Curadoria 4 – Ultraprocessados não engordam? O que um comentário na Science diz, o que omite, e por que isso importa agora
Profa. Dra. Ana Paula Gines Geraldo
Nutricionista | Doutora em Nutrição em Saúde Pública (USP) | Professora do Departamento de Nutrição da UFSC | Coordenadora do Obesidade com Ciência
Delineamento: Commentary/Perspectives
Destinado a: Nutricionistas, médicos e demais profissionais de saúde que atuam com obesidade
Leitura estimada: 9 min
Por que escolhi este artigo
Quando vi esse comentário publicado na Science, não consegui ignorar. O argumento é sério, os autores têm trajetória real, e o momento em que foi publicado não é por acaso. Vale a leitura com atenção.
Por que este artigo agora
O artigo chegou num momento muito conveniente. Em junho de 2026, enquanto países do mundo todo debatem impostos, rotulagens e restrições a alimentos ultraprocessados, três pesquisadores europeus publicam na Science um argumento que merece leitura atenta: os ensaios clínicos randomizados disponíveis não provam que o ultraprocessamento, como tal, causa ganho de peso ou piora metabólica. O problema seria a textura macia, o excesso de sódio, a densidade calórica. Não o processamento em si.
Vale ler. O argumento é tecnicamente sério e os autores têm expertise real na área. Mas vale ler sabendo o contexto: a Colômbia já opera com imposto de 20% sobre ultraprocessados, a FDA americana abriu consulta pública para defini-los em lei, o Lancet publicou em 2025 uma série com 43 especialistas e apoio da OMS pedindo regulação global, e no Brasil a indústria mobilizou frente parlamentar para blindá-los do imposto seletivo da Reforma Tributária. Um comentário de três páginas na revista científica de maior prestígio do mundo, publicado nesse momento, não é um evento neutro.
O que o estudo fez
Este não é um estudo primário. É um artigo de opinião argumentativa que revisita cinco ensaios clínicos randomizados já publicados: Hall et al. (EUA), Hamano et al. (Japão), Dicken et al. (Reino Unido), Preston et al. (Reino Unido, dois braços) e Rego et al. Não há busca sistemática, critérios formais de inclusão, avaliação de qualidade metodológica ou síntese quantitativa. A seleção dos cinco estudos parece orientada pela pertinência ao argumento que os autores querem construir.
Os autores são pesquisadores com trajetória coerente com o que defendem:
- Faidon Magkos (Universidade de Copenhague): metabolismo e intervenção dietética
- Ciáran Forde (Universidade de Wageningen): textura alimentar, velocidade de ingestão e consumo calórico
- Eric Robinson (Universidade de Liverpool): tamanho de porção e consumo passivo de calorias
Isso importa para entender que a posição deles não surgiu do nada.
O que encontrou
Os autores organizam a releitura dos cinco ensaios em torno de três argumentos:
1. Textura e velocidade de ingestão
Dietas ricas em ultraprocessados tendem a ser de textura macia, o que aceleraria o ritmo de comer e aumentaria o consumo calórico sem que a pessoa perceba. Para sustentar esse mecanismo, citam um ensaio do próprio grupo de Forde (AJCN, 2025) que teria demonstrado diferença de 369 kcal por dia apenas pela manipulação da textura, sem alterar o grau de processamento. Nos estudos em que os ultraprocessados eram de textura mais dura, relatam que o excesso de ingestão desapareceu ou se inverteu.
2. Sódio e retenção de água
No estudo de Preston, segundo os autores, a dieta rica em ultraprocessados tinha cerca de 150% mais sódio que a comparadora. O ganho de peso de 0,75 kg em três semanas poderia ser explicado por retenção hídrica, não por acúmulo de gordura. Quando fibra e sódio foram equiparados entre as dietas, como no estudo Rego, o excesso de ingestão calórica deixou de ser estatisticamente significativo.
3. Comparadores ecologicamente inválidos
Segundo os autores, nos países onde os ensaios foram conduzidos, entre 50 e 70% da energia habitual dos participantes já vinha de ultraprocessados. As dietas controle forneciam de 0 a 5% de energia a partir desses alimentos. Comparar 70% com 0% amplifica artificialmente qualquer diferença observada e não reflete nenhuma mudança alimentar que existe na vida real.
