Curadoria científica 7 – Acompanhamento nutricional no uso de medicações com GLP-1 e GIP: os dados mostram que não é opcional

28/06/2026 16:38

Acompanhamento nutricional no uso de agonistas de GLP-1/GIP: os dados mostram que não é opcional

 

Referência: Korus S, Cembrowska-Lech D, Kłoda K, Stachowska E. Journal of Translational Medicine, 2026. DOI: 10.1186/s12967-026-07702-4 | PMID: 41965670

Curadoria científica feita por: Ana Paula Gines Geraldo – Nutricionista, professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora do Obesidade com Ciência

Leitura estimada: 6 min

 

Por que este artigo agora

 

Quem atua com pacientes em uso de agonistas de GLP-1/GIP sabe, na prática clínica e pelas redes sociais, que uma das preocupações mais legítimas com essa farmacoterapia é exatamente essa: a supressão de apetite promovida pelos medicamentos pode levar a uma redução calórica tão intensa que compromete a ingestão de proteína e micronutrientes essenciais. Profissionais de saúde repetem isso em consultas e em conteúdos educativos. O problema é que, até agora, faltava evidência sistematizada para sustentar essa preocupação com dados reais de ingestão alimentar.

A dimensão dessa lacuna ficou evidente em duas revisões publicadas recentemente. Jansson et al. (Obesity Reviews, 2026) analisaram 41 ensaios clínicos randomizados sobre liraglutida, semaglutida e tirzepatida, envolvendo mais de 50.000 participantes, e encontraram que apenas 2 deles, cerca de 5%, avaliaram ingestão alimentar como desfecho. Babazadeh et al. (2025), em uma revisão de escopo mais ampla com 129 ensaios, chegaram a conclusão semelhante: somente 10 estudos (8%) reportaram dados de ingestão, e metade usou avaliações pontuais em laboratório, não registro da dieta habitual. Em outras palavras, os ensaios clínicos que definiram a eficácia dessas medicações, os chamados estudos pivotais, ou seja, os grandes estudos randomizados que serviram de base para a aprovação regulatória dos medicamentos, praticamente ignoraram o que as pessoas estavam comendo durante o tratamento.

Nesse cenário, o trabalho de Korus et al. ganha relevância por ser um dos primeiros a tentar mapear sistematicamente o perfil nutricional de usuários reais de agonistas de GLP-1 e GIP/GLP-1, cobrindo macronutrientes, micronutrientes selecionados e variação entre dias da semana e final de semana. É um estudo preliminar, com limitações que serão discutidas adiante, mas que começa a preencher uma lacuna que a prática clínica já sinalizava há tempo.

 

O que o estudo fez

 

O estudo possui o delineamento de coorte retrospectiva conduzida inteiramente online, recrutando participantes de grupos de suporte em redes sociais polonesas (Facebook e Instagram) de abril de 2024 a fevereiro de 2025. Foram incluídos 387 adultos com sobrepeso ou obesidade (IMC médio 36,4 kg/m²) em uso de dulaglutida, liraglutida, semaglutida ou tirzepatida, com frequência semanal de uso. A média de idade foi de 34,9 anos (DP 9,9), e 80,4% eram mulheres.

Os participantes preencheram um diário alimentar de 48 horas, cobrindo um dia de semana (predominantemente sexta-feira) e um dia de final de semana (predominantemente sábado), com registro de horário, peso ou medida doméstica, modo de preparo e marca dos alimentos. Os registros foram processados no software Dieta-6 (banco de dados do Instituto Nacional de Saúde Pública polonês, 2024), gerando valores para energia e 42 nutrientes. Os resultados foram comparados com as DRI polonesas de 2024. A perda de peso foi obtida por autorrelato (peso antes do tratamento e peso atual).

A duração média de tratamento reportada foi de 15,7 semanas, com desvio padrão de 14 semanas, o que indica heterogeneidade importante de tempo de uso dentro da amostra.

