Curadoria 4 – Ultraprocessados não engordam? O que um comentário na Science diz, o que omite, e por que isso importa agora

09/06/2026 16:44

Profa. Dra. Ana Paula Gines Geraldo

Nutricionista | Doutora em Nutrição em Saúde Pública (USP) | Professora do Departamento de Nutrição da UFSC | Coordenadora do Obesidade com Ciência

Referência: Magkos F, Forde CG, Robinson E. Ultraprocessed foods and obesity: Interpreting the evidence. Science. 2026;392(6802):1020-1022. doi:10.1126/science.aef3495

Delineamento: Commentary/Perspectives

Destinado a: Nutricionistas, médicos e demais profissionais de saúde que atuam com obesidade

Leitura estimada: 9 min

Por que escolhi este artigo

Quando vi esse comentário publicado na Science, não consegui ignorar. O argumento é sério, os autores têm trajetória real, e o momento em que foi publicado não é por acaso. Vale a leitura com atenção.

Por que este artigo agora

O artigo chegou num momento muito conveniente. Em junho de 2026, enquanto países do mundo todo debatem impostos, rotulagens e restrições a alimentos ultraprocessados, três pesquisadores europeus publicam na Science um argumento que merece leitura atenta: os ensaios clínicos randomizados disponíveis não provam que o ultraprocessamento, como tal, causa ganho de peso ou piora metabólica. O problema seria a textura macia, o excesso de sódio, a densidade calórica. Não o processamento em si.

Vale ler. O argumento é tecnicamente sério e os autores têm expertise real na área. Mas vale ler sabendo o contexto: a Colômbia já opera com imposto de 20% sobre ultraprocessados, a FDA americana abriu consulta pública para defini-los em lei, o Lancet publicou em 2025 uma série com 43 especialistas e apoio da OMS pedindo regulação global, e no Brasil a indústria mobilizou frente parlamentar para blindá-los do imposto seletivo da Reforma Tributária. Um comentário de três páginas na revista científica de maior prestígio do mundo, publicado nesse momento, não é um evento neutro.

O que o estudo fez

Este não é um estudo primário. É um artigo de opinião argumentativa que revisita cinco ensaios clínicos randomizados já publicados: Hall et al. (EUA), Hamano et al. (Japão), Dicken et al. (Reino Unido), Preston et al. (Reino Unido, dois braços) e Rego et al. Não há busca sistemática, critérios formais de inclusão, avaliação de qualidade metodológica ou síntese quantitativa. A seleção dos cinco estudos parece orientada pela pertinência ao argumento que os autores querem construir.

Os autores são pesquisadores com trajetória coerente com o que defendem:

  • Faidon Magkos (Universidade de Copenhague): metabolismo e intervenção dietética
  • Ciáran Forde (Universidade de Wageningen): textura alimentar, velocidade de ingestão e consumo calórico
  • Eric Robinson (Universidade de Liverpool): tamanho de porção e consumo passivo de calorias

Isso importa para entender que a posição deles não surgiu do nada.

O que encontrou

Os autores organizam a releitura dos cinco ensaios em torno de três argumentos:

1. Textura e velocidade de ingestão

Dietas ricas em ultraprocessados tendem a ser de textura macia, o que aceleraria o ritmo de comer e aumentaria o consumo calórico sem que a pessoa perceba. Para sustentar esse mecanismo, citam um ensaio do próprio grupo de Forde (AJCN, 2025) que teria demonstrado diferença de 369 kcal por dia apenas pela manipulação da textura, sem alterar o grau de processamento. Nos estudos em que os ultraprocessados eram de textura mais dura, relatam que o excesso de ingestão desapareceu ou se inverteu.

2. Sódio e retenção de água

No estudo de Preston, segundo os autores, a dieta rica em ultraprocessados tinha cerca de 150% mais sódio que a comparadora. O ganho de peso de 0,75 kg em três semanas poderia ser explicado por retenção hídrica, não por acúmulo de gordura. Quando fibra e sódio foram equiparados entre as dietas, como no estudo Rego, o excesso de ingestão calórica deixou de ser estatisticamente significativo.

3. Comparadores ecologicamente inválidos

Segundo os autores, nos países onde os ensaios foram conduzidos, entre 50 e 70% da energia habitual dos participantes já vinha de ultraprocessados. As dietas controle forneciam de 0 a 5% de energia a partir desses alimentos. Comparar 70% com 0% amplifica artificialmente qualquer diferença observada e não reflete nenhuma mudança alimentar que existe na vida real.

