínicos; suplementação recomendada se adesão dietética for duvidosa ou perda de peso excessiva.
    Proteína 1,2–1,5 g/kg/dia na fase ativa (25–30% da energia em dieta de 1.600 kcal/dia); ≥0,8 g/kg/dia na manutenção; ≥1,0–1,2 g/kg/dia para maiores de 65 anos.
    Fibra ≥25 g/dia para mulheres; ≥30 g/dia para homens; ≥35 g/dia para pessoas com diabetes.
    Hidratação 2–4 L/dia (≈35 mL/kg). Atenção redobrada em episódios de náusea, vômito ou diarreia. Monitoramento especial em pacientes com insuficiência cardíaca ou renal.
    Atividade física ≥150 min/semana de atividade aeróbica moderada a vigorosa + treino resistido. Combinação GLP-1 + exercício previne perda de densidade mineral óssea observada com medicação isolada (dados de RCTs, incluindo SURMOUNT-3).
    Efeitos adversos GI Ocorrem em 50–60% dos pacientes. Refeições menores e frequentes, evitar alimentos gordurosos/picantes na titulação. Constipação é o efeito mais persistente, psyllium pode ser necessário. Tratar náusea farmacologicamente não interfere na perda de peso.
    Descontinuação Recuperação de ~2/3 do peso perdido em 1 ano após parada. No STEP-4: +6,9% de peso em 68 semanas ao trocar semaglutida por placebo. No SURMOUNT-4: +14,0% até a semana 88 ao parar tirzepatida.

     

    Análise crítica

     

    Delineamento e base de evidência

     

    Este não é um RCT nem uma revisão sistemática, é um consenso de especialistas. O método Delphi estrutura e torna transparente a elicitação de opinião, mas não transforma opinião em evidência empírica. A distribuição real das 52 declarações revela o que o documento é de fato: quase metade (46%) representa o que especialistas acham, com base na experiência clínica, sem estudo por trás. Um terço (33%) vem de diretrizes escritas para outros contextos e foi transplantado para cá por analogia, não por evidência direta. Apenas 13% têm algum dado observacional como respaldo. E zero declarações foram sustentadas por um ensaio clínico desenhado para testar intervenção nutricional especificamente durante uso de GLP-1.

    Na prática, isso significa: se você seguir essas recomendações acreditando que foram testadas e comprovadas em pacientes usando GLP-1, está enganada. Podem estar corretas. Podem não estar. Ninguém ainda verificou isso de forma controlada.

    A base documental foi conduzida por empresa contratada pelo patrocinador, não é uma revisão sistemática com protocolo registrado ou avaliação de risco de viés. A maior parte da evidência indireta vem de cirurgia bariátrica e intervenções de estilo de vida sem GLP-1, populações e mecanismos distintos dos usuários de farmacoterapia atual.

    O painel é composto exclusivamente por especialistas de países de alta renda, com predominância norte-americana e europeia. A aplicabilidade para o contexto brasileiro, padrões alimentares, acesso a alimentos, realidade socioeconômica, não foi abordada.

    As recomendações foram calibradas para o cenário dos trials, onde a perda de peso média é de 15 a 25%. Dados de mundo real nos EUA e na Dinamarca mostram perda de apenas ~5% em pacientes com ou sem diabetes tipo 2. Para o paciente médio da prática clínica, que perde muito menos do que os participantes selecionados dos ensaios, metas de proteína, fibra e monitoramento desenhadas para perdas substanciais podem ter aplicabilidade muito diferente. O documento não aborda essa lacuna.

     

    Limitações declaradas pelos autores

     

    Os próprios autores reconhecem: escopo temporal restrito da revisão, viés regional do painel, evidência indireta e mal reportada sobre nutrição nos trials de GLP-1, exclusão de medicações para obesidade de próxima geração e escassez de dados de populações não ocidentais. A conclusão declara que as recomendações são complementares às diretrizes existentes e que evidência direta é urgentemente necessária.

