Curadoria científica 9 – ICO 2026: da ciência à experiência de quem vive com obesidade

20/07/2026 17:53

Evento: International Congress on Obesity (ICO 2026), World Obesity Federation, Cidade do México, 15 a 17 de julho de 2026

Leitura estimada: 12 min

 

Um congresso que começou pelas pessoas

 

Antes da abertura oficial, o ICO 2026 já tinha começado. No dia 14 de julho, véspera do congresso, aconteceu a Obesity Lived Experience Global Summit, a Cúpula Global de Experiência Vivida em Obesidade, organizada pela World Obesity Federation com organizações de pacientes de vários países. O encontro reuniu pessoas que vivem com obesidade e teve um objetivo claro: dar a elas um espaço para trocar experiências, contar suas trajetórias e se preparar para atuar como vozes ativas na defesa de um cuidado melhor. Os temas passaram pela ciência da obesidade, pelo estigma e pela discriminação, pelo cuidado centrado na pessoa e pelo valor de contar a própria história. Começar por aí não foi um detalhe de agenda. Se a obesidade é uma doença crônica e complexa, quem convive com ela precisa participar das decisões sobre como pesquisar, tratar e explicar essa condição. As pessoas que vivem com obesidade são as únicas que podem falar dela por dentro, e o congresso escolheu ouvi-las primeiro.

O anfitrião do congresso foi o médico mexicano Simón Barquera, então presidente da World Obesity Federation, e foi durante o congresso que a presidência da entidade passou para o brasileiro Bruno Halpern, sobre quem falaremos no fim. O que definiu esta edição, porém, foi menos o lugar e mais uma mudança na forma de olhar a obesidade. Ela deixou de ser medida só pelo peso e passou a ser entendida pelas características de cada pessoa: onde a gordura se acumula, como o corpo responde, que outras doenças aparecem junto. A pergunta que atravessou o congresso não foi quanto emagrecer, e sim quem é esta pessoa e o que precisamos cuidar além da balança.

Uma observação sobre como ler o que vem a seguir. Um congresso mundial mostra tanto o que já está pronto para uso quanto o que ainda é caminho de pesquisa, e as duas coisas têm valor. Para deixar isso claro, sempre que possível dizemos o que já dá para levar para a consulta e o que ainda é cedo para incorporar. Onde um achado se apoia em estudos já publicados e revisados, tratamos como conhecimento firme. Onde ainda é resultado inicial, dizemos com franqueza, sem tirar o mérito de quem apresentou.

 

Onde a gordura se acumula diz mais do que o peso

 

O congresso reforçou uma ideia que muda a forma de avaliar um paciente: nem toda gordura age igual no corpo. A gordura que fica em volta dos órgãos, dentro do abdome, é mais ativa do que a gordura logo abaixo da pele. Ela libera ácidos graxos direto para o fígado e favorece a resistência à insulina, a inflamação e a doença gordurosa do fígado. Por isso, medir a circunferência da cintura e avaliar a composição do corpo diz mais sobre o risco de cada pessoa do que o número do IMC sozinho.

No mesmo caminho, foi bastante discutido um diagnóstico que costuma passar despercebido, o lipedema. É uma doença própria do tecido gorduroso, diferente da obesidade. Aparece quase só em mulheres, costuma começar na puberdade, na gravidez ou na menopausa, distribui gordura de forma desproporcional nas pernas e nos braços, causa dor ao toque e responde pouco à restrição de calorias. O recado para a consulta é de atenção ao diagnóstico. Nem todo excesso de gordura é obesidade, e insistir em emagrecer quando o caso é outro não ajuda a pessoa. Na prática, isso já dá para aplicar hoje. Avaliar a distribuição da gordura e reconhecer o lipedema dependem de atenção clínica, não de exames caros.

 

Cada pessoa responde de um jeito: genética e comportamento

 

Dois assuntos ajudaram a explicar por que pessoas parecidas respondem de formas tão diferentes ao tratamento.

O primeiro é a genética. A obesidade tem um componente hereditário forte, mas na maioria das pessoas ele não vem de um único gene, e sim de centenas de pequenas variações que, somadas, influenciam o peso. O ambiente continua sendo determinante. Existe também uma forma rara, causada por um só gene, que começa cedo, é mais grave e tem tratamento próprio. Para a consulta, isso ajuda a ajustar as expectativas e a conversar com a pessoa sem culpa: a genética predispõe, mas não decide sozinha o resultado.