 

O que o estudo encontrou

 

A ingestão energética média foi de 753 kcal/dia (DP 257,8 kcal), com proteína de 33,4 g/dia, gordura de 26,5 g/dia e carboidratos de 96,4 g/dia. Em relação às recomendações de proteína, 97% dos participantes ficaram abaixo da RDA; nenhum atingiu exatamente a recomendação. Menos de 10% atingiu as recomendações para proteína, fibra, vitamina D, cálcio e potássio.

A ingestão de gordura também apresentou inadequação relevante. Na média dos dois dias, 48,8% dos participantes ficou abaixo da recomendação, 38,2% dentro e apenas 12,9% acima. O padrão predominante, portanto, é de déficit, com variação importante entre os dias: nos dias de semana, o consumo foi maior em 7-10 g em comparação ao final de semana (p<0,001), quando 63,6% ficou abaixo da recomendação.

Houve também diferença significativa na ingestão calórica entre dias da semana e final de semana: nos dias úteis, a ingestão foi maior em 170 kcal (IC95%: 152-185; p<0,001), com maior consumo de sódio (370 mg a mais). A proteína total não diferiu entre os dias, mas a proteína de origem animal foi significativamente maior nos dias de semana.

Na análise de regressão múltipla para perda de peso, o tempo de tratamento foi o preditor dominante: cada semana adicional foi associada a 0,73 kg a mais de perda (IC95%: 0,68-0,78; p<0,001). Maior ingestão total de proteína foi associada a maior perda de peso (β=0,45; p=0,014), enquanto maior proporção de proteína animal foi associada a menor perda (β=-0,52; p=0,004). A classe do medicamento (GLP-1 vs. dual GIP/GLP-1) não foi preditora significativa após ajuste.

 

O que é possível afirmar a partir deste artigo

 

  • Este estudo sugere que adultos em uso de agonistas de GLP-1 ou GIP/GLP-1 recrutados em grupos de suporte online poloneses apresentam ingestão proteica muito abaixo das recomendações, com menos de 3% atingindo a RDA.
  • Os dados indicam que a ingestão de gordura também foi inadequada na maioria dos participantes, com 48,8% abaixo da recomendação na média dos dois dias. Esse déficit tem implicações clínicas relevantes: a ingestão insuficiente de gordura compromete o aporte de ácidos graxos essenciais e pode reduzir a absorção de vitaminas lipossolúveis, incluindo a vitamina D, que já aparece como deficiente nessa população.
  • Os dados indicam uma diferença de ingestão calórica entre dias da semana e final de semana, com maior consumo calórico nos dias úteis, padrão não anteriormente documentado nessa população.
  • Este estudo observacional encontrou associação entre maior ingestão total de proteína e maior perda de peso, e entre maior proporção de proteína animal e menor perda, após ajuste para tempo de tratamento, sexo e idade, embora a contribuição dietética ao modelo seja marginal diante do papel dominante do tempo de uso.
  • O tempo de tratamento, e não a classe do medicamento, foi o preditor dominante de perda de peso nesta amostra.
  • Os dados sugerem que a ingestão elevada de sódio pode ser marcador de padrão alimentar ultraprocessado associado a menor perda de peso.

 

O que não é possível afirmar a partir deste artigo

 

  • Não é possível afirmar que a dieta habitual de usuários de agonistas GLP-1/GIP apresenta esses déficits: o diário de 48 horas captura dois dias, não o padrão alimentar crônico.
  • Não é possível concluir que proteína animal causa menor perda de peso: o delineamento é associativo e o confundimento por tipo de fonte proteica, alimento in natura versus ultraprocessado, não foi mensurado diretamente.
  • Não é possível generalizar para a população brasileira em farmacoterapia, nem para pacientes com suporte nutricional profissional, nem para usuários com menor engajamento em comunidades digitais de saúde.
  • Não é possível afirmar que os valores de ingestão observados representam fielmente a dieta real dessa população, dado o risco de sub-relato em diários autodirecionados.
  • Não é possível afirmar nada sobre micronutrientes específicos com base nos dados apresentados: a afirmação de que menos de 10% atingiu recomendações de vitamina D, cálcio e potássio aparece no texto sem que os dados detalhados desses micronutrientes sejam apresentados nas tabelas ou figuras.