     

    Conflito de interesse

     

    O financiamento integral foi da Nestlé Health Science. Todos os 15 especialistas receberam honorários pessoais da empresa. Vários têm vínculos adicionais com Novo Nordisk, Eli Lilly, Boehringer Ingelheim e AstraZeneca. Isso não invalida o estudo, mas reforça a necessidade de cautela na leitura.

    Os autores declaram que o patrocinador não teve direito de voto, veto ou influência sobre o conteúdo e o processo Delphi anônimo reduz, mas não elimina, o potencial de influência. Há, porém, um ponto anterior ao voto que não é abordado: os dois coordenadores que estruturaram as declarações submetidas ao painel foram selecionados pelo patrocinador. No Delphi, a forma como uma afirmação é enquadrada influencia o resultado tanto quanto o voto em si. Nunca chegamos a saber que declarações foram descartadas antes de entrar na votação.

    O problema não é só de processo: um consenso internacional que recomenda suporte nutricional estruturado, substitutos de refeição e suplementação proteica é, por si só, um ativo comercial para a Nestlé, independentemente de quão honestas sejam as intenções individuais dos autores. As recomendações mais operacionais e específicas concentram-se exatamente nos módulos onde a empresa tem produtos. Isso é um conflito estrutural. Não é prova de manipulação, mas precisa ser nomeado.

     

    O que é possível afirmar a partir do estudo

     

    • Este consenso documenta, com clareza, que o suporte nutricional durante uso de GLP-1 é insuficientemente abordado na prática e que não há evidência direta para guiar a conduta — o que já tem valor informativo.
    • Manter ingestão proteica adequada e atividade física regular durante perda de peso com GBT é biologicamente plausível e alinhado com evidência indireta de outros contextos de perda de peso significativa — mas sem confirmação direta no cenário de GLP-1.
    • Cerca de 25–30% da perda total de peso com GLP-1 corresponde a massa magra (metanálise recente + análise post-hoc do SURMOUNT-1), o que sustenta a atenção ativa à preservação muscular.
    • Os dados de reganho pós-descontinuação são robustos (STEP-4, SURMOUNT-4) e reforçam a necessidade de suporte contínuo mesmo após a parada da medicação.
    • Como orientação organizada e consistente com diretrizes independentes, o documento tem utilidade clínica — com as ressalvas explicitadas.

    O que não é possível afirmar

     

    • Que qualquer estratégia nutricional recomendada aqui seja superior a alternativas no contexto de GLP-1, não existem RCTs comparando abordagens distintas nesse cenário.
    • Que a meta proteica de 1,2–1,5 g/kg/dia seja a ideal para todos: a própria literatura citada apresenta variação considerável, e usar peso real superestima a necessidade em pacientes com alta adiposidade.
    • Que a extrapolação de dados de cirurgia bariátrica e intervenções sem GLP-1 seja diretamente aplicável — os mecanismos e perfis de pacientes diferem.
    • Que este documento seja uma referência neutra. Usar suas orientações gerais é razoável. Adotá-lo como fundamento para recomendar produtos específicos,  substitutos de refeição, suplementos proteicos, sem essa ressalva é um erro de julgamento clínico.

     

    Aplicação clínica

     

    Para quem já conduz o cuidado nutricional com rigor, este documento muda pouco na prática. As metas de proteína, fibra e hidratação são consistentes com o que diretrizes independentes já recomendam para perda de peso em geral.

    Três pontos merecem atenção especial por serem subvalorizados na rotina:

    1. o rastreio de deficiências de micronutrientes antes de iniciar o GLP-1 e não apenas depois, quando a ingestão já caiu;
    2. a triagem para transtornos alimentares com instrumentos curtos (SCOFF ou ESP) antes da prescrição, dado que o medicamento pode agravá-los;
    3. o monitoramento ativo de perda excessiva de peso durante a titulação (>1,5 kg/semana como sinal de alerta clínico).