O segundo é o comportamento alimentar. Uma forma de classificar a obesidade por padrões de comportamento, descrita em estudos já publicados, ajuda a entender essas diferenças. Há quem sinta uma fome que vem do cérebro, com dificuldade de se sentir satisfeito. Há quem coma por emoção, em resposta ao estresse ou à tristeza. Há quem tenha uma fome ligada ao intestino, com a saciedade após a refeição durando pouco. E há quem tenha o metabolismo mais lento, gastando menos energia em repouso. Nesses estudos, a maioria das pessoas, cerca de 85%, se encaixava em pelo menos um desses padrões, e cerca de um quarto em mais de um. A ideia é escolher o tratamento de acordo com o padrão que predomina.

Vale uma observação tranquila sobre esses padrões. A ideia de combinar o tratamento com o padrão de comportamento é promissora e conversa direto com o trabalho de quem cuida da alimentação, mas a evidência mais forte ainda vem de um único centro de pesquisa. É um caminho que os próximos estudos vão confirmar melhor. Já dá para usar como forma de entender a pessoa à frente, sem transformar os padrões em regra fechada.

Ainda no comportamento alimentar, um dos temas de maior interesse no congresso foi o food noise, ou barulho mental relacionado à comida. A sessão sobre o assunto ficou lotada, com fila do lado de fora. O termo descreve os pensamentos frequentes e persistentes sobre comida, que ocupam boa parte do dia e tornam o tratamento mais difícil, uma experiência que muitas pessoas que vivem com obesidade relatam. As pesquisas mais recentes investigam como os novos medicamentos para obesidade atuam sobre esse mecanismo, reduzindo o barulho em parte dos pacientes. A procura pela sessão mostra o quanto entender os mecanismos biológicos da obesidade continua sendo uma prioridade da ciência. E, na prática, tanto o trabalho sobre o comportamento alimentar quanto a medicação ajudam a reduzir esse barulho, o que aproxima o cuidado nutricional do tratamento com medicação.

 

Medicamentos que cuidam de mais do que o peso

 

Talvez a mensagem mais forte do congresso tenha sido esta: os medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, os mesmos usados para emagrecer, mostraram benefícios que vão bem além da balança.

Em pessoas com obesidade e doenças cardiovasculares, a semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos como infarto e AVC, no estudo SELECT. Na insuficiência cardíaca, houve melhora dos sintomas e da capacidade de fazer esforço. Nos rins, a semaglutida reduziu em 24% a piora da função renal em quem tem diabetes tipo 2 e doença renal, no estudo FLOW. Na apneia do sono, a tirzepatida diminuiu pela metade a gravidade dos episódios em pessoas com apneia e obesidade. No fígado, a semaglutida melhorou a forma mais avançada da doença gordurosa, com resolução da inflamação do fígado, a esteato-hepatite, em cerca de dois terços dos pacientes no estudo ESSENCE. E, em pessoas com pré-diabetes, a tirzepatida reduziu em 93% a passagem para o diabetes tipo 2.

Uma pergunta natural é se todo esse benefício vem só da perda de peso. Aparentemente, não só. No próprio SELECT, apenas cerca de um terço do benefício no coração foi explicado pela redução da cintura, e o restante parece ter outra origem. Uma das explicações estudadas é a inflamação. Uma análise que reuniu vários estudos mostrou que esses medicamentos reduzem quase à metade um marcador de inflamação no sangue, a proteína C reativa, e essa queda acontece mesmo quando se leva em conta o peso perdido. Ainda é uma linha em investigação. Há também efeitos bem mais iniciais sendo estudados, como possíveis ações no cérebro e no comportamento, que por enquanto são hipóteses, e foi com essa clareza que apareceram no congresso.

Para a consulta, o que já dá para aplicar é bastante. Escolher o medicamento pensando também no coração, no rim, no fígado, na apneia e no risco de diabetes, e não apenas no quanto a pessoa vai emagrecer, já é conduta apoiada em estudos sólidos. O que ainda é cedo é atribuir a esses medicamentos usos que a pesquisa está apenas começando a testar.

 

Novos medicamentos chegando, e mais opções para cada pessoa

 

O congresso também mostrou uma geração de medicamentos em desenvolvimento, que combina diferentes formas de agir no corpo. Alguns são por via oral, como o orforglipron e a versão em comprimido da semaglutida, que em estudo alcançou cerca de 16% de perda de peso entre quem seguiu o tratamento, chegando perto do resultado da injeção. Outros combinam dois ou três alvos ao mesmo tempo, como a retatrutida e a survodutida. Há os que agem por outro caminho, o da amilina, e um que interessa de perto a quem cuida da alimentação: um medicamento voltado a preservar a massa muscular durante o emagrecimento. Para as formas raras de obesidade causadas por um único gene, existe um tratamento específico, a setmelanotida.