 

Aplicação clínica

 

Os agonistas de GLP-1/GIP promovem supressão do apetite e redução da ingestão alimentar. Esse é exatamente o mecanismo que sustenta a perda de peso. A questão que os dados deste estudo levantam é sobre a qualidade do que ainda é consumido durante esse processo, e é aí que o acompanhamento nutricional se torna indispensável.

O déficit de gordura merece atenção específica. Além das implicações diretas sobre o aporte de ácidos graxos essenciais, a ingestão insuficiente de gordura compromete a absorção de vitaminas lipossolúveis, em especial vitamina D, que já aparece como deficiente nessa população. Há, portanto, uma relação entre os dois déficits que reforça a necessidade de avaliação nutricional integrada, e não restrita a um único nutriente.

Este estudo oferece algo que a prática clínica já pedia: um dado quantitativo, ainda que preliminar, sobre o perfil nutricional de quem está em farmacoterapia com incretinas. A ordem de grandeza do déficit proteico observado, com média de 33 g/dia em uma população cujo alvo recomendado seria de 1,2 a 1,6 g/kg de peso ajustado/dia (Mozaffarian et al., 2025), é suficientemente expressiva para reforçar o que profissionais já orientam na prática: o monitoramento ativo da adequação proteica e de micronutrientes deve ser parte estruturada do acompanhamento durante o tratamento, não uma recomendação genérica ao final da consulta.

A variação de padrão entre dias da semana e final de semana, se confirmada em estudos futuros com metodologia mais robusta, adiciona uma camada de complexidade ao planejamento alimentar que vale ser explorada clinicamente. E o fato de que o tipo de medicamento não foi preditor significativo de perda de peso após ajuste para tempo de tratamento reforça a ideia de que a duração e a qualidade do acompanhamento importam tanto quanto a escolha do fármaco.

Estudos prospectivos com avaliação objetiva de composição corporal, registro alimentar de múltiplos dias e controle para presença de suporte nutricional profissional são os próximos passos necessários para transformar esse sinal clínico em evidência orientadora de conduta.

 

Análise crítica

 

Os autores denominam este trabalho como estudo preliminar, e essa qualificação é adequada e importante: embora venha preencher uma lacuna real, alguns pontos merecem ser considerados para que os achados sejam usados com o enquadramento adequado.

Delineamento e amostra

O recrutamento em grupos de suporte em redes sociais tende a capturar um perfil específico: pessoas engajadas ativamente em comunidades digitais de saúde, majoritariamente mulheres jovens, com acesso digital e motivação para participar de pesquisas. Esse perfil é útil para gerar hipóteses iniciais, mas a transposição direta para outros contextos, incluindo o brasileiro ou o de usuários sem suporte digital, requer cautela.

O diário alimentar de 48 horas é uma escolha compreensível para um estudo exploratório online, mas dois dias capturam variabilidade ocasional, não o padrão alimentar habitual. A média de ingestão de 753 kcal/dia é muito baixa, e embora possa refletir a supressão de apetite promovida pelos medicamentos, a possibilidade de sub-relato, limitação típica de diários alimentares autodirecionados, não pode ser descartada.

A heterogeneidade de tempo de uso (DP de 14 semanas para média de 15,7 semanas) significa que participantes em fases muito distintas do tratamento foram analisados de forma agregada, o que torna a caracterização descritiva um ponto de partida, não uma fotografia definitiva do padrão alimentar nessa população.

