Curadoria científica 9 – ICO 2026: da ciência à experiência de quem vive com obesidade
Evento: International Congress on Obesity (ICO 2026), World Obesity Federation, Cidade do México, 15 a 17 de julho de 2026
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Um congresso que começou pelas pessoas
Antes da abertura oficial, o ICO 2026 já tinha começado. No dia 14 de julho, véspera do congresso, aconteceu a Obesity Lived Experience Global Summit, a Cúpula Global de Experiência Vivida em Obesidade, organizada pela World Obesity Federation com organizações de pacientes de vários países. O encontro reuniu pessoas que vivem com obesidade e teve um objetivo claro: dar a elas um espaço para trocar experiências, contar suas trajetórias e se preparar para atuar como vozes ativas na defesa de um cuidado melhor. Os temas passaram pela ciência da obesidade, pelo estigma e pela discriminação, pelo cuidado centrado na pessoa e pelo valor de contar a própria história. Começar por aí não foi um detalhe de agenda. Se a obesidade é uma doença crônica e complexa, quem convive com ela precisa participar das decisões sobre como pesquisar, tratar e explicar essa condição. As pessoas que vivem com obesidade são as únicas que podem falar dela por dentro, e o congresso escolheu ouvi-las primeiro.
O anfitrião do congresso foi o médico mexicano Simón Barquera, então presidente da World Obesity Federation, e foi durante o congresso que a presidência da entidade passou para o brasileiro Bruno Halpern, sobre quem falaremos no fim. O que definiu esta edição, porém, foi menos o lugar e mais uma mudança na forma de olhar a obesidade. Ela deixou de ser medida só pelo peso e passou a ser entendida pelas características de cada pessoa: onde a gordura se acumula, como o corpo responde, que outras doenças aparecem junto. A pergunta que atravessou o congresso não foi quanto emagrecer, e sim quem é esta pessoa e o que precisamos cuidar além da balança.
Uma observação sobre como ler o que vem a seguir. Um congresso mundial mostra tanto o que já está pronto para uso quanto o que ainda é caminho de pesquisa, e as duas coisas têm valor. Para deixar isso claro, sempre que possível dizemos o que já dá para levar para a consulta e o que ainda é cedo para incorporar. Onde um achado se apoia em estudos já publicados e revisados, tratamos como conhecimento firme. Onde ainda é resultado inicial, dizemos com franqueza, sem tirar o mérito de quem apresentou.
Onde a gordura se acumula diz mais do que o peso
O congresso reforçou uma ideia que muda a forma de avaliar um paciente: nem toda gordura age igual no corpo. A gordura que fica em volta dos órgãos, dentro do abdome, é mais ativa do que a gordura logo abaixo da pele. Ela libera ácidos graxos direto para o fígado e favorece a resistência à insulina, a inflamação e a doença gordurosa do fígado. Por isso, medir a circunferência da cintura e avaliar a composição do corpo diz mais sobre o risco de cada pessoa do que o número do IMC sozinho.
No mesmo caminho, foi bastante discutido um diagnóstico que costuma passar despercebido, o lipedema. É uma doença própria do tecido gorduroso, diferente da obesidade. Aparece quase só em mulheres, costuma começar na puberdade, na gravidez ou na menopausa, distribui gordura de forma desproporcional nas pernas e nos braços, causa dor ao toque e responde pouco à restrição de calorias. O recado para a consulta é de atenção ao diagnóstico. Nem todo excesso de gordura é obesidade, e insistir em emagrecer quando o caso é outro não ajuda a pessoa. Na prática, isso já dá para aplicar hoje. Avaliar a distribuição da gordura e reconhecer o lipedema dependem de atenção clínica, não de exames caros.
Cada pessoa responde de um jeito: genética e comportamento
Dois assuntos ajudaram a explicar por que pessoas parecidas respondem de formas tão diferentes ao tratamento.
O primeiro é a genética. A obesidade tem um componente hereditário forte, mas na maioria das pessoas ele não vem de um único gene, e sim de centenas de pequenas variações que, somadas, influenciam o peso. O ambiente continua sendo determinante. Existe também uma forma rara, causada por um só gene, que começa cedo, é mais grave e tem tratamento próprio. Para a consulta, isso ajuda a ajustar as expectativas e a conversar com a pessoa sem culpa: a genética predispõe, mas não decide sozinha o resultado.