Alguns desses resultados são recentes, como os do programa de estudos da survodutida, que mostrou perda de peso próxima de 16% em pouco mais de um ano.

Duas observações ajudam a usar bem essa informação. A primeira é que boa parte desses dados vem de estudos ainda em fase de teste, muitos patrocinados pelas próprias fabricantes, o que não invalida os resultados, mas pede leitura atenta. A segunda é sobre o número da semaglutida em comprimido: os cerca de 16% valem para quem seguiu o tratamento como recomendado. Considerando todos os participantes, incluindo quem interrompeu, o valor médio fica um pouco menor, perto de 14%, e o grupo estudado ainda foi pouco diverso. Ter mais opções é bom porque permite escolher melhor para cada pessoa, e é aí que está o ganho real. Na prática, algumas dessas opções já estão chegando ao consultório, e outras ainda vão levar tempo até a aprovação e o uso de rotina.

 

Recuperar peso não é fracassar

 

A manutenção do peso perdido e o sucesso do tratamento a longo prazo foi outro tema bastante abordado no congresso. Pelo menos duas palestras tiveram o tema da manutenção do peso perdido como foco central. O palestrante Dr. Bruno Halpern deixou claro que o sucesso do tratamento da obesidade não deve ser medido apenas pela perda de peso, mas sim pela manutenção do peso. O reganho de peso é uma resposta biológica esperada após a suspensão do tratamento medicamentoso, ainda mais após a utilização de medicações para tratamento da obesidade de alta potência. Prática de atividade física, perseverança no tratamento e automonitoramento são características em comum de pessoas que conseguem manter o peso perdido.

A mensagem foi clara: recuperar peso faz parte do curso de uma doença crônica e não significa que a pessoa falhou. Quando alguém com obesidade perde peso de propósito e depois recupera, esse peso recuperado costuma ter a mesma composição do que foi perdido, incluindo músculo. E, junto com o peso, podem voltar alterações no coração e no metabolismo. As palestras reconheceram que ainda faltam estudos bem conduzidos sobre os efeitos de perder e recuperar peso várias vezes.

O caminho proposto foi de acolhimento: entender o tratamento como um processo que tem idas e vindas, manter o acompanhamento ao longo do tempo e olhar para a saúde como um todo, não só para o número na balança. Para a consulta, isso já se aplica hoje, e talvez seja a parte mais importante de tudo: sustentar o vínculo e o cuidado contínuo, sem culpar a pessoa pelo reganho.

 

Ciência que olha para a população

 

Além do cuidado individual, o congresso trouxe estudos sobre o que acontece no conjunto da população.

Um dos assuntos mais comentados foi a relação entre alimentos ultraprocessados e mortes doenças cardiovasculares. Pesquisadores do Canadá usaram dados de consumo alimentar da população para calcular quantas dessas mortes teriam ligação com esses alimentos. O número que encontraram é alto, e ajuda a entender o quanto a alimentação influencia a saúde do coração. Também serve de argumento para políticas como a dos rótulos de advertência. Como é um cálculo feito a partir do que as pessoas relatam comer, e não um experimento controlado, ainda fica em aberto quanto do risco vem de cada tipo de alimento. Na consulta, a orientação já é firme: vale reduzir bebidas açucaradas e carnes processadas.

Sobre políticas, o congresso destacou o exemplo do Chile. Depois da lei que colocou rótulos de advertência nos alimentos, restringiu a venda em escolas e limitou a publicidade, um estudo grande mostrou redução na obesidade infantil, tanto em meninas quanto em meninos. É uma das primeiras vezes que se consegue ligar uma política nacional de alimentação a uma queda mensurável na obesidade das crianças.

Houve também uma reflexão mais ampla, apresentada por Boyd Swinburn, sobre por que a obesidade se tornou tão comum. A ideia é que ela nasce do encontro entre um sistema que produz alimentos fáceis de consumir em excesso e um corpo que, pela sua história ao longo da evolução, tende a guardar energia. Nenhum dos dois está com defeito, e é justamente do encontro dos dois que vem o problema.