Sobre as conclusões

A recomendação central dos autores, de que o monitoramento da adequação proteica e de micronutrientes deve acompanhar a farmacoterapia com incretinas, é clinicamente razoável e alinhada com o advisory conjunto de 2025 da ACLM, ASN, OMA e TOS (Mozaffarian et al. 2025). A interpretação de que a associação negativa entre proteína animal e perda de peso reflete consumo de ultraprocessados ricos em sódio é biologicamente plausível, mas não foi testada diretamente nos dados disponíveis, e merece investigação em estudos futuros com melhor controle da qualidade alimentar.

Conflito de interesse

Financiamento institucional pela Universidade Médica da Pomerânia, sem vínculo com indústria farmacêutica. Sem conflito de interesse identificável com o tema do artigo.

Nota da curadora

Muito se discute sobre o que os agonistas de GLP-1/GIP fazem pelo peso. Mas estudos que avaliam o que as pessoas estão realmente comendo durante o tratamento são raros, e é justamente aí que o nutricionista tem um papel insubstituível. Os dados deste artigo mostram onde as lacunas estão: na proteína, nos micronutrientes, na oscilação entre os dias da semana. São exatamente esses os pontos de intervenção do nutricionista, e são eles que fazem a diferença entre uma perda de peso que preserva massa magra e funcionalidade e uma que não preserva.

Isso aumenta a relevância de uma pergunta que ainda não tem resposta adequada na literatura: como está organizado o cuidado desse paciente? O nutricionista está presente na equipe? E quando está, em que momento do tratamento ele entra? Essas questões importam tanto para quem acessa o tratamento pelo SUS quanto para quem acessa pelo setor privado ou por convênio, porque a ausência de organização do cuidado não é um problema exclusivo de nenhum desses contextos. O nutricionista não é opcional nessa equipe, e os dados começam a mostrar por quê.

Ana Paula Gines Geraldo

Nutricionista, professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora do Obesidade com Ciência

 

Referências:

 

KORUS, S. et al. Dietary intake patterns and nutritional adequacy among adults with overweight or obesity treated with GLP-1 or dual GIP/GLP-1 receptor agonists: preliminary study. Journal of Translational Medicine, v. 24, n. 1, p. 532, 2026. DOI: 10.1186/s12967-026-07702-4.

JANSSON, A. et al. A systematic review identifying critical evidence gaps in reporting dietary change in randomized controlled trials prescribing liraglutide, semaglutide, or tirzepatide. Obesity Reviews, 2026. DOI: 10.1111/obr.70077.

BABAZADEH, D.; WYATT, S.; STEINBERG, F. M. Examining the omission of dietary quality data in glucagon-like peptide 1 clinical trials: a scoping review. Advances in Nutrition, v. 16, n. 10, p. 100491, 2025. DOI: 10.1016/j.advnut.2025.100491.

MOZAFFARIAN, D. et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 122, n. 5, p. 344-367, 2025. DOI: 10.1016/j.ajcnut.2025.04.023.

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Curadoria de artigo 2 – Recomendações de cuidados nutricionais e de estilo de vida para o tratamento da obesidade com terapias baseadas em GLP-1

25/05/2026 17:50

Recomendações nutricionais para GLP-1: um consenso financiado pela Nestlé, com 46% das declarações baseadas em opinião de especialista, que ainda assim tem valor clínico — se lido com cautela

 

Referência: Sievenpiper JL et al. Obesity Pillars, 2026. DOI: 10.1016/j.obpill.2025.100228

Delineamento: Consenso de especialistas por método Delphi modificado, com scoping review como base documental

Leitura estimada: 7 min

 

Por que este artigo agora

 

Os ensaios clínicos de semaglutida e tirzepatida mostram perdas de peso de 15 a 25%, mas quase não descrevem o que os participantes comem, quanto de proteína ingerem ou que suporte nutricional recebem. Uma revisão de 129 RCTs com essas medicações encontrou reporte mínimo sobre qualidade da dieta ou ingestão alimentar. Em outras palavras: a farmacologia foi testada. A nutrição que acompanha esse tratamento, não.