Com base nesses três argumentos, os autores concluem que políticas públicas deveriam focar em alimentos de alta densidade calórica, baixo teor de proteína e fibras e consumo rápido, independentemente da classificação pelo grau de processamento.

Análise crítica

O que o texto é e o que não é

Não é revisão sistemática, não é meta-análise, não é estudo primário. É argumentação qualificada, sem método declarado de seleção dos estudos. As omissões não são limitações metodológicas: são escolhas editoriais.

A mais significativa delas é a ausência completa da evidência observacional longitudinal:

  • O NutriNet-Santé (105 mil participantes, França) demonstrou que cada incremento de 10 pontos percentuais de ultraprocessados na dieta estava associado a 12% mais risco cardiovascular, 13% mais doença coronariana e 11% mais doença cerebrovascular, associações que se mantiveram após ajuste para qualidade nutricional da dieta (Srour et al., BMJ, 2019).
  • Coorte australiana com 10 mil mulheres acompanhadas por 15 anos associou maior consumo de ultraprocessados a 39% mais risco de hipertensão (Pant et al., European Journal of Nutrition, 2024).

Essa literatura simplesmente não aparece no artigo. Os autores reconhecem, numa única frase, que estudos de curta duração não excluem riscos de longo prazo, mas não discutem os dados que existem sobre esses riscos.

Os três argumentos, avaliados um a um

Comparadores contrafactuais: o mais sólido. Comparar 70% com 0% de ultraprocessados é uma limitação real, reconhecida há anos na literatura, e vale independentemente de qual lado do debate se está.

Textura e velocidade de ingestão: plausível, mas inferencial. Nenhum dos cinco ensaios testou textura de forma independente do grau de processamento. E o argumento cria uma lacuna que o artigo não fecha: se o problema é a maciez, um ultraprocessado de textura dura seria inofensivo? Para a prática clínica e para a comunicação em saúde pública, deixar essa pergunta sem resposta é um problema.

Sódio e retenção hídrica: o mais especulativo. Construído retroativamente sobre dados publicados, sem acesso à composição corporal ou dados urinários dos participantes. É uma interpretação possível, não uma demonstração.

A hipótese não testada

Vale levar o argumento dos autores até sua conclusão lógica: se o problema não é o ultraprocessamento em si, mas textura macia, alta densidade calórica e excesso de sódio, então um ultraprocessado que controla os três seria inofensivo. Essa hipótese nunca foi testada. Não existe, até hoje, nenhum ensaio que tenha manipulado esses três atributos de forma independente dentro de uma dieta ultraprocessada. Isso não torna o argumento falso, mas torna prematuro usá-lo para revisar políticas públicas ou relativizar a orientação de reduzir ultraprocessados na prática clínica.

O que o artigo não enfrenta

Monteiro e colaboradores documentaram que os processos e ingredientes dos ultraprocessados são deliberadamente escolhidos para criar produtos hiperpalatáveis, de baixo custo e longa vida de prateleira (Monteiro et al., Public Health Nutrition, 2017; 2019). A maciez, o sódio e a densidade calórica não são efeitos colaterais do processamento: são o objetivo dele. A evidência mais concreta disso vem das políticas regulatórias: após a rotulagem frontal obrigatória no Chile, a indústria reformulou seus produtos reduzindo açúcar e sódio para escapar dos selos de advertência, sem deixar de produzir ultraprocessados (Roberto et al., Annual Review of Nutrition, 2021). O alcance e a suficiência dessas reduções para impacto em saúde ainda são debatidos, mas o fato da reformulação em si demonstra que essas características são escolhas, não restrições técnicas. Questionar a classificação pelo grau de processamento sem questionar a intencionalidade dessas escolhas é uma análise incompleta.

Conflito de interesse

Forde declara reembolsos de: Kerry Taste and Nutrition, Ajinomoto, Nestlé Nutrition Institute, AB Mauri, Pepsico, Barilla, World Sugar Research Organization, Mondelez, Northern Irish Dairy Council, General Mills, Lesaffre, European Milk Forum e International Glutamate Technical Committee. São empresas produtoras de alimentos processados e ingredientes industriais, precisamente os setores cujos produtos são alvo das políticas que o artigo questiona. Magkos declara suporte da Novo Nordisk Foundation. Robinson não declara vínculos com a indústria alimentar.

