Curadoria Científica 6 – A explosão de produtos proteicos para quem usa GLP-1: o que a ciência realmente sustenta
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Curadoria realizada por: Ana Paula Gines Geraldo – Nutricionista – Professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do projeto Obesidade com Ciência – UFSC.
A explosão de produtos proteicos para quem usa GLP-1: o que a ciência realmente sustenta
O mercado de alimentos e suplementos está passando por uma transformação visível. Barras, shakes, iogurtes, pães, snacks e biscoitos exibem cada vez mais o claim “alto teor de proteínas” em destaque na embalagem. Cresce também a oferta de suplementos de vitaminas, minerais e fibras com promessas ligadas ao controle de peso e à saúde metabólica.
Mais recentemente surgiu uma categoria inteiramente nova: os produtos denominados “GLP-1 support”. Eles se apresentam como suporte ao tratamento com agonistas de GLP-1 e GIP, mas essa denominação não aparece no rótulo dos produtos, onde a regulação da ANVISA se aplica. Ela circula nas redes sociais, nas páginas de venda, nos materiais de divulgação e nos estandes de eventos, como foi observado na Naturaltech, feira realizada em junho de 2026 em São Paulo. É um posicionamento de marketing que opera nos espaços onde a fiscalização de claims é mais difusa.
Esses produtos podem assumir formas distintas. Às vezes é um único produto que reúne proteínas, fibras, vitaminas, minerais e outros compostos bioativos numa só formulação. Outras vezes é uma família de suplementos separados, cada um com um papel específico dentro de um protocolo de uso, como ômega-3, HMB, vitaminas e minerais em produtos distintos, comercializados conjuntamente como uma linha.
O surgimento dessa categoria tem uma explicação estrutural. A adoção rápida das terapias com agonistas de GLP-1 e GIP ultrapassou o desenvolvimento de sistemas adequados de suporte nutricional, deixando muitos pacientes sem orientação dietética apesar de experienciarem reduções expressivas no apetite e na ingestão alimentar. Como argumentam Mogna-Peláez e Guasch-Ferré (2026) em perspectiva recente publicada no Journal of Nutrition, as decisões tomadas agora sobre como integrar o cuidado nutricional ao uso de GLP-1 vão moldar os padrões clínicos por anos. O mercado de GLP-1 support não surgiu do nada: ele ocupa uma lacuna de cuidado documentada e nomeada pela própria literatura científica.
A questão que este texto propõe não é se proteína importa para quem usa agonistas de GLP-1/GIP. Importa. A questão é outra: o que a evidência realmente recomenda para essa população, e o que esses produtos efetivamente entregam?
O ambiente informacional em que esses produtos surgem
A qualidade da informação sobre GLP-1 e nutrição nas redes sociais é predominantemente baixa. Campos-Rivera et al. (2024) analisaram vídeos em espanhol sobre semaglutida no TikTok e encontraram que 79% promoveram a medicação como solução para perda de peso sem mencionar mudanças de estilo de vida. Apenas 11,9% mencionaram algum risco associado ao uso. O mesmo padrão aparece no conteúdo nutricional mais amplo: Zeng et al. (2025) avaliaram posts do TikTok sobre alimentação e dieta e encontraram que 55% não apresentaram informação baseada em evidências, 75% não tinham conteúdo balanceado e acurado, e apenas 36% foram considerados completamente acurados. Nos dois contextos, engajamento e qualidade da informação não se correlacionaram.
O que acontece com o consumidor quando se depara com um produto com claim de proteína foi investigado por McKeon e Hallman (2024) num survey com mais de mil adultos. Os pesquisadores compararam as percepções sobre dois cereais da mesma marca, um comum e um com destaque de proteína na embalagem. O produto com o claim foi percebido como mais saudável e mais nutritivo, mesmo sem diferença real expressiva na composição. O dado mais revelador: quando as porções foram equalizadas, o produto com proteína tinha mais açúcar, sódio e calorias do que o original, mas cerca de metade dos participantes não percebeu nenhuma diferença nesses nutrientes. Os autores chamaram esse fenômeno de efeito halo: a presença de um claim positivo na embalagem cria uma percepção de saúde que se estende ao produto inteiro, independentemente do que a tabela nutricional mostra.