Dois outros assuntos apareceram e valem registro. Um estudo sobre buscas na internet mostrou que o interesse por medicamentos para emagrecer cresceu muitas vezes nos últimos anos, enquanto o interesse por mudanças no estilo de vida ficou parado, o que chama atenção para a forma como a comunicação em saúde vem acontecendo. E houve uma palestra sobre inteligência artificial na obesidade, com seus avanços e seus cuidados.

 

Como levar isso para o consultório

 

Reunindo tudo, dá para separar com tranquilidade o que já vale para o dia a dia e o que ainda está a caminho. E vale dizer desde já: quase nada disso é tarefa de uma profissão só. O cuidado da obesidade hoje é trabalho de equipe multiprofissional.

Já dá para aplicar hoje:

  • Avaliar onde a gordura se acumula e a composição do corpo, e não só o peso.
  • Reconhecer o lipedema quando o caso não se comporta como obesidade.
  • Quando há medicamento no tratamento, acompanhar de perto a alimentação: garantir proteína suficiente e estímulo à força muscular para proteger a massa magra durante o emagrecimento, ajustar a dieta à menor fome e às queixas digestivas comuns no início, e cuidar dos micronutrientes.
  • Trabalhar o comportamento alimentar e o food noise junto com a pessoa, algo que a orientação nutricional organiza tanto quanto a medicação. Considerar a história de cada um ao montar o plano.
  • Tratar o reganho de peso como parte do cuidado de uma doença crônica, mantendo o vínculo e o acompanhamento.
  • E, para quem prescreve, escolher o medicamento pensando também nas doenças que acompanham a obesidade, como as do coração, dos rins, do fígado e a apneia, porque esse benefício está bem demonstrado.

Ainda é cedo para incorporar como rotina:

  • Usar medicamentos com base em efeitos que a pesquisa está começando a estudar, como as possíveis ações no cérebro.
  • Decidir a conduta apenas pelo padrão de comportamento, que é uma ideia promissora mas ainda em construção.
  • E contar com os medicamentos mais novos que seguem em fase de teste e vão levar tempo até o uso comum.

Há ainda uma base que atravessa tudo. Por mais que os medicamentos tenham avançado, o trabalho sobre a alimentação, o comportamento e o ambiente em que a pessoa vive não perdeu espaço. Com o emagrecimento mais rápido, cuidar da qualidade da alimentação, da massa muscular e da relação da pessoa com a comida ficou ainda mais necessário. É aí que o acompanhamento nutricional se mostra insubstituível.

 

Tratar a doença e cuidar da pessoa

 

Num dos espaços mais marcantes do congresso, participantes de vários países foram convidados a escrever mensagens sobre a própria experiência com a obesidade. De longe, parecia um mural coberto de flores. De perto, cada flor trazia uma história. Muitas falavam de estigma, da dificuldade de encontrar profissionais preparados, de barreiras para conseguir tratamento e de perguntas que, em vez de acolher, reforçavam a culpa. As mensagens estavam em idiomas diferentes, mas diziam a mesma coisa: em qualquer país, muitas pessoas que vivem com obesidade ainda não se sentem compreendidas nem acolhidas quando procuram ajuda.

O mural lembra algo simples e importante. Tratar a obesidade é mais do que indicar um tratamento. É reconhecer a experiência de cada pessoa, ouvir a sua história e oferecer um cuidado sem julgamento. Foi essa a mensagem que ligou as três dimensões do congresso, a ciência, a clínica e a saúde pública: levar a obesidade a sério como a doença crônica que ela é, e tratar quem convive com ela com respeito, escuta e dignidade.

 

Uma nova liderança 

 

Por fim, uma novidade que não veio de um estudo, mas que importa para o futuro do campo. Durante o ICO 2026, a presidência da World Obesity Federation passou para o brasileiro Bruno Halpern, médico endocrinologista e vice-presidente da ABESO, sucedendo Simón Barquera. Halpern já vinha trabalhando junto à entidade e assume agora à frente dela, o que coloca um brasileiro na liderança da principal organização do mundo dedicada à obesidade.

Ao assumir, ele apresentou seis prioridades para o seu trabalho:

  1. Transformar a educação sobre obesidade, apontada como um dos principais caminhos para a mudança.
  2. Promover a cobertura universal de saúde, com segurança, equidade e cuidado baseado em evidência para todos que procurarem ajuda.
  3. Superar a falsa separação entre prevenção e tratamento, que não competem entre si e fazem parte de uma mesma estratégia.
  4. Fortalecer equipes com formações diferentes, incluindo as próprias pessoas que vivem com obesidade.
  5. Incentivar a ciência e as parcerias entre países, reconhecendo que nações de baixa e média renda têm muito a contribuir.
  6. Modernizar a comunicação, tornando o conhecimento sobre obesidade mais acessível e conectado.