Nada disso invalida os argumentos. Mas quando essa convergência de interesses coincide com o pico do debate regulatório global, ela precisa ser nomeada com clareza, não apenas listada numa nota de rodapé.

O que é possível afirmar

  • Os cinco ensaios têm limitações reais: duração de 1 a 8 semanas, amostras pequenas e comparadores que diferem das dietas habituais em múltiplas dimensões simultaneamente.
  • Textura, densidade energética, fibras e proteínas variam sistematicamente entre dietas ricas em ultraprocessados e dietas sem esses alimentos, tornando difícil isolar o efeito específico do processamento.
  • Quando fibra e sódio foram equiparados (estudo Rego), o excesso de ingestão calórica com a dieta ultraprocessada deixou de ser estatisticamente significativo.
  • O argumento dos comparadores ecologicamente inválidos é metodologicamente legítimo e generalizável além dos cinco estudos analisados.

O que não é possível afirmar

  • Que ultraprocessados não causam ganho de peso ou dano metabólico. A evidência observacional longitudinal, ausente neste texto, não desaparece por não ter sido citada.
  • Que textura e velocidade de ingestão são os mecanismos causais dos efeitos dos ultraprocessados. É uma hipótese plausível, não demonstrada diretamente nos ensaios analisados.
  • Que políticas regulatórias baseadas no grau de processamento são injustificadas. Questionar a especificidade do marcador em ensaios de curto prazo é diferente de demonstrar que essas regulações são ineficazes.
  • Que este texto representa o que os estudos sobre ultraprocessados mostram. Representa o que esse grupo de autores interpreta que esses estudos mostram, com base num corpus selecionado, num momento de disputa regulatória ativa.

Aplicação clínica

A conduta não muda. A base continua sendo priorizar alimentos in natura e minimamente processados, onde está a maior densidade de nutrientes, e reduzir ultraprocessados, associados a diversas doenças crônicas não transmissíveis em estudos de longo prazo. É isso que o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda, e é isso que a evidência observacional acumulada sustenta.

  • Para o nutricionista: trabalhar não apenas a categoria do alimento, mas suas características físicas e de composição: textura, velocidade de ingestão, densidade calórica, teor de fibras e proteínas.
  • Para o médico: ampliar as perguntas ao paciente para além de “você come ultraprocessados?” incluindo “você come rápido? Você para de comer antes de se sentir satisfeito?”

O que este artigo não justifica é usá-lo para relativizar essa orientação. A distância entre “o mecanismo pode não ser o processamento em si” e “então ultraprocessados não são um problema” é uma extrapolação que nem os próprios autores sustentam com os dados que apresentam.

Nota da curadora

“O que me chama atenção é que os autores tratam ‘processamento’ como se fosse uma categoria única, quando não é. Um grão de trigo virando farinha, um feijão sendo seco, um queijo sendo curado: isso é processamento, e é necessário. A NOVA nunca disse o contrário. O que a NOVA nomeia como ultraprocessado é outra coisa: é o produto formulado industrialmente para ir além da nutrição, para maximizar atratividade sensorial e consumo. Essa distinção importa, e um texto publicado na Science em 2026 não deveria ignorá-la.”

Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora da UFSC, coordenadora do Obesidade com Ciência

Referências

Magkos F, Forde CG, Robinson E. Ultraprocessed foods and obesity: Interpreting the evidence. Science. 2026;392(6802):1020-1022. doi:10.1126/science.aef3495

Srour B et al. Ultra-processed food intake and risk of cardiovascular disease: prospective cohort study (NutriNet-Santé). BMJ. 2019;365:l1451. doi:10.1136/bmj.l1451

Pant A et al. Ultra-processed foods and incident cardiovascular disease and hypertension in middle-aged women. Eur J Nutr. 2024;63(3):713-725. doi:10.1007/s00394-023-03297-4

Monteiro CA et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutr. 2019;22(5):936-941. doi:10.1017/S1368980018003762

Monteiro CA et al. The UN Decade of Nutrition, the NOVA food classification and the trouble with ultra-processing. Public Health Nutr. 2017;21(1):5-17. doi:10.1017/S1368980017000234

Roberto CA et al. The Influence of Front-of-Package Nutrition Labeling on Consumer Behavior and Product Reformulation. Annu Rev Nutr. 2021;41:529-550. doi:10.1146/annurev-nutr-111120-094932

Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.