    Na prática, as metas nutricionais do consenso: 1,2–1,5 g/kg de proteína na fase ativa, ≥25–30 g de fibra por dia, hidratação adequada e treino resistido, são biologicamente plausíveis e consistentes com o que já se recomenda em outros contextos de perda de peso significativa. A ausência de RCTs específicos com GLP-1 não as invalida: significa que a certeza é moderada, não que estão erradas. Aplicá-las com julgamento clínico individualizado é razoável. Aplicá-las como protocolo fixo ou como justificativa para produtos específicos, não.

    A Figura 1 do artigo pode funcionar como checklist organizador para a consulta. As recomendações sobre substitutos de refeição e suplementação específica devem ser avaliadas com a mesma pergunta que vale para qualquer dado: quem financiou, e quem se beneficia?

    Nota da curadora:

    Quando vi este consenso pela primeira vez, pensei que seria exatamente o que faltava na prática: um guia organizado para conduzir a nutrição de quem usa GLP-1. E em parte é. Mas o financiamento da Nestlé Health Science, uma empresa com linha direta de produtos de suplementação e substitutos de refeição, me fez reler tudo com outros olhos. As recomendações são razoáveis e alinhadas com o que já fazemos, mas o entusiasmo com substitutos de refeição e suplementos proteicos fica difícil de dissociar de quem patrocinou a elaboração desse artigo. Vale usar o documento como referência, com essa lente sempre ativa.

    Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora da UFSC, coordenadora do Obesidade com Ciência UFSC

    Referência:

    Sievenpiper JL, Ard J, Blüher M, Chen W, Dixon JB, Fitch A, Gigliotti L, Khunti K, Lecube A, Lean MEJ, Mittendorfer B, Pfeiffer AFH, Ryan DH, Vilsbøll T, Van Gaal LF. Nutritional and lifestyle supportive care recommendations for management of obesity with GLP-1-based therapies: An expert consensus statement using a modified Delphi approach. Obesity Pillars. 2026;17:100228. doi:10.1016/j.obpill.2025.100228


  • Curadoria de artigos 1 – Perda de massa magra durante farmacoterapia: proporção e valor absoluto contam histórias diferentes, e o treino resistido muda a equação

    Perda de massa magra durante farmacoterapia: proporção e valor absoluto contam histórias diferentes, e o treino resistido muda a equação

    Referência: Eisa & Barood, Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026. DOI: 10.1111/dom.70666 | PMID: 41877354 Delineamento: Revisão sistemática e meta-análise de RCTs (PROSPERO CRD420261277555) Leitura estimada: 7 min

     

    Por que este artigo agora?

    Todo profissional que acompanha pacientes em uso de semaglutida ou tirzepatida já ouviu a pergunta: “Estou perdendo peso, mas estou perdendo do lugar certo?” A resposta até agora era fragmentada, substudos de composição corporal de ensaios individuais, sem comparação sistemática entre agentes e entre farmacoterapia e intervenção de estilo de vida.

    Esta meta-análise responde à pergunta de forma direta: quanto do peso perdido com cada medicamento é massa magra? Isso é diferente do que acontece com intervenção dietética isolada? E o que efetivamente modifica esse desfecho? As respostas têm implicação imediata no planejamento do acompanhamento nutricional e do exercício físico.

    O que o estudo fez

    Revisão sistemática e meta-análise de 20 RCTs (15.782 participantes), com busca em quatro bases de dados até janeiro de 2026 e registro prospectivo no PROSPERO. Critério de inclusão para composição corporal: apenas estudos que usaram DEXA ou ressonância magnética, excluindo bioimpedância (incluída apenas em análises de sensibilidade).

    Os grupos comparados foram: semaglutida 2,4 mg (7 estudos, incluindo STEP 1, 3, 5 e 8), tirzepatida 5/10/15 mg (5 estudos: SURMOUNT-1, SURMOUNT-2, SURPASS-3, Sattar 2024 e SURMOUNT-4), liraglutida 3,0 mg (3 estudos: SCALE Obesity, SCALE Diabetes, S-LiTE), intervenção de estilo de vida intensiva (5 estudos, incluindo Look AHEAD e DPP) e estilo de vida com treino de resistência estruturado (2 estudos: Villareal 2011 e 2017).