É exatamente esse vácuo que este consenso tenta preencher. E aqui começa a leitura crítica: o documento foi integralmente financiado pela Nestlé Health Science, empresa com linha direta de suplementos proteicos e substitutos de refeição para gestão de peso. Todos os 15 especialistas do painel receberam honorários pessoais dessa empresa. Das 52 declarações aprovadas, 46% são baseadas exclusivamente em opinião de especialista e 33% são extrapolações de diretrizes pré-existentes sobre obesidade, não evidência nova sobre GLP-1.

O que o documento oferece é uma organização estruturada do julgamento clínico disponível sobre um tema sem evidência direta. Lê-se com esse enquadramento ativo desde o início.

 

O que o estudo fez

 

Consenso Delphi modificado conduzido entre maio e setembro de 2024, com painel de 15 especialistas (médicos, pesquisadores e dietistas) de 9 países. A base documental foi uma scoping review de publicações de janeiro de 2021 a junho de 2025, conduzida por empresa contratada pelo patrocinador.

O processo de votação ocorreu em duas rodadas anônimas. Consenso foi definido como ≥67% de concordância (escore ≥7 por 10/15 especialistas). Declarações com 60–66% de concordância e mediana ≥7 também foram incluídas como “consenso moderado”, o que, na prática, significa que até 6 em cada 15 especialistas discordaram. Das 85 declarações iniciais, 52 atingiram o threshold após duas rodadas.

 

O que encontrou

 

As 52 declarações foram organizadas em sete módulos: nutrição geral na obesidade, atividade física, avaliação pré-tratamento, fase de perda de peso ativa, fase de manutenção, manejo dos efeitos adversos gastrointestinais e condutas na descontinuação.

Os pontos de maior relevância clínica:

Área Recomendação
Micronutrientes pré-existentes Pessoas com obesidade já apresentam risco aumentado de deficiências de vitamina D, B12, ferro e cálcio antes de iniciar o GLP-1. A redução da ingestão pode agravar um problema ainda não identificado. Triagem bioquímica indicada quando há sinais clínicos; suplementação recomendada se adesão dietética for duvidosa ou perda de peso excessiva.
Proteína 1,2–1,5 g/kg/dia na fase ativa (25–30% da energia em dieta de 1.600 kcal/dia); ≥0,8 g/kg/dia na manutenção; ≥1,0–1,2 g/kg/dia para maiores de 65 anos.
Fibra ≥25 g/dia para mulheres; ≥30 g/dia para homens; ≥35 g/dia para pessoas com diabetes.
Hidratação 2–4 L/dia (≈35 mL/kg). Atenção redobrada em episódios de náusea, vômito ou diarreia. Monitoramento especial em pacientes com insuficiência cardíaca ou renal.
Atividade física ≥150 min/semana de atividade aeróbica moderada a vigorosa + treino resistido. Combinação GLP-1 + exercício previne perda de densidade mineral óssea observada com medicação isolada (dados de RCTs, incluindo SURMOUNT-3).
Efeitos adversos GI Ocorrem em 50–60% dos pacientes. Refeições menores e frequentes, evitar alimentos gordurosos/picantes na titulação. Constipação é o efeito mais persistente, psyllium pode ser necessário. Tratar náusea farmacologicamente não interfere na perda de peso.
Descontinuação Recuperação de ~2/3 do peso perdido em 1 ano após parada. No STEP-4: +6,9% de peso em 68 semanas ao trocar semaglutida por placebo. No SURMOUNT-4: +14,0% até a semana 88 ao parar tirzepatida.

 

Análise crítica

 

Delineamento e base de evidência

 

Este não é um RCT nem uma revisão sistemática, é um consenso de especialistas. O método Delphi estrutura e torna transparente a elicitação de opinião, mas não transforma opinião em evidência empírica. A distribuição real das 52 declarações revela o que o documento é de fato: quase metade (46%) representa o que especialistas acham, com base na experiência clínica, sem estudo por trás. Um terço (33%) vem de diretrizes escritas para outros contextos e foi transplantado para cá por analogia, não por evidência direta. Apenas 13% têm algum dado observacional como respaldo. E zero declarações foram sustentadas por um ensaio clínico desenhado para testar intervenção nutricional especificamente durante uso de GLP-1.