Tags: glp-1obesidaderotulagemultraprocessado

Curadoria de artigo 2 – Recomendações de cuidados nutricionais e de estilo de vida para o tratamento da obesidade com terapias baseadas em GLP-1

25/05/2026 17:50

Recomendações nutricionais para GLP-1: um consenso financiado pela Nestlé, com 46% das declarações baseadas em opinião de especialista, que ainda assim tem valor clínico — se lido com cautela

 

Referência: Sievenpiper JL et al. Obesity Pillars, 2026. DOI: 10.1016/j.obpill.2025.100228

Delineamento: Consenso de especialistas por método Delphi modificado, com scoping review como base documental

Leitura estimada: 7 min

 

Por que este artigo agora

 

Os ensaios clínicos de semaglutida e tirzepatida mostram perdas de peso de 15 a 25%, mas quase não descrevem o que os participantes comem, quanto de proteína ingerem ou que suporte nutricional recebem. Uma revisão de 129 RCTs com essas medicações encontrou reporte mínimo sobre qualidade da dieta ou ingestão alimentar. Em outras palavras: a farmacologia foi testada. A nutrição que acompanha esse tratamento, não.

É exatamente esse vácuo que este consenso tenta preencher. E aqui começa a leitura crítica: o documento foi integralmente financiado pela Nestlé Health Science, empresa com linha direta de suplementos proteicos e substitutos de refeição para gestão de peso. Todos os 15 especialistas do painel receberam honorários pessoais dessa empresa. Das 52 declarações aprovadas, 46% são baseadas exclusivamente em opinião de especialista e 33% são extrapolações de diretrizes pré-existentes sobre obesidade, não evidência nova sobre GLP-1.

O que o documento oferece é uma organização estruturada do julgamento clínico disponível sobre um tema sem evidência direta. Lê-se com esse enquadramento ativo desde o início.

 

O que o estudo fez

 

Consenso Delphi modificado conduzido entre maio e setembro de 2024, com painel de 15 especialistas (médicos, pesquisadores e dietistas) de 9 países. A base documental foi uma scoping review de publicações de janeiro de 2021 a junho de 2025, conduzida por empresa contratada pelo patrocinador.

O processo de votação ocorreu em duas rodadas anônimas. Consenso foi definido como ≥67% de concordância (escore ≥7 por 10/15 especialistas). Declarações com 60–66% de concordância e mediana ≥7 também foram incluídas como “consenso moderado”, o que, na prática, significa que até 6 em cada 15 especialistas discordaram. Das 85 declarações iniciais, 52 atingiram o threshold após duas rodadas.

 

O que encontrou

 

As 52 declarações foram organizadas em sete módulos: nutrição geral na obesidade, atividade física, avaliação pré-tratamento, fase de perda de peso ativa, fase de manutenção, manejo dos efeitos adversos gastrointestinais e condutas na descontinuação.

Os pontos de maior relevância clínica:

Área Recomendação
Micronutrientes pré-existentes Pessoas com obesidade já apresentam risco aumentado de deficiências de vitamina D, B12, ferro e cálcio antes de iniciar o GLP-1. A redução da ingestão pode agravar um problema ainda não identificado. Triagem bioquímica indicada quando há sinais clínicos; suplementação recomendada se adesão dietética for duvidosa ou perda de peso excessiva.
Proteína 1,2–1,5 g/kg/dia na fase ativa (25–30% da energia em dieta de 1.600 kcal/dia); ≥0,8 g/kg/dia na manutenção; ≥1,0–1,2 g/kg/dia para maiores de 65 anos.
Fibra ≥25 g/dia para mulheres; ≥30 g/dia para homens; ≥35 g/dia para pessoas com diabetes.
Hidratação 2–4 L/dia (≈35 mL/kg). Atenção redobrada em episódios de náusea, vômito ou diarreia. Monitoramento especial em pacientes com insuficiência cardíaca ou renal.
Atividade física ≥150 min/semana de atividade aeróbica moderada a vigorosa + treino resistido. Combinação GLP-1 + exercício previne perda de densidade mineral óssea observada com medicação isolada (dados de RCTs, incluindo SURMOUNT-3).
Efeitos adversos GI Ocorrem em 50–60% dos pacientes. Refeições menores e frequentes, evitar alimentos gordurosos/picantes na titulação. Constipação é o efeito mais persistente, psyllium pode ser necessário. Tratar náusea farmacologicamente não interfere na perda de peso.
Descontinuação Recuperação de ~2/3 do peso perdido em 1 ano após parada. No STEP-4: +6,9% de peso em 68 semanas ao trocar semaglutida por placebo. No SURMOUNT-4: +14,0% até a semana 88 ao parar tirzepatida.