    Os desfechos co-primários foram mudança absoluta em massa magra (kg) e proporção do peso total perdido composta por massa magra.

    O que o estudo encontrou

    A proporção do peso perdido como massa magra variou entre os agentes: semaglutida 35,2% (IC 95%: 31,5-38,9), tirzepatida 25,4% (22,8-28,0) e liraglutida 26,8% (23,1-30,5). A intervenção de estilo de vida isolada foi estatisticamente comparável (26,2%; p=0,42). Estilo de vida com treino de resistência estruturado mostrou o perfil mais favorável: 17,5% (14,2-20,8), significativamente menor que todos os demais grupos (p<0,001 para todas as comparações pareadas).

    Um achado que o abstract não deixa claro: em valor absoluto, a perda de massa magra é maior com tirzepatida (-4,8 kg; IC 95%: -5,9 a -3,7) do que com semaglutida (-3,4 kg; IC 95%: -4,2 a -2,6), porque a tirzepatida produz perda de gordura muito maior (-11,8 kg vs. -8,6 kg). Ou seja, tirzepatida preserva mais músculo proporcionalmente, mas retira mais músculo em termos absolutos, simplesmente porque a perda total é maior.

    Dois achados do texto completo merecem destaque: o trial S-LiTE mostrou que combinar liraglutida com exercício reduziu a perda de massa magra para 12% do peso total, contra 26% com liraglutida isolada. E o STEP 3 mostrou que adicionar terapia comportamental intensiva à semaglutida não reduziu a proporção de massa magra perdida (37% vs. ~35% com semaglutida isolada), sugerindo que orientação comportamental geral não substitui treino resistido específico.

    Análise crítica

    Delineamento e amostra

    A exigência de DEXA ou RM como método de composição corporal é um ponto metodológico forte — elimina estudos menos precisos. O registro prospectivo no PROSPERO e a confiabilidade interavaliadores excelente (kappa 0,85-0,91) reforçam a qualidade do processo.

    Há, contudo, uma inconsistência interna que os autores não endereçam: os valores absolutos de perda de massa magra descritos na seção de resultados (semaglutida -6,2 kg; tirzepatida -4,5 kg) não correspondem aos valores da Tabela 2 (semaglutida -3,4 kg; tirzepatida -4,8 kg). A discrepância na semaglutida é substantiva. Isso pode refletir diferenças nos subconjuntos de estudos analisados nos dois desfechos co-primários, mas o artigo não explica.

    Outro ponto: o grupo “estilo de vida com treino de resistência” inclui apenas 2 estudos, o que amplia os intervalos de confiança e limita a precisão do efeito estimado, precisamente o grupo de maior relevância clínica.

    Limitações declaradas pelos autores

    Os autores listam oito limitações. As mais relevantes: heterogeneidade moderada (I²=68%); variação considerável no tempo de seguimento (12 semanas a 4 anos); impossibilidade de avaliar a influência da ingestão proteica e do nível de atividade física dos participantes; e o uso de DEXA, que mede massa magra total mas não distingue músculo esquelético de outros tecidos magros. Este último ponto é clinicamente importante: dados emergentes de RM do SURPASS-3 sugerem que qualidade muscular pode estar preservada ou melhorada apesar da redução em quantidade.

    A conclusão dos autores é proporcional à evidência. Eles evitam afirmar que a perda de massa magra é clinicamente irrelevante, ao contrário, recomendam estratégias de mitigação explicitamente.

    Conflito de interesse

    Nenhum conflito declarado. Nenhuma fonte de financiamento reportada. Os dois autores são vinculados a instituições acadêmicas sem vínculo industrial identificável. A transparência quanto ao uso de ferramentas de IA para edição de linguagem (não para conteúdo) é um ponto positivo raro de destacar.