Com base nesses três argumentos, os autores concluem que políticas públicas deveriam focar em alimentos de alta densidade calórica, baixo teor de proteína e fibras e consumo rápido, independentemente da classificação pelo grau de processamento.
Análise crítica
O que o texto é e o que não é
Não é revisão sistemática, não é meta-análise, não é estudo primário. É argumentação qualificada, sem método declarado de seleção dos estudos. As omissões não são limitações metodológicas: são escolhas editoriais.
A mais significativa delas é a ausência completa da evidência observacional longitudinal:
- O NutriNet-Santé (105 mil participantes, França) demonstrou que cada incremento de 10 pontos percentuais de ultraprocessados na dieta estava associado a 12% mais risco cardiovascular, 13% mais doença coronariana e 11% mais doença cerebrovascular, associações que se mantiveram após ajuste para qualidade nutricional da dieta (Srour et al., BMJ, 2019).
- Coorte australiana com 10 mil mulheres acompanhadas por 15 anos associou maior consumo de ultraprocessados a 39% mais risco de hipertensão (Pant et al., European Journal of Nutrition, 2024).
Essa literatura simplesmente não aparece no artigo. Os autores reconhecem, numa única frase, que estudos de curta duração não excluem riscos de longo prazo, mas não discutem os dados que existem sobre esses riscos.
Os três argumentos, avaliados um a um
Comparadores contrafactuais: o mais sólido. Comparar 70% com 0% de ultraprocessados é uma limitação real, reconhecida há anos na literatura, e vale independentemente de qual lado do debate se está.
Textura e velocidade de ingestão: plausível, mas inferencial. Nenhum dos cinco ensaios testou textura de forma independente do grau de processamento. E o argumento cria uma lacuna que o artigo não fecha: se o problema é a maciez, um ultraprocessado de textura dura seria inofensivo? Para a prática clínica e para a comunicação em saúde pública, deixar essa pergunta sem resposta é um problema.
Sódio e retenção hídrica: o mais especulativo. Construído retroativamente sobre dados publicados, sem acesso à composição corporal ou dados urinários dos participantes. É uma interpretação possível, não uma demonstração.
A hipótese não testada
Vale levar o argumento dos autores até sua conclusão lógica: se o problema não é o ultraprocessamento em si, mas textura macia, alta densidade calórica e excesso de sódio, então um ultraprocessado que controla os três seria inofensivo. Essa hipótese nunca foi testada. Não existe, até hoje, nenhum ensaio que tenha manipulado esses três atributos de forma independente dentro de uma dieta ultraprocessada. Isso não torna o argumento falso, mas torna prematuro usá-lo para revisar políticas públicas ou relativizar a orientação de reduzir ultraprocessados na prática clínica.
O que o artigo não enfrenta
Monteiro e colaboradores documentaram que os processos e ingredientes dos ultraprocessados são deliberadamente escolhidos para criar produtos hiperpalatáveis, de baixo custo e longa vida de prateleira (Monteiro et al., Public Health Nutrition, 2017; 2019). A maciez, o sódio e a densidade calórica não são efeitos colaterais do processamento: são o objetivo dele. A evidência mais concreta disso vem das políticas regulatórias: após a rotulagem frontal obrigatória no Chile, a indústria reformulou seus produtos reduzindo açúcar e sódio para escapar dos selos de advertência, sem deixar de produzir ultraprocessados (Roberto et al., Annual Review of Nutrition, 2021). O alcance e a suficiência dessas reduções para impacto em saúde ainda são debatidos, mas o fato da reformulação em si demonstra que essas características são escolhas, não restrições técnicas. Questionar a classificação pelo grau de processamento sem questionar a intencionalidade dessas escolhas é uma análise incompleta.
Conflito de interesse
Forde declara reembolsos de: Kerry Taste and Nutrition, Ajinomoto, Nestlé Nutrition Institute, AB Mauri, Pepsico, Barilla, World Sugar Research Organization, Mondelez, Northern Irish Dairy Council, General Mills, Lesaffre, European Milk Forum e International Glutamate Technical Committee. São empresas produtoras de alimentos processados e ingredientes industriais, precisamente os setores cujos produtos são alvo das políticas que o artigo questiona. Magkos declara suporte da Novo Nordisk Foundation. Robinson não declara vínculos com a indústria alimentar.
