Curadoria científica 7 – Acompanhamento nutricional no uso de medicações com GLP-1 e GIP: os dados mostram que não é opcional
Acompanhamento nutricional no uso de agonistas de GLP-1/GIP: os dados mostram que não é opcional
Curadoria científica feita por: Ana Paula Gines Geraldo – Nutricionista, professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora do Obesidade com Ciência
Leitura estimada: 6 min
Por que este artigo agora
Quem atua com pacientes em uso de agonistas de GLP-1/GIP sabe, na prática clínica e pelas redes sociais, que uma das preocupações mais legítimas com essa farmacoterapia é exatamente essa: a supressão de apetite promovida pelos medicamentos pode levar a uma redução calórica tão intensa que compromete a ingestão de proteína e micronutrientes essenciais. Profissionais de saúde repetem isso em consultas e em conteúdos educativos. O problema é que, até agora, faltava evidência sistematizada para sustentar essa preocupação com dados reais de ingestão alimentar.
A dimensão dessa lacuna ficou evidente em duas revisões publicadas recentemente. Jansson et al. (Obesity Reviews, 2026) analisaram 41 ensaios clínicos randomizados sobre liraglutida, semaglutida e tirzepatida, envolvendo mais de 50.000 participantes, e encontraram que apenas 2 deles, cerca de 5%, avaliaram ingestão alimentar como desfecho. Babazadeh et al. (2025), em uma revisão de escopo mais ampla com 129 ensaios, chegaram a conclusão semelhante: somente 10 estudos (8%) reportaram dados de ingestão, e metade usou avaliações pontuais em laboratório, não registro da dieta habitual. Em outras palavras, os ensaios clínicos que definiram a eficácia dessas medicações, os chamados estudos pivotais, ou seja, os grandes estudos randomizados que serviram de base para a aprovação regulatória dos medicamentos, praticamente ignoraram o que as pessoas estavam comendo durante o tratamento.
Nesse cenário, o trabalho de Korus et al. ganha relevância por ser um dos primeiros a tentar mapear sistematicamente o perfil nutricional de usuários reais de agonistas de GLP-1 e GIP/GLP-1, cobrindo macronutrientes, micronutrientes selecionados e variação entre dias da semana e final de semana. É um estudo preliminar, com limitações que serão discutidas adiante, mas que começa a preencher uma lacuna que a prática clínica já sinalizava há tempo.
O que o estudo fez
O estudo possui o delineamento de coorte retrospectiva conduzida inteiramente online, recrutando participantes de grupos de suporte em redes sociais polonesas (Facebook e Instagram) de abril de 2024 a fevereiro de 2025. Foram incluídos 387 adultos com sobrepeso ou obesidade (IMC médio 36,4 kg/m²) em uso de dulaglutida, liraglutida, semaglutida ou tirzepatida, com frequência semanal de uso. A média de idade foi de 34,9 anos (DP 9,9), e 80,4% eram mulheres.
Os participantes preencheram um diário alimentar de 48 horas, cobrindo um dia de semana (predominantemente sexta-feira) e um dia de final de semana (predominantemente sábado), com registro de horário, peso ou medida doméstica, modo de preparo e marca dos alimentos. Os registros foram processados no software Dieta-6 (banco de dados do Instituto Nacional de Saúde Pública polonês, 2024), gerando valores para energia e 42 nutrientes. Os resultados foram comparados com as DRI polonesas de 2024. A perda de peso foi obtida por autorrelato (peso antes do tratamento e peso atual).
A duração média de tratamento reportada foi de 15,7 semanas, com desvio padrão de 14 semanas, o que indica heterogeneidade importante de tempo de uso dentro da amostra.
O que o estudo encontrou
A ingestão energética média foi de 753 kcal/dia (DP 257,8 kcal), com proteína de 33,4 g/dia, gordura de 26,5 g/dia e carboidratos de 96,4 g/dia. Em relação às recomendações de proteína, 97% dos participantes ficaram abaixo da RDA; nenhum atingiu exatamente a recomendação. Menos de 10% atingiu as recomendações para proteína, fibra, vitamina D, cálcio e potássio.
A ingestão de gordura também apresentou inadequação relevante. Na média dos dois dias, 48,8% dos participantes ficou abaixo da recomendação, 38,2% dentro e apenas 12,9% acima. O padrão predominante, portanto, é de déficit, com variação importante entre os dias: nos dias de semana, o consumo foi maior em 7-10 g em comparação ao final de semana (p<0,001), quando 63,6% ficou abaixo da recomendação.
Houve também diferença significativa na ingestão calórica entre dias da semana e final de semana: nos dias úteis, a ingestão foi maior em 170 kcal (IC95%: 152-185; p<0,001), com maior consumo de sódio (370 mg a mais). A proteína total não diferiu entre os dias, mas a proteína de origem animal foi significativamente maior nos dias de semana.