Duas dessas prioridades, a educação e a comunicação, são exatamente o que move um projeto de divulgação científica como este. Terminar a curadoria por elas é também uma forma de reconhecer o trabalho de quem passa a conduzir esse campo, e de dizer que estamos junto nesse esforço.

 

Referências

  1. Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al.; SELECT Trial Investigators. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. N Engl J Med. 2023;389(24):2221-2232. doi:10.1056/NEJMoa2307563.
  2. Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al.; FLOW Trial Committees and Investigators. Effects of semaglutide on chronic kidney disease in patients with type 2 diabetes. N Engl J Med. 2024;391(2):109-121. doi:10.1056/NEJMoa2403347.
  3. Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al.; SURMOUNT-OSA Investigators. Tirzepatide for the treatment of obstructive sleep apnea and obesity. N Engl J Med. 2024;391(13):1193-1205. doi:10.1056/NEJMoa2404881.
  4. Sanyal AJ, Newsome PN, Kliers I, et al.; ESSENCE Study Group. Phase 3 trial of semaglutide in metabolic dysfunction-associated steatohepatitis. N Engl J Med. 2025;392(21):2089-2099. doi:10.1056/NEJMoa2413258.
  5. Wharton S, et al.; OASIS 4. Oral semaglutide 25 mg in adults with overweight or obesity. N Engl J Med. 2025;393(11):1077-1087. doi:10.1056/NEJMoa2500969.
  6. Programa SYNCHRONIZE (survodutida, fase 3). Apresentado no ICO 2026 (aguardando publicação).
  7. Acosta A, Camilleri M, Abu Dayyeh B, et al. Selection of antiobesity medications based on phenotypes enhances weight loss: a pragmatic trial in an obesity clinic. Obesity (Silver Spring). 2021;29(4):662-671. doi:10.1002/oby.23120.
  8. Loos RJF, Yeo GSH. The genetics of obesity: from discovery to biology. Nat Rev Genet. 2022;23(2):120-133.
  9. Nielsen S, Guo Z, Johnson CM, Hensrud DD, Jensen MD. Splanchnic lipolysis in human obesity. J Clin Invest. 2004;113(11):1582-1588.
  10. Metanálise sobre GLP-1 e proteína C reativa em adultos sem diabetes. Apresentada no ICO 2026 (aguardando publicação).
  11. Hamel V, Moubarac JC, et al. Carga de doença cardiovascular atribuível ao consumo de ultraprocessados no Canadá. Am J Prev Med. 2026. PMID:41966464.
  12. Paraje G, Valdés N, Vega Macaya A, Corvalán C, Popkin B. The impact of Chile’s multipronged food labelling and advertising law on early childhood excess weight: a cohort difference-in-differences study. Lancet. 2026;407(10548):2630-2640. doi:10.1016/S0140-6736(26)00651-3.

 

Curadoria científica 8: O Silêncio de uma Nova Era: A Ascensão e os Questionamentos do Food Noise

07/07/2026 17:01

Edição especial: trajetória de um construto, não análise de artigo único
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Leitura estimada: 8 min

Curadoria feita por: Ana Paula Gines Geraldo. Nutricionista. Professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina.

Por que este tema agora

Desde 2023, pacientes em uso de semaglutida começaram a relatar, em consultório e nas redes sociais, o desaparecimento de uma preocupação constante com comida, que passaram a chamar de “food noise“. A partir desse relato, formou-se em apenas três anos um campo inteiro: uma primeira definição científica proposta por Hayashi e colaboradores, outras definições que ampliaram o que já havia sido construído, dois questionários financiados por empresas do mercado de emagrecimento, um estudo de análise de conteúdo do TikTok, um caso clínico com eletrodo implantado no cérebro, e, em 2026, um comentário na revista científica Appetite assinado por Brewis, Hayashi e colaboradores, que aponta as incertezas ainda em aberto sobre esse construto. Chama atenção que Daisuke Hayashi, primeiro autor da definição científica original de 2023, seja também coautor desse comentário.

Esta edição segue o fio dessa história, do relato espontâneo do paciente até os instrumentos comerciais que hoje se propõem a medi-lo, para deixar claro o que a evidência sustenta e o que ainda não sustenta sobre “ruído alimentar” na prática clínica.