 

Análise crítica

 

Delineamento e base de evidência

 

Este não é um RCT nem uma revisão sistemática, é um consenso de especialistas. O método Delphi estrutura e torna transparente a elicitação de opinião, mas não transforma opinião em evidência empírica. A distribuição real das 52 declarações revela o que o documento é de fato: quase metade (46%) representa o que especialistas acham, com base na experiência clínica, sem estudo por trás. Um terço (33%) vem de diretrizes escritas para outros contextos e foi transplantado para cá por analogia, não por evidência direta. Apenas 13% têm algum dado observacional como respaldo. E zero declarações foram sustentadas por um ensaio clínico desenhado para testar intervenção nutricional especificamente durante uso de GLP-1.

Na prática, isso significa: se você seguir essas recomendações acreditando que foram testadas e comprovadas em pacientes usando GLP-1, está enganada. Podem estar corretas. Podem não estar. Ninguém ainda verificou isso de forma controlada.

A base documental foi conduzida por empresa contratada pelo patrocinador, não é uma revisão sistemática com protocolo registrado ou avaliação de risco de viés. A maior parte da evidência indireta vem de cirurgia bariátrica e intervenções de estilo de vida sem GLP-1, populações e mecanismos distintos dos usuários de farmacoterapia atual.

O painel é composto exclusivamente por especialistas de países de alta renda, com predominância norte-americana e europeia. A aplicabilidade para o contexto brasileiro, padrões alimentares, acesso a alimentos, realidade socioeconômica, não foi abordada.

As recomendações foram calibradas para o cenário dos trials, onde a perda de peso média é de 15 a 25%. Dados de mundo real nos EUA e na Dinamarca mostram perda de apenas ~5% em pacientes com ou sem diabetes tipo 2. Para o paciente médio da prática clínica, que perde muito menos do que os participantes selecionados dos ensaios, metas de proteína, fibra e monitoramento desenhadas para perdas substanciais podem ter aplicabilidade muito diferente. O documento não aborda essa lacuna.

 

Limitações declaradas pelos autores

 

Os próprios autores reconhecem: escopo temporal restrito da revisão, viés regional do painel, evidência indireta e mal reportada sobre nutrição nos trials de GLP-1, exclusão de medicações para obesidade de próxima geração e escassez de dados de populações não ocidentais. A conclusão declara que as recomendações são complementares às diretrizes existentes e que evidência direta é urgentemente necessária.

 

Conflito de interesse

 

O financiamento integral foi da Nestlé Health Science. Todos os 15 especialistas receberam honorários pessoais da empresa. Vários têm vínculos adicionais com Novo Nordisk, Eli Lilly, Boehringer Ingelheim e AstraZeneca. Isso não invalida o estudo, mas reforça a necessidade de cautela na leitura.

Os autores declaram que o patrocinador não teve direito de voto, veto ou influência sobre o conteúdo e o processo Delphi anônimo reduz, mas não elimina, o potencial de influência. Há, porém, um ponto anterior ao voto que não é abordado: os dois coordenadores que estruturaram as declarações submetidas ao painel foram selecionados pelo patrocinador. No Delphi, a forma como uma afirmação é enquadrada influencia o resultado tanto quanto o voto em si. Nunca chegamos a saber que declarações foram descartadas antes de entrar na votação.

O problema não é só de processo: um consenso internacional que recomenda suporte nutricional estruturado, substitutos de refeição e suplementação proteica é, por si só, um ativo comercial para a Nestlé, independentemente de quão honestas sejam as intenções individuais dos autores. As recomendações mais operacionais e específicas concentram-se exatamente nos módulos onde a empresa tem produtos. Isso é um conflito estrutural. Não é prova de manipulação, mas precisa ser nomeado.