    O que é possível afirmar

    •  Esta meta-análise demonstrou que a proporção do peso perdido como massa magra com agonistas de GLP-1 e tirzepatida varia entre 25% e 35%, sendo comparável à da intervenção de estilo de vida isolada (p=0,42).
    • Os dados indicam que semaglutida está associada à maior proporção de perda de massa magra (35,2%) entre os agentes avaliados, com evidência de certeza moderada (limitada por heterogeneidade).
    • Este estudo sugere que a associação de treino resistido estruturado ao tratamento é a intervenção com melhor perfil de preservação de massa magra (17,5%), com evidência de alta certeza.
    • Os dados do S-LiTE indicam que combinar liraglutida com exercício pode reduzir a perda de massa magra pela metade (12%) em comparação ao medicamento isolado.
    • O estudo demonstra que maior perda de peso total está associada a maior perda proporcional de massa magra (β=0,8; p=0,002), o que é clinicamente relevante para os agentes mais eficazes.

    Aplicação clínica

    Este estudo fornece base para uma mudança concreta no acompanhamento: monitoramento de composição corporal e prescrição de treino resistido não são opcionais no paciente em uso de farmacoterapia, são parte do tratamento. A recomendação prática dos próprios autores (Tabela 4): treino resistido 2-3 vezes por semana, proteína 1,0-1,2 g/kg/dia distribuída nas refeições, avaliação de composição corporal com DEXA na baseline e ao longo do tratamento.

    Um dado que muda a conversa clínica sobre escolha de medicamento: a pergunta não é apenas “qual agente perde mais peso?” mas “qual combinação de agente mais intervenção comportamental otimiza composição corporal?”. O dado do S-LiTE , 12% de massa magra perdida com liraglutida mais exercício, contra 26% com liraglutida isolada, é o argumento mais concreto que existe hoje para integrar farmacoterapia e exercício estruturado como política de tratamento, não como sugestão.

    Nota da curadora

    Escolhi este artigo para estrear a curadoria porque é a pergunta que mais ouço de alunos e profissionais: “a perda de músculo com essas medicações é real, e o que a gente faz com isso?” Até agora a resposta dependia de estudos isolados. Aqui temos a comparação sistemática que faltava. O dado do S-LiTE, em especial, me parece o argumento mais concreto que existe hoje para integrar treino resistido como parte obrigatória do protocolo, não como recomendação de rodapé.

    Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora do Projeto Obesidade com Ciência UFSC.

    Referência (Vancouver): Eisa N, Barood O. Lean Mass Changes With Incretin Therapy Versus Lifestyle Intervention: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Diabetes Obes Metab. 2026;28(6):4818-4827. doi:10.1111/dom.70666


  • Projeto Obesidade com Ciência UFSC abre agenda 2026 para levar ciência do tratamento da obesidade a instituições e eventos

    O projeto de extensão Obesidade com Ciência, do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está com agenda aberta para a realização de atividades em 2026. A iniciativa promove ações de divulgação e comunicação científica voltadas ao tratamento da obesidade e ao cuidado em saúde baseado em evidências.

    Coordenado pela professora Dra. Ana Paula Gines Geraldo, o projeto realiza aulas, palestras e encontros educativos destinados a profissionais de saúde, estudantes de graduação da saúde e pessoas que vivem com obesidade. As atividades abordam temas como a compreensão contemporânea da obesidade como doença crônica, abordagens atuais de tratamento, alimentação, nutrição e farmacoterapia e o enfrentamento do estigma no cuidado em saúde.

    As ações podem ser realizadas em universidades, eventos científicos, serviços de saúde, empresas e outras instituições e organizações interessadas em promover educação em saúde sobre obesidade. O objetivo do projeto é aproximar o conhecimento científico da prática em saúde e ampliar o acesso a informações qualificadas sobre prevenção e tratamento da doença.

    Instituições interessadas em receber atividades do projeto em 2026 podem entrar em contato para verificar disponibilidade de agenda.

    Contato: ana.paula.geraldo@ufsc.br