O que a evidência recomenda para quem usa agonistas de GLP-1/GIP
Em maio de 2025, quatro sociedades científicas, American College of Lifestyle Medicine, American Society for Nutrition, Obesity Medicine Association e The Obesity Society, publicaram um advisory conjunto coordenado por Mozaffarian et al. O documento sintetiza as prioridades nutricionais e de estilo de vida para o uso clínico de agonistas de GLP-1 e GIP, e parte de um reconhecimento direto: o uso de terapias nutricionais baseadas em evidência em associação com a farmacoterapia ainda não é disseminado na prática clínica. As prioridades incluem manejo dos efeitos adversos gastrointestinais, atenção às alterações de preferências e ingestão alimentar, prevenção de deficiências de nutrientes e preservação de massa muscular. O counseling por nutricionista é citado como estratégia de suporte essencial.
Os dados de Mogna-Peláez e Guasch-Ferré (2026) ajudam a entender por que isso importa. Usuários de agonistas de GLP-1 apresentam reduções de ingestão energética entre 16 e 39%, com um ensaio clínico de semaglutida oral documentando redução de 39% em relação ao placebo. Sem orientação estruturada, a ingestão proteica e de micronutrientes frequentemente fica abaixo do necessário: num estudo transversal com usuários de GLP-1, apenas 43% atingiram o limiar mínimo de 1,2 g/kg/dia de proteína, e a maioria não atingiu as referências dietéticas para vitamina D, potássio, magnésio e ferro. Numa análise retrospectiva com mais de 460.000 usuários, deficiências nutricionais foram documentadas em 12,7% aos 6 meses e em 22,4% aos 12 meses de tratamento.
As mesmas autoras observam que as respostas comerciais a esse cenário, incluindo refeições menores em restaurantes e produtos apresentados como adequados para usuários de GLP-1, raramente têm adequação nutricional baseada em evidências. O desafio central não é o tamanho da porção, mas a densidade de nutrientes: uma distinção frequentemente ignorada nas mensagens comerciais. É nesse espaço que os produtos GLP-1 support se posicionam.
Arslan (2026) sistematizou os alvos nutricionais propostos para essa população: proteína entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia, com distribuição por refeição e atenção ao teor de leucina; monitoramento laboratorial de vitamina D, B12, ferro, folato, zinco e tiamina em pacientes de risco; integração de exercício resistido progressivo. Um cuidado que parte de avaliação individual, não de fórmula padronizada.
A revisão sistemática de de Paulo et al. (2026), com 16 ensaios clínicos e 7.096 participantes, acrescenta uma ressalva necessária: a evidência sobre as necessidades nutricionais ótimas de usuários de GLP-1/GIP ainda é limitada. Quando havia intervenção de estilo de vida associada, a massa magra foi geralmente preservada. Mas nenhum ensaio avaliou abordagens nutricionais específicas de forma direta. Muito do que se recomenda ainda é extrapolado de outras populações.
O cuidado nutricional recomendado é individualizado e não se resume a um produto. Um suplemento de prateleira, por mais sofisticada que seja sua composição, não responde às perguntas que uma avaliação clínica precisa fazer.
O que o mercado não mostra
Dois elementos raramente aparecem nas embalagens ou nas páginas de venda.
O primeiro é o perfil dos produtos. Suplementos e alimentos funcionais direcionados a usuários de agonistas de GLP-1/GIP frequentemente apresentam características que os enquadrariam como ultraprocessados pela classificação NOVA, independentemente dos nutrientes que listam no rótulo. A umbrella review de Lane et al. (2024), publicada no BMJ com quase 10 milhões de participantes, encontrou evidência convincente de associação entre maior consumo de ultraprocessados e riscos elevados de mortalidade cardiovascular e diabetes tipo 2, entre outros desfechos. Nenhum estudo identificou associação benéfica. A presença de um claim proteico no rótulo não altera a classificação NOVA de um produto nem o perfil de associações que essa classificação carrega.
O segundo é o custo. A OMS, em sua primeira diretriz sobre o uso de agonistas de GLP-1 para tratamento da obesidade, publicada em dezembro de 2025, tornou sua recomendação condicional pelo alto custo das terapias e pelas implicações de equidade no acesso. Adicionar suplementos sem indicação individualizada a esse tratamento é clinicamente questionável e economicamente relevante. Quando se trata de uma família de produtos, cada item somado ao protocolo amplia esse custo de forma que raramente é dimensionada antes da compra.