 

O que é possível afirmar a partir do estudo

 

  • Este consenso documenta, com clareza, que o suporte nutricional durante uso de GLP-1 é insuficientemente abordado na prática e que não há evidência direta para guiar a conduta — o que já tem valor informativo.
  • Manter ingestão proteica adequada e atividade física regular durante perda de peso com GBT é biologicamente plausível e alinhado com evidência indireta de outros contextos de perda de peso significativa — mas sem confirmação direta no cenário de GLP-1.
  • Cerca de 25–30% da perda total de peso com GLP-1 corresponde a massa magra (metanálise recente + análise post-hoc do SURMOUNT-1), o que sustenta a atenção ativa à preservação muscular.
  • Os dados de reganho pós-descontinuação são robustos (STEP-4, SURMOUNT-4) e reforçam a necessidade de suporte contínuo mesmo após a parada da medicação.
  • Como orientação organizada e consistente com diretrizes independentes, o documento tem utilidade clínica — com as ressalvas explicitadas.

O que não é possível afirmar

 

  • Que qualquer estratégia nutricional recomendada aqui seja superior a alternativas no contexto de GLP-1, não existem RCTs comparando abordagens distintas nesse cenário.
  • Que a meta proteica de 1,2–1,5 g/kg/dia seja a ideal para todos: a própria literatura citada apresenta variação considerável, e usar peso real superestima a necessidade em pacientes com alta adiposidade.
  • Que a extrapolação de dados de cirurgia bariátrica e intervenções sem GLP-1 seja diretamente aplicável — os mecanismos e perfis de pacientes diferem.
  • Que este documento seja uma referência neutra. Usar suas orientações gerais é razoável. Adotá-lo como fundamento para recomendar produtos específicos,  substitutos de refeição, suplementos proteicos, sem essa ressalva é um erro de julgamento clínico.

 

Aplicação clínica

 

Para quem já conduz o cuidado nutricional com rigor, este documento muda pouco na prática. As metas de proteína, fibra e hidratação são consistentes com o que diretrizes independentes já recomendam para perda de peso em geral.

Três pontos merecem atenção especial por serem subvalorizados na rotina:

  1. o rastreio de deficiências de micronutrientes antes de iniciar o GLP-1 e não apenas depois, quando a ingestão já caiu;
  2. a triagem para transtornos alimentares com instrumentos curtos (SCOFF ou ESP) antes da prescrição, dado que o medicamento pode agravá-los;
  3. o monitoramento ativo de perda excessiva de peso durante a titulação (>1,5 kg/semana como sinal de alerta clínico).

Na prática, as metas nutricionais do consenso: 1,2–1,5 g/kg de proteína na fase ativa, ≥25–30 g de fibra por dia, hidratação adequada e treino resistido, são biologicamente plausíveis e consistentes com o que já se recomenda em outros contextos de perda de peso significativa. A ausência de RCTs específicos com GLP-1 não as invalida: significa que a certeza é moderada, não que estão erradas. Aplicá-las com julgamento clínico individualizado é razoável. Aplicá-las como protocolo fixo ou como justificativa para produtos específicos, não.

A Figura 1 do artigo pode funcionar como checklist organizador para a consulta. As recomendações sobre substitutos de refeição e suplementação específica devem ser avaliadas com a mesma pergunta que vale para qualquer dado: quem financiou, e quem se beneficia?

Nota da curadora:

Quando vi este consenso pela primeira vez, pensei que seria exatamente o que faltava na prática: um guia organizado para conduzir a nutrição de quem usa GLP-1. E em parte é. Mas o financiamento da Nestlé Health Science, uma empresa com linha direta de produtos de suplementação e substitutos de refeição, me fez reler tudo com outros olhos. As recomendações são razoáveis e alinhadas com o que já fazemos, mas o entusiasmo com substitutos de refeição e suplementos proteicos fica difícil de dissociar de quem patrocinou a elaboração desse artigo. Vale usar o documento como referência, com essa lente sempre ativa.

Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora da UFSC, coordenadora do Obesidade com Ciência UFSC

Referência:

Sievenpiper JL, Ard J, Blüher M, Chen W, Dixon JB, Fitch A, Gigliotti L, Khunti K, Lecube A, Lean MEJ, Mittendorfer B, Pfeiffer AFH, Ryan DH, Vilsbøll T, Van Gaal LF. Nutritional and lifestyle supportive care recommendations for management of obesity with GLP-1-based therapies: An expert consensus statement using a modified Delphi approach. Obesity Pillars. 2026;17:100228. doi:10.1016/j.obpill.2025.100228

Tags: glp-1mounjaroobesidadetirzepatidawegovy