Nada disso invalida os argumentos. Mas quando essa convergência de interesses coincide com o pico do debate regulatório global, ela precisa ser nomeada com clareza, não apenas listada numa nota de rodapé.
O que é possível afirmar
- Os cinco ensaios têm limitações reais: duração de 1 a 8 semanas, amostras pequenas e comparadores que diferem das dietas habituais em múltiplas dimensões simultaneamente.
- Textura, densidade energética, fibras e proteínas variam sistematicamente entre dietas ricas em ultraprocessados e dietas sem esses alimentos, tornando difícil isolar o efeito específico do processamento.
- Quando fibra e sódio foram equiparados (estudo Rego), o excesso de ingestão calórica com a dieta ultraprocessada deixou de ser estatisticamente significativo.
- O argumento dos comparadores ecologicamente inválidos é metodologicamente legítimo e generalizável além dos cinco estudos analisados.
O que não é possível afirmar
- Que ultraprocessados não causam ganho de peso ou dano metabólico. A evidência observacional longitudinal, ausente neste texto, não desaparece por não ter sido citada.
- Que textura e velocidade de ingestão são os mecanismos causais dos efeitos dos ultraprocessados. É uma hipótese plausível, não demonstrada diretamente nos ensaios analisados.
- Que políticas regulatórias baseadas no grau de processamento são injustificadas. Questionar a especificidade do marcador em ensaios de curto prazo é diferente de demonstrar que essas regulações são ineficazes.
- Que este texto representa o que os estudos sobre ultraprocessados mostram. Representa o que esse grupo de autores interpreta que esses estudos mostram, com base num corpus selecionado, num momento de disputa regulatória ativa.
Aplicação clínica
A conduta não muda. A base continua sendo priorizar alimentos in natura e minimamente processados, onde está a maior densidade de nutrientes, e reduzir ultraprocessados, associados a diversas doenças crônicas não transmissíveis em estudos de longo prazo. É isso que o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda, e é isso que a evidência observacional acumulada sustenta.
- Para o nutricionista: trabalhar não apenas a categoria do alimento, mas suas características físicas e de composição: textura, velocidade de ingestão, densidade calórica, teor de fibras e proteínas.
- Para o médico: ampliar as perguntas ao paciente para além de “você come ultraprocessados?” incluindo “você come rápido? Você para de comer antes de se sentir satisfeito?”
O que este artigo não justifica é usá-lo para relativizar essa orientação. A distância entre “o mecanismo pode não ser o processamento em si” e “então ultraprocessados não são um problema” é uma extrapolação que nem os próprios autores sustentam com os dados que apresentam.
Nota da curadora
“O que me chama atenção é que os autores tratam ‘processamento’ como se fosse uma categoria única, quando não é. Um grão de trigo virando farinha, um feijão sendo seco, um queijo sendo curado: isso é processamento, e é necessário. A NOVA nunca disse o contrário. O que a NOVA nomeia como ultraprocessado é outra coisa: é o produto formulado industrialmente para ir além da nutrição, para maximizar atratividade sensorial e consumo. Essa distinção importa, e um texto publicado na Science em 2026 não deveria ignorá-la.”
Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora da UFSC, coordenadora do Obesidade com Ciência
Referências
Magkos F, Forde CG, Robinson E. Ultraprocessed foods and obesity: Interpreting the evidence. Science. 2026;392(6802):1020-1022. doi:10.1126/science.aef3495
Srour B et al. Ultra-processed food intake and risk of cardiovascular disease: prospective cohort study (NutriNet-Santé). BMJ. 2019;365:l1451. doi:10.1136/bmj.l1451
Pant A et al. Ultra-processed foods and incident cardiovascular disease and hypertension in middle-aged women. Eur J Nutr. 2024;63(3):713-725. doi:10.1007/s00394-023-03297-4
Monteiro CA et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutr. 2019;22(5):936-941. doi:10.1017/S1368980018003762
Monteiro CA et al. The UN Decade of Nutrition, the NOVA food classification and the trouble with ultra-processing. Public Health Nutr. 2017;21(1):5-17. doi:10.1017/S1368980017000234
Roberto CA et al. The Influence of Front-of-Package Nutrition Labeling on Consumer Behavior and Product Reformulation. Annu Rev Nutr. 2021;41:529-550. doi:10.1146/annurev-nutr-111120-094932
Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.