O segundo é o comportamento alimentar. Uma forma de classificar a obesidade por padrões de comportamento, descrita em estudos já publicados, ajuda a entender essas diferenças. Há quem sinta uma fome que vem do cérebro, com dificuldade de se sentir satisfeito. Há quem coma por emoção, em resposta ao estresse ou à tristeza. Há quem tenha uma fome ligada ao intestino, com a saciedade após a refeição durando pouco. E há quem tenha o metabolismo mais lento, gastando menos energia em repouso. Nesses estudos, a maioria das pessoas, cerca de 85%, se encaixava em pelo menos um desses padrões, e cerca de um quarto em mais de um. A ideia é escolher o tratamento de acordo com o padrão que predomina.
Vale uma observação tranquila sobre esses padrões. A ideia de combinar o tratamento com o padrão de comportamento é promissora e conversa direto com o trabalho de quem cuida da alimentação, mas a evidência mais forte ainda vem de um único centro de pesquisa. É um caminho que os próximos estudos vão confirmar melhor. Já dá para usar como forma de entender a pessoa à frente, sem transformar os padrões em regra fechada.
Ainda no comportamento alimentar, um dos temas de maior interesse no congresso foi o food noise, ou barulho mental relacionado à comida. A sessão sobre o assunto ficou lotada, com fila do lado de fora. O termo descreve os pensamentos frequentes e persistentes sobre comida, que ocupam boa parte do dia e tornam o tratamento mais difícil, uma experiência que muitas pessoas que vivem com obesidade relatam. As pesquisas mais recentes investigam como os novos medicamentos para obesidade atuam sobre esse mecanismo, reduzindo o barulho em parte dos pacientes. A procura pela sessão mostra o quanto entender os mecanismos biológicos da obesidade continua sendo uma prioridade da ciência. E, na prática, tanto o trabalho sobre o comportamento alimentar quanto a medicação ajudam a reduzir esse barulho, o que aproxima o cuidado nutricional do tratamento com medicação.
Medicamentos que cuidam de mais do que o peso
Talvez a mensagem mais forte do congresso tenha sido esta: os medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, os mesmos usados para emagrecer, mostraram benefícios que vão bem além da balança.
Em pessoas com obesidade e doenças cardiovasculares, a semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos como infarto e AVC, no estudo SELECT. Na insuficiência cardíaca, houve melhora dos sintomas e da capacidade de fazer esforço. Nos rins, a semaglutida reduziu em 24% a piora da função renal em quem tem diabetes tipo 2 e doença renal, no estudo FLOW. Na apneia do sono, a tirzepatida diminuiu pela metade a gravidade dos episódios em pessoas com apneia e obesidade. No fígado, a semaglutida melhorou a forma mais avançada da doença gordurosa, com resolução da inflamação do fígado, a esteato-hepatite, em cerca de dois terços dos pacientes no estudo ESSENCE. E, em pessoas com pré-diabetes, a tirzepatida reduziu em 93% a passagem para o diabetes tipo 2.
Uma pergunta natural é se todo esse benefício vem só da perda de peso. Aparentemente, não só. No próprio SELECT, apenas cerca de um terço do benefício no coração foi explicado pela redução da cintura, e o restante parece ter outra origem. Uma das explicações estudadas é a inflamação. Uma análise que reuniu vários estudos mostrou que esses medicamentos reduzem quase à metade um marcador de inflamação no sangue, a proteína C reativa, e essa queda acontece mesmo quando se leva em conta o peso perdido. Ainda é uma linha em investigação. Há também efeitos bem mais iniciais sendo estudados, como possíveis ações no cérebro e no comportamento, que por enquanto são hipóteses, e foi com essa clareza que apareceram no congresso.
Para a consulta, o que já dá para aplicar é bastante. Escolher o medicamento pensando também no coração, no rim, no fígado, na apneia e no risco de diabetes, e não apenas no quanto a pessoa vai emagrecer, já é conduta apoiada em estudos sólidos. O que ainda é cedo é atribuir a esses medicamentos usos que a pesquisa está apenas começando a testar.
Novos medicamentos chegando, e mais opções para cada pessoa
O congresso também mostrou uma geração de medicamentos em desenvolvimento, que combina diferentes formas de agir no corpo. Alguns são por via oral, como o orforglipron e a versão em comprimido da semaglutida, que em estudo alcançou cerca de 16% de perda de peso entre quem seguiu o tratamento, chegando perto do resultado da injeção. Outros combinam dois ou três alvos ao mesmo tempo, como a retatrutida e a survodutida. Há os que agem por outro caminho, o da amilina, e um que interessa de perto a quem cuida da alimentação: um medicamento voltado a preservar a massa muscular durante o emagrecimento. Para as formas raras de obesidade causadas por um único gene, existe um tratamento específico, a setmelanotida.