O que está sendo questionado, e o que não está

Antes de entrar na linha do tempo, uma distinção que os próprios autores do comentário, Brewis, Hayashi e colaboradores, fazem questão de deixar explícita, e que vale repetir aqui com a mesma clareza: a experiência relatada pelo paciente não é o que está em discussão. Eles afirmam, no próprio texto, que essas incertezas não invalidam o fenômeno do ruído alimentar como potencialmente significativo, e reconhecem que nomear essa experiência pode reformular o que antes era vivido como falta de força de vontade em algo reconhecido como uma questão biológica comum. Para quem convive com obesidade e, só depois de “ruído alimentar” circular, encontrou palavra para descrever um pensamento constante sobre comida que sempre esteve lá, isso tem valor real e não é isso que o comentário questiona.

O que está sendo questionado é outra coisa, com três frentes específicas: se esse relato configura um fenômeno cientificamente distinto de constructos já estudados há décadas (craving, preocupação alimentar, reatividade a pistas alimentares) ou se é a mesma coisa com nome novo; como os dois questionários disponíveis foram construídos e por quem foram financiados; e a ausência de critério para separar níveis normais de níveis considerados patológicos, o que importa diretamente para decisões de prescrição. Nomear a própria experiência e dispor de um instrumento validado com financiamento são duas coisas diferentes, e esta edição trata delas separadamente.

2023: a primeira definição científica do termo

O termo “food noise” não nasceu na ciência. Reportagens do New York Times, da Healthline e do Public Broadcasting Service (PBS), publicadas ao longo de 2023, já documentavam pacientes em uso de semaglutida descrevendo o desaparecimento de uma voz constante sobre comida na cabeça. Hayashi, Masterson e colegas, do laboratório de comportamento alimentar da Penn State, publicaram uma revisão narrativa propondo a primeira definição formal: “manifestações intensificadas e/ou persistentes de reatividade a pistas alimentares, frequentemente levando a pensamentos intrusivos sobre comida e comportamentos alimentares desadaptativos” (Hayashi et al., 2023).

Essa definição se apoia no modelo CIRO (Cue-Influencer-Reactivity-Outcome), que trata o ruído alimentar como consequência de um fenômeno já conhecido há décadas na literatura de comportamento alimentar, a reatividade a pistas alimentares, modulada por fatores constantes (genética, traços apetitivos) e transitórios (sono, estresse, hormônios reguladores do apetite, incluindo o próprio GLP-1). Em outras palavras: o trabalho de 2023 não descobriu um fenômeno novo por experimento, ele emprestou teoria já validada para dar nome científico a um relato que pacientes e jornalistas já vinham descrevendo.

Essa definição inicial não se manteve isolada. Nos dois anos seguintes, outros dois grupos publicaram definições próprias. Diktas et al. (2025) definiram o fenômeno como “pensamentos persistentes e intrusivos sobre comida que são disruptivos para a vida diária e dificultam comportamentos saudáveis”. Dhurandhar et al. (2025) o conceituaram como “pensamentos persistentes sobre comida que são percebidos pelo indivíduo como indesejados e/ou disfóricos e que podem causar danos ao indivíduo, incluindo problemas sociais, mentais ou físicos”, deslocando o eixo da reatividade a pistas para a experiência emocional negativa.

As três definições compartilham o núcleo de pensamentos persistentes e intrusivos, mas divergem nos pontos: se o fenômeno depende ou não de estímulos alimentares externos, e se o traço definidor é a reatividade, o sofrimento emocional ou a disrupção funcional. Três definições, publicadas em menos de dois anos, para um mesmo termo.

2025-2026: dois questionários, duas empresas

Com o termo em ascensão, duas equipes desenvolveram, de forma praticamente simultânea, os dois únicos instrumentos validados para medir ruído alimentar.

  • O FNQ (Food Noise Questionnaire), publicado por Diktas, Cardel, Foster e Martin na Obesity (2025), é uma escala de 5 itens, financiada pela WW International (Weight Watchers). Ambos os instrumentos apresentam boa consistência interna e confiabilidade. No FNQ, mulheres pontuaram mais que homens, pessoas em dieta pontuaram mais que as demais, e o escore aumentou com o IMC.
  • O RAID-FN (Ro Allison Indiana Dhurandhar Food Noise Inventory), com a definição conceitual publicada por Dhurandhar, Allison e colegas na Nutrition & Diabetes (2025) e a validação psicométrica na Revista Appetite (2026), foi financiado pela Ro, empresa de telessaúde que vende GLP-1 por prescrição online. O instrumento validado tem 7 itens organizados em três fatores (preocupação, persistência, disforia); um conjunto maior de 23 itens fica disponível para estudos mais mecanísticos. Ao contrário do FNQ, nenhuma diferença significativa foi encontrada por sexo, idade, raça, escolaridade, renda ou IMC.