Na análise de regressão múltipla para perda de peso, o tempo de tratamento foi o preditor dominante: cada semana adicional foi associada a 0,73 kg a mais de perda (IC95%: 0,68-0,78; p<0,001). Maior ingestão total de proteína foi associada a maior perda de peso (β=0,45; p=0,014), enquanto maior proporção de proteína animal foi associada a menor perda (β=-0,52; p=0,004). A classe do medicamento (GLP-1 vs. dual GIP/GLP-1) não foi preditora significativa após ajuste.
O que é possível afirmar a partir deste artigo
- Este estudo sugere que adultos em uso de agonistas de GLP-1 ou GIP/GLP-1 recrutados em grupos de suporte online poloneses apresentam ingestão proteica muito abaixo das recomendações, com menos de 3% atingindo a RDA.
- Os dados indicam que a ingestão de gordura também foi inadequada na maioria dos participantes, com 48,8% abaixo da recomendação na média dos dois dias. Esse déficit tem implicações clínicas relevantes: a ingestão insuficiente de gordura compromete o aporte de ácidos graxos essenciais e pode reduzir a absorção de vitaminas lipossolúveis, incluindo a vitamina D, que já aparece como deficiente nessa população.
- Os dados indicam uma diferença de ingestão calórica entre dias da semana e final de semana, com maior consumo calórico nos dias úteis, padrão não anteriormente documentado nessa população.
- Este estudo observacional encontrou associação entre maior ingestão total de proteína e maior perda de peso, e entre maior proporção de proteína animal e menor perda, após ajuste para tempo de tratamento, sexo e idade, embora a contribuição dietética ao modelo seja marginal diante do papel dominante do tempo de uso.
- O tempo de tratamento, e não a classe do medicamento, foi o preditor dominante de perda de peso nesta amostra.
- Os dados sugerem que a ingestão elevada de sódio pode ser marcador de padrão alimentar ultraprocessado associado a menor perda de peso.
O que não é possível afirmar a partir deste artigo
- Não é possível afirmar que a dieta habitual de usuários de agonistas GLP-1/GIP apresenta esses déficits: o diário de 48 horas captura dois dias, não o padrão alimentar crônico.
- Não é possível concluir que proteína animal causa menor perda de peso: o delineamento é associativo e o confundimento por tipo de fonte proteica, alimento in natura versus ultraprocessado, não foi mensurado diretamente.
- Não é possível generalizar para a população brasileira em farmacoterapia, nem para pacientes com suporte nutricional profissional, nem para usuários com menor engajamento em comunidades digitais de saúde.
- Não é possível afirmar que os valores de ingestão observados representam fielmente a dieta real dessa população, dado o risco de sub-relato em diários autodirecionados.
- Não é possível afirmar nada sobre micronutrientes específicos com base nos dados apresentados: a afirmação de que menos de 10% atingiu recomendações de vitamina D, cálcio e potássio aparece no texto sem que os dados detalhados desses micronutrientes sejam apresentados nas tabelas ou figuras.
Aplicação clínica
Os agonistas de GLP-1/GIP promovem supressão do apetite e redução da ingestão alimentar. Esse é exatamente o mecanismo que sustenta a perda de peso. A questão que os dados deste estudo levantam é sobre a qualidade do que ainda é consumido durante esse processo, e é aí que o acompanhamento nutricional se torna indispensável.
O déficit de gordura merece atenção específica. Além das implicações diretas sobre o aporte de ácidos graxos essenciais, a ingestão insuficiente de gordura compromete a absorção de vitaminas lipossolúveis, em especial vitamina D, que já aparece como deficiente nessa população. Há, portanto, uma relação entre os dois déficits que reforça a necessidade de avaliação nutricional integrada, e não restrita a um único nutriente.
Este estudo oferece algo que a prática clínica já pedia: um dado quantitativo, ainda que preliminar, sobre o perfil nutricional de quem está em farmacoterapia com incretinas. A ordem de grandeza do déficit proteico observado, com média de 33 g/dia em uma população cujo alvo recomendado seria de 1,2 a 1,6 g/kg de peso ajustado/dia (Mozaffarian et al., 2025), é suficientemente expressiva para reforçar o que profissionais já orientam na prática: o monitoramento ativo da adequação proteica e de micronutrientes deve ser parte estruturada do acompanhamento durante o tratamento, não uma recomendação genérica ao final da consulta.
A variação de padrão entre dias da semana e final de semana, se confirmada em estudos futuros com metodologia mais robusta, adiciona uma camada de complexidade ao planejamento alimentar que vale ser explorada clinicamente. E o fato de que o tipo de medicamento não foi preditor significativo de perda de peso após ajuste para tempo de tratamento reforça a ideia de que a duração e a qualidade do acompanhamento importam tanto quanto a escolha do fármaco.