Alguns desses resultados são recentes, como os do programa de estudos da survodutida, que mostrou perda de peso próxima de 16% em pouco mais de um ano.
Duas observações ajudam a usar bem essa informação. A primeira é que boa parte desses dados vem de estudos ainda em fase de teste, muitos patrocinados pelas próprias fabricantes, o que não invalida os resultados, mas pede leitura atenta. A segunda é sobre o número da semaglutida em comprimido: os cerca de 16% valem para quem seguiu o tratamento como recomendado. Considerando todos os participantes, incluindo quem interrompeu, o valor médio fica um pouco menor, perto de 14%, e o grupo estudado ainda foi pouco diverso. Ter mais opções é bom porque permite escolher melhor para cada pessoa, e é aí que está o ganho real. Na prática, algumas dessas opções já estão chegando ao consultório, e outras ainda vão levar tempo até a aprovação e o uso de rotina.
Recuperar peso não é fracassar
A manutenção do peso perdido e o sucesso do tratamento a longo prazo foi outro tema bastante abordado no congresso. Pelo menos duas palestras tiveram o tema da manutenção do peso perdido como foco central. O palestrante Dr. Bruno Halpern deixou claro que o sucesso do tratamento da obesidade não deve ser medido apenas pela perda de peso, mas sim pela manutenção do peso. O reganho de peso é uma resposta biológica esperada após a suspensão do tratamento medicamentoso, ainda mais após a utilização de medicações para tratamento da obesidade de alta potência. Prática de atividade física, perseverança no tratamento e automonitoramento são características em comum de pessoas que conseguem manter o peso perdido.
A mensagem foi clara: recuperar peso faz parte do curso de uma doença crônica e não significa que a pessoa falhou. Quando alguém com obesidade perde peso de propósito e depois recupera, esse peso recuperado costuma ter a mesma composição do que foi perdido, incluindo músculo. E, junto com o peso, podem voltar alterações no coração e no metabolismo. As palestras reconheceram que ainda faltam estudos bem conduzidos sobre os efeitos de perder e recuperar peso várias vezes.
O caminho proposto foi de acolhimento: entender o tratamento como um processo que tem idas e vindas, manter o acompanhamento ao longo do tempo e olhar para a saúde como um todo, não só para o número na balança. Para a consulta, isso já se aplica hoje, e talvez seja a parte mais importante de tudo: sustentar o vínculo e o cuidado contínuo, sem culpar a pessoa pelo reganho.
Ciência que olha para a população
Além do cuidado individual, o congresso trouxe estudos sobre o que acontece no conjunto da população.
Um dos assuntos mais comentados foi a relação entre alimentos ultraprocessados e mortes doenças cardiovasculares. Pesquisadores do Canadá usaram dados de consumo alimentar da população para calcular quantas dessas mortes teriam ligação com esses alimentos. O número que encontraram é alto, e ajuda a entender o quanto a alimentação influencia a saúde do coração. Também serve de argumento para políticas como a dos rótulos de advertência. Como é um cálculo feito a partir do que as pessoas relatam comer, e não um experimento controlado, ainda fica em aberto quanto do risco vem de cada tipo de alimento. Na consulta, a orientação já é firme: vale reduzir bebidas açucaradas e carnes processadas.
Sobre políticas, o congresso destacou o exemplo do Chile. Depois da lei que colocou rótulos de advertência nos alimentos, restringiu a venda em escolas e limitou a publicidade, um estudo grande mostrou redução na obesidade infantil, tanto em meninas quanto em meninos. É uma das primeiras vezes que se consegue ligar uma política nacional de alimentação a uma queda mensurável na obesidade das crianças.
Houve também uma reflexão mais ampla, apresentada por Boyd Swinburn, sobre por que a obesidade se tornou tão comum. A ideia é que ela nasce do encontro entre um sistema que produz alimentos fáceis de consumir em excesso e um corpo que, pela sua história ao longo da evolução, tende a guardar energia. Nenhum dos dois está com defeito, e é justamente do encontro dos dois que vem o problema.
Dois outros assuntos apareceram e valem registro. Um estudo sobre buscas na internet mostrou que o interesse por medicamentos para emagrecer cresceu muitas vezes nos últimos anos, enquanto o interesse por mudanças no estilo de vida ficou parado, o que chama atenção para a forma como a comunicação em saúde vem acontecendo. E houve uma palestra sobre inteligência artificial na obesidade, com seus avanços e seus cuidados.