Dois instrumentos que afirmam medir o mesmo construto, financiados por empresas concorrentes no mercado de emagrecimento, chegam a perfis diferentes de quem pontua alto em ruído alimentar. Além disso, ambos mostram correlação forte com escalas de craving e preocupação alimentar já validadas há mais de dez anos: o FNQ correlaciona 0,87 com a subescala de preocupação do Food Cravings Questionnaire-Trait; o RAID-FN correlaciona 0,79 com o escore geral desse mesmo questionário e 0,68 com responsividade a pistas alimentares. Correlações dessa magnitude não provam que os instrumentos meçam a mesma coisa, mas cabe perguntar o que exatamente esses questionários capturam que os anteriores não capturavam. Os autores dos instrumentos argumentam, por sua vez, que dispor de uma medida padronizada é um avanço sobre não ter nenhuma, e que a validação psicométrica de ambos seguiu procedimentos reconhecidos.

O uso do termo nas redes sociais, antes de qualquer instrumento validado

Enquanto os questionários eram desenvolvidos, a população em geral já havia se apropriado do termo. Uma análise de conteúdo dos 99 vídeos mais vistos no TikTok sob a hashtag #FoodNoise (Hayashi et al., 2026) encontrou 70,7% de depoimentos de pacientes, não de profissionais de saúde (apenas 22,2% dos criadores eram profissionais de saúde); 85,9% descrevendo o ruído alimentar de forma negativa; 49,5% mencionando medicamentos, majoritariamente GLP-1; e apenas 5,1% citando literatura científica. Entre os vídeos que mencionaram medicamento, a atitude foi positiva em 75,5%. As categorias de alimento mais associadas ao “ruído” foram doces, sobremesas e fast food, o que os autores relacionam ao conceito já descrito na literatura de “alimentos-problema”.

Este dado é relevante clinicamente: o conceito estava circulando, sendo definido e redefinido pelas pessoas, antes que qualquer instrumento validado existisse. Isso não invalida a experiência relatada pelos pacientes, mas mostra que o termo se difundiu no debate público antes de existir instrumento validado para medi-lo.

Um primeiro dado biológico, ainda em um único caso (N=1)

Em 2025, um estudo publicado na Nature Medicine trouxe o primeiro dado neurofisiológico direto ligando o fenômeno a um substrato biológico. Em uma paciente com eletrodo cerebral implantado para tratar compulsão alimentar, o início da tirzepatida foi acompanhado do desaparecimento da compulsão e de um silêncio elétrico marcante na região registrada. Meses depois, ainda com a paciente medicada, o padrão elétrico e a compulsão retornaram, o que sugere possível tolerância ao efeito do fármaco sobre esse mecanismo. É um achado isolado, de uma única paciente e sem replicação, mas indica que a investigação sobre as bases biológicas do fenômeno está começando.

2026: o comentário crítico publicado na Appetite

Em 2026, Brewis, Hayashi e colaboradores publicaram na Revista Appetite um comentário que reúne as principais incertezas do campo. Vale notar: Daisuke Hayashi, primeiro autor da definição científica original de 2023, é também coautor deste comentário. Ou seja, parte de quem ajudou a construir o construto assina agora o pedido de cautela no seu uso. O comentário conta ainda com outros pesquisadores brasileiros, da Universidade de São Paulo, entre os autores.

O comentário organiza as incertezas em torno de alguns pontos. No plano teórico, as definições publicadas divergem entre si, sobretudo quanto a se o ruído alimentar depende de reatividade a pistas alimentares ou se ocorre de forma espontânea. No plano metodológico, tanto o FNQ quanto o RAID-FN foram construídos a partir de observação informal de mídia e opinião de especialistas, sem etapa qualitativa prévia robusta junto a pacientes, e ambos mostram sobreposição semântica, item a item, com escalas já existentes de craving, preocupação alimentar e adição alimentar. No plano clínico, não existe critério baseado em evidência para separar “muito pensamento sobre comida” normal de nível patológico, o que é especialmente delicado em decisões de prescrição. E há a questão da heterogeneidade: os instrumentos foram validados em amostras online dos EUA, assumindo uma experiência cognitiva uniforme que ignora estigma de peso, histórico de restrição alimentar e variação cultural. Os autores citam, inclusive, o termo brasileiro informal “cabeça de gordo” como tradução popular mais estigmatizante que “ruído alimentar”.