O que esse cenário revela
A preocupação com nutrição durante o uso de agonistas de GLP-1 e GIP é real e tem respaldo científico. Reduções expressivas na ingestão alimentar, risco de inadequação proteica e de micronutrientes, e ausência de acompanhamento nutricional estruturado são problemas documentados e clinicamente relevantes. O mercado de GLP-1 support não inventou uma necessidade fictícia: ele identificou uma lacuna legítima e construiu sobre ela uma resposta que opera fora da regulação de rótulos, sem eficácia clínica demonstrada, com composições que frequentemente apresentam características de ultraprocessados, e com custo que se soma a um tratamento já economicamente excludente para muitos. Reconhecer a legitimidade da preocupação nutricional é diferente de validar a resposta que o mercado oferece para ela.
Aplicação clínica
A demanda por esses produtos tem uma origem rastreável: conteúdo de baixa qualidade nas redes sociais, efeito halo de embalagem e uma lacuna real de orientação nutricional que o mercado preencheu antes do sistema de saúde. Esse entendimento muda o ponto de entrada da conversa clínica. A pergunta não é sobre o produto que o paciente trouxe, é sobre o que ele está conseguindo comer desde que começou a usar a medicação. É dessa resposta que emerge o raciocínio clínico.
A conduta mais fundamentada diante de um produto GLP-1 support é redirecionar a atenção para o que a literatura sustenta: avaliação da ingestão alimentar atual, identificação de inadequações reais, manejo dos sintomas gastrointestinais que frequentemente determinam o quanto e o quê o paciente consegue comer, e suplementação com propósito clínico definido quando a alimentação não é suficiente. Essa sequência não depende de nenhum produto dessa categoria. Depende de avaliação.
Num cenário em que o custo da medicação já é uma barreira para muitos, nomear com clareza o que tem e o que não tem evidência também é cuidado. Não como confronto, mas como ancoragem num ambiente informacional que raramente oferece essa distinção.
Referências
Mogna-Peláez P, Guasch-Ferré M. Avoiding malnutrition in the era of GLP-1 medications: emerging evidence and opportunities for integrated nutrition care. J Nutr. 2026. doi:10.1016/j.tjnut.2026.101684
McKeon GP, Hallman WK. Front-of-Package Protein Labels on Cereal Create Health Halos. Foods. 2024;13(8):1139. doi:10.3390/foods13081139 | PMID: 38672812
Mozaffarian D, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: A joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. Obesity (Silver Spring). 2025;33(8):1475-1503. doi:10.1002/oby.24336 | PMID: 40445127
Arslan S. Medical nutrition in the glucagon-like peptide-1 (GLP-1) era: Protein strategies, micronutrient monitoring, and lean mass preservation. Clin Nutr ESPEN. 2026;73:103305. doi:10.1016/j.clnesp.2026.103305 | PMID: 42036071
de Paulo RS, et al. Dietary Strategies and Nutritional Management in Patients Receiving GLP-1 and Dual GIP/GLP-1 Receptor Agonists as Adjuncts to Lifestyle Interventions: A Systematic Review of Randomised Clinical Trials. Diabetes Obes Metab. 2026;28(7):5492-5507. doi:10.1111/dom.70779 | PMID: 42037117
Zeng M, et al. #WhatIEatinaDay: The Quality, Accuracy, and Engagement of Nutrition Content on TikTok. Nutrients. 2025;17(5):781. doi:10.3390/nu17050781 | PMID: 40077651
Campos-Rivera PA, et al. Quality of information and social norms in Spanish-speaking TikTok videos as levers of commercial practices: The case of semaglutide. Soc Sci Med. 2024;366:117646. doi:10.1016/j.socscimed.2024.117646 | PMID: 39827687
Lane MM, et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses. BMJ. 2024;384:e077310. doi:10.1136/bmj-2023-077310 | PMID: 38418082
World Health Organization. WHO issues global guideline on the use of GLP-1 medicines in treating obesity. Geneva: WHO; 2025. Disponível em: https://www.who.int/news/item/01-12-2025-who-issues-global-guideline-on-the-use-of-glp-1-medicines-in-treating-obesity