Como levar isso para o consultório
Reunindo tudo, dá para separar com tranquilidade o que já vale para o dia a dia e o que ainda está a caminho. E vale dizer desde já: quase nada disso é tarefa de uma profissão só. O cuidado da obesidade hoje é trabalho de equipe multiprofissional.
Já dá para aplicar hoje:
- Avaliar onde a gordura se acumula e a composição do corpo, e não só o peso.
- Reconhecer o lipedema quando o caso não se comporta como obesidade.
- Quando há medicamento no tratamento, acompanhar de perto a alimentação: garantir proteína suficiente e estímulo à força muscular para proteger a massa magra durante o emagrecimento, ajustar a dieta à menor fome e às queixas digestivas comuns no início, e cuidar dos micronutrientes.
- Trabalhar o comportamento alimentar e o food noise junto com a pessoa, algo que a orientação nutricional organiza tanto quanto a medicação. Considerar a história de cada um ao montar o plano.
- Tratar o reganho de peso como parte do cuidado de uma doença crônica, mantendo o vínculo e o acompanhamento.
- E, para quem prescreve, escolher o medicamento pensando também nas doenças que acompanham a obesidade, como as do coração, dos rins, do fígado e a apneia, porque esse benefício está bem demonstrado.
Ainda é cedo para incorporar como rotina:
- Usar medicamentos com base em efeitos que a pesquisa está começando a estudar, como as possíveis ações no cérebro.
- Decidir a conduta apenas pelo padrão de comportamento, que é uma ideia promissora mas ainda em construção.
- E contar com os medicamentos mais novos que seguem em fase de teste e vão levar tempo até o uso comum.
Há ainda uma base que atravessa tudo. Por mais que os medicamentos tenham avançado, o trabalho sobre a alimentação, o comportamento e o ambiente em que a pessoa vive não perdeu espaço. Com o emagrecimento mais rápido, cuidar da qualidade da alimentação, da massa muscular e da relação da pessoa com a comida ficou ainda mais necessário. É aí que o acompanhamento nutricional se mostra insubstituível.
Tratar a doença e cuidar da pessoa
Num dos espaços mais marcantes do congresso, participantes de vários países foram convidados a escrever mensagens sobre a própria experiência com a obesidade. De longe, parecia um mural coberto de flores. De perto, cada flor trazia uma história. Muitas falavam de estigma, da dificuldade de encontrar profissionais preparados, de barreiras para conseguir tratamento e de perguntas que, em vez de acolher, reforçavam a culpa. As mensagens estavam em idiomas diferentes, mas diziam a mesma coisa: em qualquer país, muitas pessoas que vivem com obesidade ainda não se sentem compreendidas nem acolhidas quando procuram ajuda.
O mural lembra algo simples e importante. Tratar a obesidade é mais do que indicar um tratamento. É reconhecer a experiência de cada pessoa, ouvir a sua história e oferecer um cuidado sem julgamento. Foi essa a mensagem que ligou as três dimensões do congresso, a ciência, a clínica e a saúde pública: levar a obesidade a sério como a doença crônica que ela é, e tratar quem convive com ela com respeito, escuta e dignidade.
Uma nova liderança
Por fim, uma novidade que não veio de um estudo, mas que importa para o futuro do campo. Durante o ICO 2026, a presidência da World Obesity Federation passou para o brasileiro Bruno Halpern, médico endocrinologista e vice-presidente da ABESO, sucedendo Simón Barquera. Halpern já vinha trabalhando junto à entidade e assume agora à frente dela, o que coloca um brasileiro na liderança da principal organização do mundo dedicada à obesidade.
Ao assumir, ele apresentou seis prioridades para o seu trabalho:
- Transformar a educação sobre obesidade, apontada como um dos principais caminhos para a mudança.
- Promover a cobertura universal de saúde, com segurança, equidade e cuidado baseado em evidência para todos que procurarem ajuda.
- Superar a falsa separação entre prevenção e tratamento, que não competem entre si e fazem parte de uma mesma estratégia.
- Fortalecer equipes com formações diferentes, incluindo as próprias pessoas que vivem com obesidade.
- Incentivar a ciência e as parcerias entre países, reconhecendo que nações de baixa e média renda têm muito a contribuir.
- Modernizar a comunicação, tornando o conhecimento sobre obesidade mais acessível e conectado.
Duas dessas prioridades, a educação e a comunicação, são exatamente o que move um projeto de divulgação científica como este. Terminar a curadoria por elas é também uma forma de reconhecer o trabalho de quem passa a conduzir esse campo, e de dizer que estamos junto nesse esforço.
Referências
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