O comentário não nega que a experiência relatada pelos pacientes seja real. Defende que, na ausência de resolução teórica e metodológica, o uso clínico deve ser feito com muita cautela.

A chegada ao Brasil

Em junho de 2026, no congresso Brain, em Porto Alegre, pesquisadores da PUCRS, em colaboração direta com os autores do RAID-FN, apresentaram o protocolo de adaptação transcultural do instrumento para o português brasileiro. O estudo, submetido ao CEP da PUCRS e ainda sem dados coletados até o momento desta publicação, planeja avaliar a nova versão com Análise Fatorial Confirmatória e correlação com instrumentos já estabelecidos, como o GAD-7 e o TFEQ-21. A colaboração direta com os autores originais mostra que a expansão internacional do instrumento caminha lado a lado com o próprio time que o criou, e chegou ao Brasil em paralelo ao debate teórico levantado pela Brewis, ainda em curso na literatura internacional.

O que isso significa para o uso no Brasil

 

  • Um limite atravessa os dois instrumentos: as amostras de validação, online e de painéis comerciais dos EUA, não incluem população brasileira, nem contextos de insegurança alimentar, nem pessoas com transtornos alimentares restritivos. Isso restringe diretamente a extrapolação para a prática clínica no Brasil. Os próprios autores do FNQ e do RAID-FN reconhecem, nas respectivas discussões, a necessidade de validação adicional em contextos clínicos e a incerteza sobre o corte de significância clínica.
  • Conflito de interesse e comercialização: No FNQ, o vínculo com a WW International está declarado no próprio artigo: parte dos autores é composta por funcionários ou acionistas da empresa, que também financiou o estudo. No RAID-FN, o financiamento pela Ro está declarado nos agradecimentos, e o instrumento é hoje disponibilizado pela própria Ro, que o oferece, em sua página institucional, para uso em atendimento clínico, em pesquisa e em ensaios clínicos da indústria farmacêutica. Nada disso invalida os achados, mas é uma informação que deve ser considerada na leitura de qualquer recomendação clínica que emerja dessa literatura ainda em construção.

O que fazer na prática clínica?

 

Antes de medir, entender. O primeiro movimento diante de um paciente que relata pensar em comida o tempo todo não é aplicar um questionário, é distinguir o que ele está descrevendo: fome fisiológica e planejamento normal de refeições, ou um pensamento que persiste mesmo sem fome, sem pista alimentar por perto e sem intenção de comer. Essa diferença orienta a conduta muito mais do que qualquer escore.

O relato é legítimo, tenha ou não nome. Pensamento intrusivo e persistente sobre comida é sustentado pela literatura de reatividade a pistas alimentares há décadas. Nomear essa experiência pode ter valor real para quem nunca teve palavra para descrevê-la, e isso independe do debate sobre os instrumentos.

O escore complementa a escuta, não decide sozinho. Financiamento comercial direto, validade de construto ainda não estabelecida de forma independente e o fato de os próprios autores do RAID-FN mostrarem que o escore pode ser inflado por quem responde são razões para que um número desses nunca substitua a entrevista clínica. Quando a mensuração for necessária, escalas já consolidadas de preocupação alimentar e craving, como a subescala de preocupação do Food Cravings Questionnaire-Trait, oferecem base mais robusta neste momento.

Atenção redobrada em transtornos restritivos. Em quem tem ou está se recuperando de um quadro alimentar restritivo, ainda não se sabe o que significa uma redução no “ruído alimentar”: pode ser melhora, mas pode ser restrição se mascarando de alívio. Essa dúvida sozinha já justifica cautela antes de comemorar o silêncio.

Alívio com GLP-1 pede acompanhamento no tempo. Vale registrar o relato e monitorar se o efeito se sustenta, porque o caso do eletrodo mostrou que ele pode não durar: o sinal e a fissura voltaram mesmo com a paciente ainda medicada.

 Referências

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  8. Lopes da Silva T, Jimenez-Garcia JA, Dhurandhar E, Allison D, Feoli AMP. Food noise no contexto brasileiro: protocolo de adaptação transcultural do RAID-FN Inventory. Congresso Brain, Porto Alegre, jun. 2026 (resumo de congresso, protocolo em andamento).