Na prática, isso significa: se você seguir essas recomendações acreditando que foram testadas e comprovadas em pacientes usando GLP-1, está enganada. Podem estar corretas. Podem não estar. Ninguém ainda verificou isso de forma controlada.

A base documental foi conduzida por empresa contratada pelo patrocinador, não é uma revisão sistemática com protocolo registrado ou avaliação de risco de viés. A maior parte da evidência indireta vem de cirurgia bariátrica e intervenções de estilo de vida sem GLP-1, populações e mecanismos distintos dos usuários de farmacoterapia atual.

O painel é composto exclusivamente por especialistas de países de alta renda, com predominância norte-americana e europeia. A aplicabilidade para o contexto brasileiro, padrões alimentares, acesso a alimentos, realidade socioeconômica, não foi abordada.

As recomendações foram calibradas para o cenário dos trials, onde a perda de peso média é de 15 a 25%. Dados de mundo real nos EUA e na Dinamarca mostram perda de apenas ~5% em pacientes com ou sem diabetes tipo 2. Para o paciente médio da prática clínica, que perde muito menos do que os participantes selecionados dos ensaios, metas de proteína, fibra e monitoramento desenhadas para perdas substanciais podem ter aplicabilidade muito diferente. O documento não aborda essa lacuna.

 

Limitações declaradas pelos autores

 

Os próprios autores reconhecem: escopo temporal restrito da revisão, viés regional do painel, evidência indireta e mal reportada sobre nutrição nos trials de GLP-1, exclusão de medicações para obesidade de próxima geração e escassez de dados de populações não ocidentais. A conclusão declara que as recomendações são complementares às diretrizes existentes e que evidência direta é urgentemente necessária.

 

Conflito de interesse

 

O financiamento integral foi da Nestlé Health Science. Todos os 15 especialistas receberam honorários pessoais da empresa. Vários têm vínculos adicionais com Novo Nordisk, Eli Lilly, Boehringer Ingelheim e AstraZeneca. Isso não invalida o estudo, mas reforça a necessidade de cautela na leitura.

Os autores declaram que o patrocinador não teve direito de voto, veto ou influência sobre o conteúdo e o processo Delphi anônimo reduz, mas não elimina, o potencial de influência. Há, porém, um ponto anterior ao voto que não é abordado: os dois coordenadores que estruturaram as declarações submetidas ao painel foram selecionados pelo patrocinador. No Delphi, a forma como uma afirmação é enquadrada influencia o resultado tanto quanto o voto em si. Nunca chegamos a saber que declarações foram descartadas antes de entrar na votação.

O problema não é só de processo: um consenso internacional que recomenda suporte nutricional estruturado, substitutos de refeição e suplementação proteica é, por si só, um ativo comercial para a Nestlé, independentemente de quão honestas sejam as intenções individuais dos autores. As recomendações mais operacionais e específicas concentram-se exatamente nos módulos onde a empresa tem produtos. Isso é um conflito estrutural. Não é prova de manipulação, mas precisa ser nomeado.

 

O que é possível afirmar a partir do estudo

 

  • Este consenso documenta, com clareza, que o suporte nutricional durante uso de GLP-1 é insuficientemente abordado na prática e que não há evidência direta para guiar a conduta — o que já tem valor informativo.
  • Manter ingestão proteica adequada e atividade física regular durante perda de peso com GBT é biologicamente plausível e alinhado com evidência indireta de outros contextos de perda de peso significativa — mas sem confirmação direta no cenário de GLP-1.
  • Cerca de 25–30% da perda total de peso com GLP-1 corresponde a massa magra (metanálise recente + análise post-hoc do SURMOUNT-1), o que sustenta a atenção ativa à preservação muscular.
  • Os dados de reganho pós-descontinuação são robustos (STEP-4, SURMOUNT-4) e reforçam a necessidade de suporte contínuo mesmo após a parada da medicação.
  • Como orientação organizada e consistente com diretrizes independentes, o documento tem utilidade clínica — com as ressalvas explicitadas.