Estudos prospectivos com avaliação objetiva de composição corporal, registro alimentar de múltiplos dias e controle para presença de suporte nutricional profissional são os próximos passos necessários para transformar esse sinal clínico em evidência orientadora de conduta.
Análise crítica
Os autores denominam este trabalho como estudo preliminar, e essa qualificação é adequada e importante: embora venha preencher uma lacuna real, alguns pontos merecem ser considerados para que os achados sejam usados com o enquadramento adequado.
Delineamento e amostra
O recrutamento em grupos de suporte em redes sociais tende a capturar um perfil específico: pessoas engajadas ativamente em comunidades digitais de saúde, majoritariamente mulheres jovens, com acesso digital e motivação para participar de pesquisas. Esse perfil é útil para gerar hipóteses iniciais, mas a transposição direta para outros contextos, incluindo o brasileiro ou o de usuários sem suporte digital, requer cautela.
O diário alimentar de 48 horas é uma escolha compreensível para um estudo exploratório online, mas dois dias capturam variabilidade ocasional, não o padrão alimentar habitual. A média de ingestão de 753 kcal/dia é muito baixa, e embora possa refletir a supressão de apetite promovida pelos medicamentos, a possibilidade de sub-relato, limitação típica de diários alimentares autodirecionados, não pode ser descartada.
A heterogeneidade de tempo de uso (DP de 14 semanas para média de 15,7 semanas) significa que participantes em fases muito distintas do tratamento foram analisados de forma agregada, o que torna a caracterização descritiva um ponto de partida, não uma fotografia definitiva do padrão alimentar nessa população.
Sobre as conclusões
A recomendação central dos autores, de que o monitoramento da adequação proteica e de micronutrientes deve acompanhar a farmacoterapia com incretinas, é clinicamente razoável e alinhada com o advisory conjunto de 2025 da ACLM, ASN, OMA e TOS (Mozaffarian et al. 2025). A interpretação de que a associação negativa entre proteína animal e perda de peso reflete consumo de ultraprocessados ricos em sódio é biologicamente plausível, mas não foi testada diretamente nos dados disponíveis, e merece investigação em estudos futuros com melhor controle da qualidade alimentar.
Conflito de interesse
Financiamento institucional pela Universidade Médica da Pomerânia, sem vínculo com indústria farmacêutica. Sem conflito de interesse identificável com o tema do artigo.
Nota da curadora
Muito se discute sobre o que os agonistas de GLP-1/GIP fazem pelo peso. Mas estudos que avaliam o que as pessoas estão realmente comendo durante o tratamento são raros, e é justamente aí que o nutricionista tem um papel insubstituível. Os dados deste artigo mostram onde as lacunas estão: na proteína, nos micronutrientes, na oscilação entre os dias da semana. São exatamente esses os pontos de intervenção do nutricionista, e são eles que fazem a diferença entre uma perda de peso que preserva massa magra e funcionalidade e uma que não preserva.
Isso aumenta a relevância de uma pergunta que ainda não tem resposta adequada na literatura: como está organizado o cuidado desse paciente? O nutricionista está presente na equipe? E quando está, em que momento do tratamento ele entra? Essas questões importam tanto para quem acessa o tratamento pelo SUS quanto para quem acessa pelo setor privado ou por convênio, porque a ausência de organização do cuidado não é um problema exclusivo de nenhum desses contextos. O nutricionista não é opcional nessa equipe, e os dados começam a mostrar por quê.
Ana Paula Gines Geraldo
Nutricionista, professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenadora do Obesidade com Ciência
Referências:
KORUS, S. et al. Dietary intake patterns and nutritional adequacy among adults with overweight or obesity treated with GLP-1 or dual GIP/GLP-1 receptor agonists: preliminary study. Journal of Translational Medicine, v. 24, n. 1, p. 532, 2026. DOI: 10.1186/s12967-026-07702-4.
JANSSON, A. et al. A systematic review identifying critical evidence gaps in reporting dietary change in randomized controlled trials prescribing liraglutide, semaglutide, or tirzepatide. Obesity Reviews, 2026. DOI: 10.1111/obr.70077.
BABAZADEH, D.; WYATT, S.; STEINBERG, F. M. Examining the omission of dietary quality data in glucagon-like peptide 1 clinical trials: a scoping review. Advances in Nutrition, v. 16, n. 10, p. 100491, 2025. DOI: 10.1016/j.advnut.2025.100491.
MOZAFFARIAN, D. et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 122, n. 5, p. 344-367, 2025. DOI: 10.1016/j.ajcnut.2025.04.023.