O que não é possível afirmar

 

  • Que qualquer estratégia nutricional recomendada aqui seja superior a alternativas no contexto de GLP-1, não existem RCTs comparando abordagens distintas nesse cenário.
  • Que a meta proteica de 1,2–1,5 g/kg/dia seja a ideal para todos: a própria literatura citada apresenta variação considerável, e usar peso real superestima a necessidade em pacientes com alta adiposidade.
  • Que a extrapolação de dados de cirurgia bariátrica e intervenções sem GLP-1 seja diretamente aplicável — os mecanismos e perfis de pacientes diferem.
  • Que este documento seja uma referência neutra. Usar suas orientações gerais é razoável. Adotá-lo como fundamento para recomendar produtos específicos,  substitutos de refeição, suplementos proteicos, sem essa ressalva é um erro de julgamento clínico.

 

Aplicação clínica

 

Para quem já conduz o cuidado nutricional com rigor, este documento muda pouco na prática. As metas de proteína, fibra e hidratação são consistentes com o que diretrizes independentes já recomendam para perda de peso em geral.

Três pontos merecem atenção especial por serem subvalorizados na rotina:

  1. o rastreio de deficiências de micronutrientes antes de iniciar o GLP-1 e não apenas depois, quando a ingestão já caiu;
  2. a triagem para transtornos alimentares com instrumentos curtos (SCOFF ou ESP) antes da prescrição, dado que o medicamento pode agravá-los;
  3. o monitoramento ativo de perda excessiva de peso durante a titulação (>1,5 kg/semana como sinal de alerta clínico).

Na prática, as metas nutricionais do consenso: 1,2–1,5 g/kg de proteína na fase ativa, ≥25–30 g de fibra por dia, hidratação adequada e treino resistido, são biologicamente plausíveis e consistentes com o que já se recomenda em outros contextos de perda de peso significativa. A ausência de RCTs específicos com GLP-1 não as invalida: significa que a certeza é moderada, não que estão erradas. Aplicá-las com julgamento clínico individualizado é razoável. Aplicá-las como protocolo fixo ou como justificativa para produtos específicos, não.

A Figura 1 do artigo pode funcionar como checklist organizador para a consulta. As recomendações sobre substitutos de refeição e suplementação específica devem ser avaliadas com a mesma pergunta que vale para qualquer dado: quem financiou, e quem se beneficia?

Nota da curadora:

Quando vi este consenso pela primeira vez, pensei que seria exatamente o que faltava na prática: um guia organizado para conduzir a nutrição de quem usa GLP-1. E em parte é. Mas o financiamento da Nestlé Health Science, uma empresa com linha direta de produtos de suplementação e substitutos de refeição, me fez reler tudo com outros olhos. As recomendações são razoáveis e alinhadas com o que já fazemos, mas o entusiasmo com substitutos de refeição e suplementos proteicos fica difícil de dissociar de quem patrocinou a elaboração desse artigo. Vale usar o documento como referência, com essa lente sempre ativa.

Ana Paula Gines Geraldo — Nutricionista, professora da UFSC, coordenadora do Obesidade com Ciência UFSC

Referência:

Sievenpiper JL, Ard J, Blüher M, Chen W, Dixon JB, Fitch A, Gigliotti L, Khunti K, Lecube A, Lean MEJ, Mittendorfer B, Pfeiffer AFH, Ryan DH, Vilsbøll T, Van Gaal LF. Nutritional and lifestyle supportive care recommendations for management of obesity with GLP-1-based therapies: An expert consensus statement using a modified Delphi approach. Obesity Pillars. 2026;17:100228. doi:10.1016/j.obpill.2025.100228

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